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“Não sou um monstro”, diz Rogério Caboclo, presidente afastado da CBF

Após escândalo de denúncia de assédio sexual e moral feita por uma funcionária, ele pede desculpas e culpa o ex-aliado Marco Polo del Nero

Por Cilene Pereira e Fábio Altman Atualizado em 5 ago 2021, 17h05 - Publicado em 6 ago 2021, 06h00

Em abril de 2018, o administrador de empresas e advogado paulista Rogério Caboclo, de 48 anos, foi eleito o 20º presidente da história da Confederação Brasileira e Futebol, a CBF. Apoiado por Marco Polo del Nero, seu antecessor, o dirigente que fora banido pela Fifa de suas atividades depois de uma série de denúncias de corrupção, Caboclo recebeu 135 dos 141 votos, com a sustentação maciça das federações estaduais. Seu mandato iria de 2019 a 2023, não fosse um escândalo que veio a público em junho passado. Uma das funcionárias da entidade o acusou de assédio sexual e moral, comprovado em gravação. O resultado: afastamento da presidência imposto pela Comissão de Ética da CBF, inicialmente por um mês e depois por outros sessenta dias.

No início desta semana, deu-se outro movimento ruidoso. Por decisão judicial, a eleição de 2018 foi anulada — o que impediria o retorno do cartola. Horas depois, contudo, um efeito suspensivo acatado pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro cancelou a decisão. Sobre todo esse imbróglio, Caboclo conversou com VEJA, por meio de videoconferência. A seguir os principais trechos.

Uma funcionária da CBF que trabalhava a seu lado o acusa de assédio sexual e moral. Na denúncia, gravada e exibida por uma emissora de televisão, ouve-se claramente o senhor perguntar se ela se masturbava. Por que o senhor se sentiu no direito de fazer aquela indagação? A conversa foi gravada com uma pessoa com quem eu mantinha uma certa intimidade e amizade, inclusive com a minha mulher. Era alguém que vivia no seio do meu lar, jantava conosco, tinha uma convivência permanente até fora do trabalho. Essa conversa, extraída do contexto em que ela de fato aconteceu, pode dar outros contornos e outro tipo de avaliação.

Qual foi o contexto? Antes de mais nada, tenho de dizer que o meu comportamento não pode ser considerado aceitável. Quero fazer um pedido de desculpas, não só em relação à minha ex-secretária, mas a qualquer pessoa que possa ter se sentido ofendida por aquela gravação. Estou abalado, mas tenho consciência de que as palavras que eu disse ali foram muito grosseiras.

Houve algum truque de edição no diálogo divulgado, ou foi exatamente como se ouviu na televisão? Sim, é notório que houve edição, a voz dela foi suprimida, e não se percebe a troca entre as pessoas naquela conversa. Mas esse aspecto não é o principal, pouco importa se houve edição. Tínhamos intimidade, eu a considerava até como uma confidente. E pessoas com essa intimidade podem ter conversas mais próximas. Mas insisto, fiz comentários infelizes e de mau gosto — e meus adversários usaram isso contra mim, e virou um caso político. Logo em seguida, me fizeram uma proposta financeira que, de fato, eu não podia aceitar.

Que proposta foi feita ao senhor? Depois da gravação, a funcionária continuou a trabalhar comigo normalmente por praticamente um mês, com a mesma regularidade e eficiência de sempre. Ela pediu afastamento, alegando questões pessoais, de natureza familiar. Em seguida, me foi apresentado um acordo que eu jamais teria capacidade financeira de bancar, em nome de um pretenso silêncio da funcionária. Quem o apresentou foi o ex-presidente da CBF Marco Polo del Nero, de próprio punho, comprovado depois em exame grafo técnico, solicitando 12,4 milhões de reais. Ao final, o valor chegou a 8 milhões de reais. No dia 4 de junho eu decidi, definitivamente, não prosseguir com o diálogo. Naquele mesmo dia a denúncia foi tornada pública.

“Fiz comentários de mau gosto — e meus adversários usaram isso contra mim. Depois, me fizeram uma proposta financeira, em nome de pretenso silêncio da funcionária”

O senhor pensou em aceitar o acordo? Sei que ela não vivia um bom momento, era alguém que eu conhecia e portanto haveria, claro, espaço para aproximação. Em bases justas, talvez pudéssemos conversar, mas não nos termos em que me foi apresentado.

Qual foi, afinal, o impacto da denúncia em sua vida pessoal? A despeito dos erros que eu possa ter cometido, não sou um monstro. As pessoas que me conhecem me consideram uma pessoa educada, trabalhadora e principalmente respeitadora de seres humanos de qualquer gênero. Tive em todos os momentos a companhia e o apoio da minha esposa, a Keila, do meu filho e de outros familiares.

A mulher que denunciou o senhor diz ter sido vítima de outros episódios de assédio. Eles ocorreram? Posso afirmar categoricamente que nunca cometi nenhum tipo de assédio. Nunca tive a liberdade de tocá-la, de insinuar qualquer coisa. Nunca tive nenhum apreço a não ser o de cunho profissional. Não houve nada parecido além daquele episódio gravado. Se pudesse voltar no tempo, não teria feito o que fiz. Me arrependo profundamente. Só eu sei o sofrimento que causei a mim e à minha família. Tenho muita vergonha. Não sou a pessoa ruim traçada pelo noticiário — e espero que aqueles que venham a me julgar levem isso em consideração.

Ao se colocar como vítima, o senhor não estaria subestimando a dor que pode ter provocado à mulher que o denuncia? O meu objetivo é fazer um pedido solene de desculpas. Eu não me reconheço em quem fez aqueles comentários desajeitados e desairosos.

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O senhor relata uma proposta feita pelo ex-presidente da CBF Marco Polo del Nero, seu antecessor e que o apoiou na candidatura a presidente da entidade. Ele o traiu? Fui vítima de um golpe do ex-presidente Marco Polo del Nero, banido do futebol. Era alguém de quem, no passado, eu era próximo, admito. Ao assumir a CBF, contudo, decidi que as marcas da minha gestão seriam integridade, eficiência, modernização, o aumento de receitas e cortes de despesas, além de cortes de privilégios. Fui independente. Essa independência talvez tenha incomodado, e Del Nero reagiu para reassumir o comando da CBF por meio de laranjas. Depois da Copa do Mundo de 2018, ele disse a presidentes de federações, recomendando pressão contra a minha gestão, que eu deveria demitir o treinador Tite e toda a comissão técnica. Del Nero atribuiu a derrota ao que ele definiu como “uma confraria corintiana”, e que jogadores lesionados queridos por Tite tinham sido levados para a Rússia. Insisti, não cedi às pressões e mantive a comissão técnica que perdura até hoje. Agora, com meu afastamento, nos bastidores, ele voltou ao comando.

O senhor está insinuando que a funcionária que o acusou faria então parte do golpe? Olha, eu não posso afirmar nada nesse sentido, não tenho nenhum conhecimento de que ela possa ou não ter participado de um conluio. Apenas sei que recebi uma proposta de acordo financeiro.

O senhor voltará? Meu afastamento é uma nulidade. Aconteceu fora dos parâmetros legais, sem nenhum tipo de subsídio ou fundamento. A Comissão de Ética não poderia ter me aplicado uma sanção sem me dar direito a conhecer os autos e ser ouvido. Há quem diga que eu nem sequer deveria ter deixado a cadeira, mas sou advogado e cauteloso. Preferi me defender pelas vias tradicionais. Mas ainda acredito na Justiça. Voltarei por merecimento, fui eleito com 96% dos votos.

Presidentes de federações propuseram, recentemente, a formação de uma liga de clubes, à margem da CBF. O senhor é favorável à liga? Enquanto estive na presidência, não era um tema em voga. Surgiu tão logo aconteceu o meu afastamento. Os clubes e os atletas são a parte essencial do futebol, sem dúvida. É fundamental ouvi-los, mas há modelos de ligas que decolam e modelos que naufragam. O ideal seria um modelo moderado, em que os clubes tenham participação cada vez mais efetiva, mas com gestão da CBF na organização dos campeonatos. Uma coisa não afasta a outra. Só para cuidar da Série A do Brasileirão, a CBF investe 80 milhões de reais, sem nada receber dos clubes a título de bilheteria ou de direitos televisivos.

Foi correta a decisão de trazer a Copa América para o Brasil em plena pandemia, com 1 000 mortos diariamente? Em um ano, a CBF realizou mais de 2 600 partidas oficiais, com rigorosos protocolos sanitários, mais de 90 000 testes de Covid-19 foram realizados. Os times sul-americanos e as seleções continuaram a jogar normalmente. Não creio que uma competição de 28 jogos e apenas dez seleções pudesse mudar o panorama epidemiológico do país. Se deixar de fazer a Copa América significasse frear o número de vítimas da Covid-19, evidentemente não faríamos o torneio.

Mas fizeram. Não seria um gesto de solidariedade com as famílias dos que morreram evitar a Copa América no Brasil? Isso foi objeto de bastante discussão e, durante as conversas, ao falar com o presidente da Conmebol, a confederação sul-americana, pensamos até em mudar as datas. Buscamos alternativas, mas não foi viável, tendo em vista que todos os dez países participantes tinham confirmado presença. Como os números de partidas eram pequenos, e haveria protocolos severos, achamos que poderíamos ir em frente.

“Se deixar de fazer a Copa América no Brasil significasse frear o número de vítimas da pandemia de Covid-19, evidentemente não faríamos o torneio”

Os jogadores e o treinador Tite foram claramente contrários à Copa América, embora depois a tenham disputado. Eles estavam errados ao reclamar? Em 2 de junho, em Porto Alegre, antes do jogo contra o Equador, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo, estive com os jogadores e a comissão técnica na Granja Comary, em Teresópolis. Todos expressaram suas opiniões, liderados por um grupo de seis jogadores, além de Tite e Juninho Paulista. Eles entenderam que do ponto de vista sanitário não haveria problemas dentro de campo, e os estádios estariam vazios.

Há um evidente divórcio entre a seleção e o torcedor. Muitos brasileiros torceram para a Argentina na final da Copa América. Como reatar o relacionamento? Não tenho dados efetivos para estimar o tamanho desse apoio contra os adversários. Mas o divórcio, na prática, é resultado da concorrência de outras competições de seleções, como a Nations League, em datas reservadas para partidas amistosas. Não conseguimos, portanto, marcar jogos contra times grandes, de modo a atrair os torcedores. Não temos como fazer bons jogos no Brasil. Daí o afastamento popular. Não há interesse menor — há a volúpia por títulos e, na medida que vierem, com a poeira baixando, voltaremos a ter engajamento total, como em outras épocas. Há outro ponto: somos exportadores do chamado “pé de obra”. Prematuramente, perdemos muitos dos nossos grandes valores, que vão ainda muito jovens para a Europa.

Tite será o treinador do Brasil no Catar, no ano que vem? Se depender de mim, sim.

Publicado em VEJA de 11 de agosto de 2021, edição nº 2750

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