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Museu do Índio será transformado em Museu Olímpico

Prédio que cederia lugar a um estacionamento do novo Maracanã não será mais demolido. Mas os índios serão obrigados a deixar o local de qualquer maneira

Centro de uma disputa entre o governo do estado e a Defensoria Pública da União, o Museu do Índio passará por uma reforma. A possibilidade de demolir o prédio para abrir espaço a um estacionamento do novo Maracanã está totalmente descartada. Mas isso está longe de representar uma vitória para os indígenas que tomaram o prédio localizado ao lado do estádio. De qualquer forma, eles serão obrigados a deixar o lugar, que será transformado em Museu Olímpico do Rio de Janeiro.

O anúncio foi feito na tarde desta quarta-feira pelo governador Sérgio Cabral, no encerramento da quarta visita oficial da Comissão de Coordenação do Comitê Olímpico Internacional (COI) para os Jogos de 2016. De acordo com Cabral, a reforma do edifício ficará a cargo da concessionária que vencer a disputa para administrar o Maracanã. O edital de licitação, adiantou ele, será publicado até segunda-feira – quando o governo já deve identificar uma nova área no entorno para receber a área do estacionamento.

O trabalho não será fácil. Em visita ao local em janeiro passado, a reportagem do site de VEJA constatou a degradação. Nas paredes, há infiltrações, rachaduras, manchas de mofo. No teto de madeira, há buracos. As janelas têm apenas a moldura. Os vidros já se foram faz tempo. As portas não existem mais, apenas grandes retângulos para a passagem de uma sala a outra. Em um dos espaços do casarão, há barracas de camping, onde ficam, principalmente, os não-índios – sobretudo jovens.

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Ainda segundo o governador, o conteúdo e toda a gestão do espaço reservado para a memória olímpica ficará sob responsabilidade do Comitê Olímpico Brasileiro (COB). “É um sonho antigo ter um Museu Olímpico no Rio”, declarou Cabral, acrescentando que a decisão partiu de uma sugestão do presidente COB, Carlos Arthur Nuzman. Os índios terão de se contentar com o museu dedicado a eles e efetivamente em atividade, situado em Botafogo, Zona Sul da cidade.

Defensoria – Em nota, a Defensoria Pública da União, que representa os indígenas, afirmou não ter sido comunicada oficialmente sobre a reforma do Museu do Índio e disse que a proposta vai de encontro ao que vem sendo pleiteado desde o início. “O governo do Rio sempre se mostrou contraditório no trato da questão. A princípio, queria demolir; depois, tombar o prédio pela importância histórica indígena; e agora quer transformá-lo em um museu com finalidade totalmente destoante da memória indígena”, criticou o defensor público federal Daniel Macedo, titular do 2º Ofício de Direitos Humanos e Tutela Coletiva da DPU/RJ e responsável pelas ações relacionadas ao caso que tramitam na Justiça Federal.

Ainda de acordo com o defensor, o tombamento é necessário para preservar “os fatos indígenas memoráveis” que ocorreram naquele imóvel. “A construção de um Museu Olímpico vai na contramão da destinação natural que surgiria com o tombamento. Esse projeto repentino deixa claro o posicionamento do governo de fulminar com tudo que aquele prédio representa.” Macedo enfatiza também que qualquer tentativa de descaracterizar esse patrimônio será objeto de Ação Civil Pública.

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Atrasos – Questionado sobre outro tema delicado – os prazos das obras – Cabral enfatizou que o Comitê demostrou-se satisfeito. “Mas é claro que, no detalhe, há cobranças de um ou outro equipamento, de um ou outro cronograma”, declarou Cabral. O prefeito Eduardo Paes não amenizou tanto, e chegou a dizer que “todos os prazos” são problemáticos. “A gente tem uma tarefa difícil, cobrança permanente, muita responsabilidade. Têm um monte de questões ainda pendentes. É sempre uma tarefa árdua. Não tem vida tranquila”, declarou.

Justiça – Pouco antes da reunião de encerramento do COI, um oficial de Justiça entregou à presidente da Comissão de Coordenação do Comitê, a marroquina Nawal El Moutawakel, uma notificação informando que a área prevista para abrigar o campo de golfe está sendo disputada judicialmente. A queda de braço é entre a Elmway Participações e o empresário Pasquale Mauro, proprietário de outras regiões na Barra da Tijuca – e com quem a prefeitura do Rio iniciou as negociações.

Para Paes, a notificação não prejudica a construção do campo de golfe. “Qualquer pessoa pode fazer uma notificação judicial dizendo: ‘Estou brigando’. Eu mandaria uma matéria do jornal, seria mais fácil. Não tem uma decisão concreta tomada. Você tem um proprietário, e outro que diz que é o dono e quer brigar por isso. O que ele fez foi só trazer a notificação judicial para dizer que está brigando pela área.”

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