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Na pandemia, a voz mais sensata do tênis é do ‘bad boy’ Kyrgios

Chamado de 'rato' por Boris Becker, australiano rebateu à altura e sustentou as críticas feitas a Alexander Zverev por ter desrespeitado o isolamento social

Por Danilo Monteiro - 30 jun 2020, 17h39

Quem diria que seria de Nick Kyrgios, o mais notório “bad boy” do circuito mundial de tênis, a voz da sensatez em meio aos maus exemplos dos colega de raquete? Na manhã desta terça-feira 30, o australiano devolveu os comentários feitos pelo alemão Boris Becker, uma das lendas do tênis mundial. Becker disse, se referindo a Kyrgios, que não gostava de falava mal dos colegas. “Alguém que fala mal dos companheiros tenistas não é meu amigo. Se olhe no espelho e veja se é melhor do que nós, Kyrgios. Todos vivemos na pandemia. É terrível e tirou muitas vidas. Precisamos proteger nossas famílias e seguir as recomendações, mas não gosto de ratos”, disparou o alemão, tricampeão de Wimbledon, no Twitter.

A dura fala do ex-tenista alemão veio após o australiano criticar o compatriota de Becker, Alexander Zverev, um dos participantes do polêmico torneio-amistoso Adria Tour, organizado pelo sérvio Novak Djokovic e que acabou por contaminar quatro jogadores (incluindo o próprio). Zverev, número 7 do mundo, pediu desculpas e disse que cumpriria o isolamento de 14 dias, mas foi flagrado no final de semana, apenas 10 dias depois do ocorrido, em uma festa e foi chamado de egoísta por Kyrgios nas redes sociais.

Depois da alcunha, Kyrgios ofereceu um contra-golpe aos alemães.”Rato por responsabilizar alguém? Estranha maneira de se pensar. Só estou tentando cuidar das pessoas. Não estou competindo ou tentando jogar alguém debaixo do ônibus. É uma pandemia e se alguém for tão idiota quanto o Alex para fazer o que ele fez, eu vou responsabilizá-lo”,

O tenista australiano carrega a fama de ser o garoto levado do circuito mundial por seu temperamento explosivo dentro e fora de quadra. Kyrgios, no entanto, provou ser a principal voz do tênis contra as irresponsabilidades de jogadores da chamada “nova geração” e do próprio Djokovic, que segue teorias negacionistas com relação ao coronavírus. Os posicionamentos responsáveis do australiano podem ser surpreendentes, mas começaram desde o início do ano, quando ele liderou um movimento dos tenistas para ajudar a combater o incêndio de larga escala que atingiu a Austrália.

“Não me surpreende. O que mais temos hoje no mundo são pessoas que não se posicionam. Acho que ele fala demais, tem hora que fala bobagens, mas sempre se posiciona. De alguma maneira, ele está deixando recados muito importantes. Está dizendo que os tenistas mais jovens, da idade dele, estão fazendo coisas erradas dentro da pandemia. Vai de cada um concordar ou não, mas eu acho muito legal o fato de ele se posicionar. Isso não quer dizer que eu concorde com tudo que ele fale, mas nesses últimos episódios, concordei”, analisou o ex-tenista brasileiro Fernando Meligeni, em entrevista a VEJA.

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“Eu entendo o (comportamento) geral. Estou há 100 dias em isolamento. Não saio porque tenho medo da pandemia e porque sei que sou um exemplo, sou um formador de opinião. Acho que é isso que o Kyrgios está tentando falar. Agora, você tem outro lado: o passado dele o condena. Todos erram, mas hoje há uma vontade de calar o outro por algum erro do passado – o que também não é justo. É aí que vejo o erro do Becker. As discussões fazem parte, hoje tudo é público, mas o Kyrgios está tendo atitudes certas nos últimos tempos”, continuou.

O Adria Tour, responsável por contaminar Novak Djokovic, Grigor Dimitrov, Borna Coric e Viktor Troicki, foi muito criticado no tênis mundial, mas os tenistas Top 10 que não participaram do torneio e as principais referências do esporte, Rafael Nadal e Roger Federer, não se posicionaram a respeito. “Talvez, sentiram que quem tem de se posicionar é a ITF e a ATP. Eles (do Adria Tour) estavam ferindo o esporte, então as entidades tinham de entrar ali. Um tenista também pode, mas aí vai da personalidade. Era o Djokovic, então se Federer e Nadal se posicionarem, vai virar uma briga”, explicou Meligeni.

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