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Na reta final, surge o temor sobre os ‘puxadinhos’ da Copa

Setor produtivo já se conformou com o fato de que avanço em infraestrutura até 2014 será decepcionante. Agora, pede apenas que não se improvise tanto

“Seria uma grande oportunidade caso tivéssemos começado a trabalhar cedo. Mas o jogo, agora, já está quase todo jogado”, diz José Roberto Bernasconi. ” O mundo vai estar de olho e todos vão perceber se estamos fazendo puxadinho ou uma coisa realmente sólida”, avisa Ilan Goldfajn

Já não existe mais o temor de que o Brasil será incapaz de receber a Copa do Mundo de 2014. Neste ano, as obras nos estádios enfim deslancharam, e os projetos básicos de infraestrutura começaram a sair do papel. O ritmo dos trabalhos, no entanto, ainda decepciona – nos aeroportos, por exemplo, a Infraero previa um investimento de 1,2 bilhão nas doze cidades-sede, mas só 30% do valor foi gasto nos oito primeiros meses do ano. Com isso, a reta final dos preparativos dá origem a outro temor: a de que o Brasil recorra aos improvisos, limitando-se a aliviar os sintomas dos problemas ao invés de solucioná-los de vez. Com isso, o país perderia a chance de usar o Mundial para acelerar seu desenvolvimento, uma perspectiva que preocupa o setor produtivo. Esse risco foi um dos temas mais discutidos no fórum sobre a Copa de 2014 promovido pela revista Exame, da Editora Abril, que também publica VEJA, na segunda-feira, em São Paulo.

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Outros dois participantes do fórum da Exame manifestaram sua preocupação com a hipótese de ver um fenômeno muito comum no país se repetir nessa reta final de preparativos para a Copa. “Já perdemos um bom caminho. Só espero que agora a gente não apele para os puxadinhos”, afirmou José Carlos Brunoro, presidente da Brunoro Sports Marketing e um dos principais especialistas em gestão do esporte do país. “A gente precisa acordar. Não podemos fazer uma Copa que acabe em 2014. As oportunidades devem ser usadas e o legado precisa perdurar.” Para Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco, o improviso precisa ser evitado a todo custo até 2014. “A Copa do Mundo vai sair, mas é preciso ver como ela vai sair. Se você faz uma reforma em aeroporto, há um impacto enorme para o futuro. Se você faz um puxadinho, quando acabar a Copa, acabou o benefício. O mundo vai estar de olho e todos vão perceber se estamos fazendo puxadinho ou uma coisa realmente sólida”, defendeu.

Para Sylvio Maia, coordenador da pós-graduação em gestão e marketing esportivo da Ibmec Business School, o Brasil está diante de uma escolha – que se estenderá não só a 2014, mas também para dois anos depois, quando o Rio de Janeiro receberá a primeira Olimpíada realizada no Brasil, em 2016. “Está na hora de decidir se queremos ser como a Barcelona olímpica e a Alemanha da Copa, que fizeram grandes eventos e se beneficiaram muito deles, ou se vamos repetir Atenas e a África do Sul”, disse ele, citando as oportunidades perdidas nos Jogos de 2004 e na Copa do Mundo de 2010. Passada quase uma década desde os Jogos na capital grega, a Olimpíada é frequentemente citada como um dos fatores que levaram ao desequilíbrio das contas públicas do país, hoje afundado numa gravíssima crise. Dois anos depois do Mundial, a África do Sul registra alguns avanços decorrentes do evento – como uma maior visibilidade no exterior e uma evolução em sua infraestrutura -, mas muitos dos estádios erguidos para a Copa transformaram-se em elefantes brancos.

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