Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

O 7 X 0 da carreira de Neymar

O jogador sonhava deixar o PSG para voltar ao Barcelona — até dinheiro do próprio bolso ele ofereceu. Não deu certo

Poucas carreiras no futebol são tão mal administradas como a de Neymar — a mando do pai, o homônimo que não perde oportunidade de tomar uma decisão errada, o craque brasileiro tem descido sucessivos degraus numa trajetória que sempre beirou o espetacular, mas nunca atingiu o cume alcançado por dois de seus mais celebrados contemporâneos, Messi e Cristiano Ronaldo. O argentino e o português foram eleitos cinco vezes cada um como o melhor do mundo.

O ex-santista, que nasceu para ser Pelé, ainda está na fila, e tão cedo não chegará lá. Na segunda-feira 2 de setembro, com o encerramento da janela de transações europeias, soube-se que ele continuará no mediano PSG. O namoro com o Barcelona foi firme — o próprio staff de Neymar ofereceu 20 milhões de euros, o equivalente a 90 milhões de reais, para que ele voltasse à Catalunha, mas não deu certo. Em 2017, o atacante havia saído da Espanha por 222 milhões de euros — os franceses, agora, refutaram qualquer valor inferior àquele montante histórico.

Tentou-se algo em torno de 150 milhões de euros, somados à aquisição de dois jogadores do Barcelona, Ivan Rakitic e Jean-Clair Todibo, e ao empréstimo de um terceiro, Ousmane Dembélé. A ideia naufragou, e a trinca acabou se ofendendo ao entrar em cena como mero troco.

No PSG, evidentemente de má vontade, Neymar, o rei da cizânia, já não terá a vida fácil dos primeiros dois anos. Em 15 de julho, ao retornar aos treinos, enquanto insistia para dar o fora, ele foi recebido no vestiário do clube parisiense com ironia pelo diretor esportivo do time, o ex-lateral esquerdo brasileiro Leonardo, segundo relato do jornal L’Équipe. “Falarei em francês; se alguns não entendem, precisam ter aulas”, disse.

É sabido que Neymar, permanentemente cercado pelos parças, rechaça toda tentativa de aprender uma ou outra frase completa no idioma de Molière, como se fosse um trunfo a diferenciá-lo dos outros jogadores. A postura um tanto egoísta — o craque se mostra mais interessado em festanças e rapapés do que em bola, além de ter uma acusação de estupro no meio do caminho — irritou o presidente do clube, o empresário Nasser Al-Khelaifi, do Catar.

“Quero atletas que defendam a honra da nossa camisa”, afirmou. “Ninguém obrigou Neymar a assinar conosco.” A torcida faz coro e o xinga sempre que pode. Há solução, evidentemente, porque ele é um espetáculo dentro de campo (quando não cisma em cair sem parar), mas a margem de manobra diminui exponencialmente. Neymar encolheu. “Se ele realmente pensa em futebol, tem agora uma grande chance de recomeçar a construir sua imagem”, diz José Carlos Brunoro, consultor de gestão e marketing esportivo. “Mas precisa definir as prioridades — ou é o esporte ou é a vida de celebridade.”

Neymar quis deixar a sombra de Messi para virar unanimidade. Tentou retornar à sombra da qual fugiu e não funcionou. Sua derradeira boia é a seleção brasileira, em busca do hexa no Catar, em 2022. Tite o defende a qualquer custo, alheio aos rolos do queridinho — mas já se sabe, depois do título da Copa América, que o Brasil pode sobreviver nos gramados sem Neymar.

Fotos Getty Images e Futura Press

Publicado em VEJA de 11 de setembro de 2019, edição nº 2651