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Neymar dá show e Brasil segue adiante, apesar de sustos

Com vitória por 4 a 1 sobre Camarões (com 2 do camisa 10, artilheiro da Copa), a seleção avança em primeiro lugar do grupo. No sábado, rival é o Chile em Minas

Neymar, a estrela solitária do time, deu um espetáculo à parte, mas os companheiros pouco colaboraram no primeiro tempo. Na etapa final, a entrada de Fernandinho fez a equipe crescer – e o volante virar candidatíssimo a titular

Não foi como em 2013, por mais que a torcida de Brasília tentasse repetir o clima da Copa das Confederações, iniciada no próprio Estádio Nacional Mané Garrincha. Pelo menos uma coisa, porém, se repetiu: assim como na campanha vitoriosa da seleção no ensaio geral para a Copa do Mundo, o Brasil triunfou graças a Neymar, mais uma vez decisivo, mais uma vez brilhante. Com dois belos gols e alguns lances extraordinários, como uma sequência de chapéus, o craque colocou a equipe na fase eliminatória do torneio, e em primeiro lugar do grupo, graças a uma vitória relativamente tranquila sobre Camarões, 4 a 1, nesta segunda-feira. Fred e Fernandinho marcaram os outros gols do Brasil. O primeiro tempo do time de Luiz Felipe Scolari não foi bom, apesar da vantagem no placar (o jogo virou 2 a 1): a seleção errou em demasia e voltou a mostrar uma alarmante vulnerabilidade na defesa. �A equipe melhorou muito com a entrada de Fernandinho, já no intervalo – e ele aparece como excelente candidato a ocupar a vaga de Paulinho, que voltou a jogar mal. O próximo desafio do Brasil na Copa já está marcado: sábado, às 13 horas (de Brasília), em Belo Horizonte, contra o Chile, segundo colocado do Grupo B – será a partida de abertura das oitavas de final. Assim como no jogo desta segunda, uma derrota significa adiar o sonho do hexa para a Rússia-2018. O outro classificado no grupo é o México, que enfrentará a Holanda nas oitavas.

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Espetáculo solo – Antes do apito inicial, a torcida deixou de lado seus cantos mais batidos e, pela primeira vez na competição, gritou que “O campeão voltou”. De fato, a seleção parecia disposta a reeditar o clima de 2013, quando estreou com vitória na Copa das Confederações neste mesmo estádio. Assim como na campanha vitoriosa do ano passado, o time de Felipão iniciou a partida com uma blitz, marcando a saída de bola do adversário e tentando sufocá-lo no campo defensivo. Em menos de três minutos, foram dois momentos de pressão, com jogadas de Hulk e Neymar. David Luiz pedia� o incentivo da torcida, mas ela era menos barulhenta do que nas duas primeiras partidas – talvez reflexo da desconfiança surgida desde o empate com o México. A chance mais perigosa do início de jogo foi de Camarões: aos 8 minutos, Enoh recebeu de frente para o gol e soltou a bomba, interceptada por Marcelo. Os africanos se animaram e partiram para cima. �Aos 12, mais uma chance, num cruzamento de Choupo-Moting desviado na pequena área por David Luiz. Dispostos a complicar o jogo, os camaroneses tentavam intimidar: aos 15, Nyom empurrou Neymar pelas costas, numa bola já perdida pela linha de fundo. A torcida se irritou e chegou a arremessar copos plásticos na direção do campo.

O craque se vingou no minuto seguinte: Luiz Gustavo fez o desarme, se mandou pela ponta esquerda e cruzou rasteiro para o camisa 10 marcar seu terceiro gol no Mundial. �A abertura do placar era o que o Brasil precisava para enfim colocar os nervos no lugar e tentar controlar melhor o jogo. Aos 19, Neymar voltou a ameaçar, acertando uma bomba que o goleiro Itandje rebateu no susto. Em seguida, outra chance, com Fred sendo bloqueado na pequena área após cruzamento de Paulinho. Hulk, que voltou ao time titular depois de desfalcar o Brasil contra o México, era muito acionado no ataque. Aguerrido e sempre pedindo jogo, o camisa 7 era uma arma perigosa, ainda que faltasse precisão aos seus lances. O panorama do jogo era preocupante, já que as falhas defensivas� continuavam – e o time africano, como franco-atirador, tentava explorar todas elas. Aos 25, Matip subiu de cabeça no escanteio e acertou o travessão. Na jogada seguinte, em novo cruzamento, o mesmo Matip empurrou para as redes, depois que Nyom dobrou Daniel Alves num lance individual. Com medo de marcar o gol contra, Thiago Silva e David Luiz só observaram a bola rasteira cruzando a pequena área.

A torcida brasileira continuava sofrendo com os sustos na defesa, principalmente pelo lado de Daniel Alves, mal na marcação. A bola aérea também era um problema: a cada lance pelo alto, nova agonia. �Como já virou costume nesta Copa, o Brasil foi resgatado do fundo do poço por Neymar, que recolocou a seleção em vantagem aos 34 minutos, depois de receber de Marcelo, arrancar em diagonal e deslocar o goleiro camaronês com um chute rasteiro, de pé direito, quase sobre a risca da área. Segundo gol do craque no jogo, seu quarto no Mundial. Mesmo com a equipe da casa em vantagem, o jogo seguia tenso, e a seleção, muito afobada e instável, cometia erros demais – Paulinho e David Luiz falharam em diversas saídas de bola. Neymar, a estrela solitária do time, dava um espetáculo solo, mas os companheiros de time pouco colaboravam. No último lance do primeiro tempo, ele emendou dois chapéus e criou mais uma boa jogada pela esquerda. Hulk, com muita raça e pouca técnica, se atrapalhou ao tentar finalizar. O brilho de Neymar era tão intenso que o craque, com seu nome gritado repetidamente pela torcida, não conseguiu ir direto ao vestiário: antes, teve de posar para fotos ao lado de integrantes da delegação camaronesa.

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Novidade no meio – A seleção voltou para o segundo tempo com uma alteração: em momento muito ruim, Paulinho, que na véspera tinha sido muito elogiado por Felipão (“Confio cegamente nele”, disse o técnico) deu lugar a Fernandinho, encarregado de enfim dar estabilidade ao meio-campo. E ele mostrou serviço logo no segundo minuto de sua participação, deixando Hulk de frente para o gol. O atacante, que a essa altura já ouvia vaias do torcedor pelos lances desajeitados, foi bloqueado na hora de finalizar. Depois de mais um bom passe de Fernandinho, que clareou a jogada para David Luiz entrar de surpresa pela ponta esquerda, Fred enfim desencantou, recebendo o cruzamento do zagueiro, cabeceando com sutileza e estufando as redes pela primeira vez desde o último amistoso antes da Copa, contra a Sérvia, no Morumbi. O centroavante saiu comemorando muito, aliviado com o fim do jejum. Aos 12 minutos, Hulk voltou a desperdiçar um lance de ataque ao insistir no arremate a gol enquanto Neymar pedia sozinho pelo meio. A paciência do torcedor com ele já se esgotava. Neymar, enquanto isso, tentava variar ainda mais seu repertório, com uma tentativa de lambreta sobre o zagueiro. Em seguida, mais um chapéu e uma constatação inescapável: mais do que nunca, a seleção brasileira era dependente e refém do brilho de seu grande craque.

Aos 17, com a marcação do Brasil ainda vacilando em algumas investidas dos camaroneses, Felipão substituiu Hulk por Ramires. Com um adversário agora desinteressado e a seleção satisfeita com a vantagem no marcador, a partida esfriou – mas não para Fernandinho e Ramires, que tentavam mostrar serviço para cavar uma vaga entre os titulares. Aos 21, o volante desarmou e acionou o meia pela ponta direita, mas seu alvo, Neymar, estava em impedimento. O camisa 5 era tudo o que Paulinho jamais foi neste Mundial: Fernandinho roubava bolas, distribuía bons passes, aparecia para dar suporte ao ataque e enfim oferecia algum equilíbrio ao meio-campo brasileiro. O show de Neymar acabou aos 25 minutos, quando o craque – pendurado com um cartão amarelo e presa caçada de forma cada vez mais voraz pelos africanos – deu lugar a Willian, como Felipão já planejava desde antes da partida. Mas quem aproveitava mesmo sua chance era mesmo Fernandinho, que fechou o placar aos 39 minutos, finalizando de bico, na saída do goleiro, um passe de Oscar. O Brasil saía de campo com algumas certezas (como o caminho a ser trilhado a partir de agora, por Belo Horizonte e Fortaleza, em caso de vaga nas quartas, e o bom potencial de Fernandinho) mas também algumas dúvidas – a começar por o que ainda falta para o Brasil ser o mesmo de 2013.