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Munique, 40 anos depois: o fantasma do terror nos Jogos

Atentado de 1972 transformou as Olimpíadas - e hoje, Londres mobiliza dezenas de milhares de soldados e policiais para garantir que a história jamais se repita

Por Giancarlo Lepiani, de Munique - 22 jul 2012, 13h46

As famílias das vítimas israelenses querem marcar os quarenta anos do massacre com uma breve homenagem, como um minuto de silêncio na cerimônia de abertura. Por enquanto, o tributo está descartado

A cidade de Munique, na Alemanha, abriga um dos poucos casos de legado urbano positivo da história recente dos Jogos Olímpicos. Seu belo Parque Olímpico, uma enorme área verde ao norte do centro, vizinho da sede da montadora BMW e de projeto arquitetônico que até hoje parece atual, é usado por boa parte dos moradores da capital bávara. Estádio, piscinas, ginásio e centro de eventos seguem beneficiando a população, algo incomum entre as sedes mais recentes do principal evento esportivo do planeta. Os Jogos de 1972, no entanto, têm também outro legado, muito mais doloroso, com ramificações que ultrapassam as fronteiras do esporte e da Alemanha. Foi na vila olímpica de Munique, erguida bem ao lado do parque, que as Olimpíadas da Era Moderna viveram seu pior momento, com a invasão dos alojamentos da delegação de Israel por terroristas do grupo radical palestino Setembro Negro. Depois de um impasse que durou dois dias e forçou a interrupção das competições, o desfecho foi catastrófico: onze judeus mortos, uma festa manchada de sangue, um povo alvejado por mais um violento trauma (em Israel) e outro constrangido por mais uma ferida em sua reputação (na Alemanha). Além de simbolizar a recondução do país-sede à esfera das nações pacíficas e civilizadas depois de quase três décadas no limbo do pós-guerra, os Jogos serviriam para mostrar uma nova faceta dos alemães. Seria a “Olimpíada da abertura”, em que o clima de conciliação e amizade derrubaria barreiras, criando um cenário quase utópico, bem ao gosto da imaginação do Barão de Coubertin. A realidade foi bem diferente. Munique mudou os Jogos para pior, pois motivou uma das maiores transformações de sua história. Desde então, a Olimpíada é sinônimo de obsessão por segurança, de operações de guerra para proteger os atletas, de batalhões de soldados e policiais em número superior ao de esportistas. Passadas exatas quatro décadas, os Jogos chegam a Londres, sabidamente um alvo prioritário do terror islâmico, numa situação inversa à de Munique. A Olimpíada, hoje, é um dos acontecimentos mais fechados do mundo.

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Na capital britânica, a primeira semana dos Jogos começa sob o signo da vigilância. Seja por câmeras (Londres é possivelmente a cidade com maior número de monitores de segurança no mundo), seja por homens armados (que recepcionam atletas e dirigentes com rifles de quase um metro de comprimento no Aeroporto de Heathrow e nas principais estações de trens), a proteção aos visitantes é prioridade absoluta – mais que o conforto, mais que a festa, mais que o próprio esporte – pelo menos até que as competições finalmente se iniciem. E a prova mais clara disso foi a repercussão estrondosa do escândalo envolvendo a empresa de segurança privada G4S, na semana passada. A notícia de que a firma, que receberia milhões de libras para fornecer guardas treinados para proteger os Jogos, foi incapaz de arregimentar o contingente prometido de seguranças, deixando a organização do evento na mão, teve impacto terrível para uma Olimpíada que, até agora, vinha sofrendo críticas relativamente suaves. A crise virou assunto no Parlamento, forçou a convocação de soldados para ocupar as lacunas e dominou as discussões em Londres a poucos dias da cerimônia de abertura. E essa não foi a única controvérsia despertada pela mobilização de segurança que envolve os Jogos. Há alguns meses, a divulgação dos planos do governo de autorizar a instalação de baterias de mísseis nos telhados de casas vizinhas ao Parque Olímpico, na região leste da cidade, também motivou espanto e esquentou os ânimos. O que se discute, porém, é até onde a febre da segurança pode chegar sem estragar a festa londrina. Ninguém consegue pensar na hipótese de baixar a guarda e reduzir os contingentes policial e militar. Na última Olimpíada realizada numa nação muito visada por facções terroristas, em Atlanta-1996, uma bomba detonada durante o evento – sob circunstâncias até hoje nebulosas – deixou uma inescapável sensação de impotência entre os americanos. Londres poderá até amargar falhas no transporte público ou no atendimento aos turistas. Na segurança, contudo, não há margem para erro.

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Alerta e silêncio – Na esteira da confusão da G4S, a imprensa britânica passou a questionar se os Jogos serão, de fato, tão bem protegidos quanto o governo prometeu. Sebastian Coe, presidente do Comitê Organizador Local, e Theresa May, secretária do Interior, vieram a público para garantir que sim. Segundo eles, a mudança será apenas de distribuição de contingentes. A G4S prometia fornecer 10.300 funcionários para operar máquinas de raio-x, monitorar câmeras de segurança e revistar pessoas e veículos. Conseguiu entregar 4.000, e espera chegar a 7.000 no dia da abertura. Cerca de 3.500 soldados foram chamados para fechar a conta. As Forças Armadas, aliás, terão de ceder nada menos que 17.000 homens e mulheres – incluindo pilotos de jatos e helicópteros mobilizados para vigiar o espaço aéreo sobre Londres. A Polícia Metropolitana terá até 9.500 de seus integrantes trabalhando a cada dia, na maior operação de sua história. No Parlamento, a oposição manifestou o temor de que o tamanho do aparato de segurança poderia provocar desconforto entre visitantes que não estão acostumados a ver uma presença militar e policial tão ostensiva. Até agora, porém, não houve motivo para queixas entre turistas e profissionais envolvidos no evento – quem circula pela cidade, mesmo nos lugares mais visados, pode até perceber o reforço no contingente, mas não chega a enfrentar grandes transtornos em função do alerta elevado. Alvo de um atentado que matou 52 pessoas no sistema de transporte público em julho de 2005, Londres também diz não ter qualquer pista concreta sobre um possível plano terrorista contra os Jogos. O nível de alerta contra atentados segue inalterado pelo governo britânico – e, quando se trata do assunto terror islâmico, a maior controvérsia dos últimos dias não se refere a Londres, mas sim a Munique. As famílias das vítimas israelenses querem marcar os quarenta anos do massacre com uma breve homenagem, como um minuto de silêncio na cerimônia de abertura. Por enquanto, o tributo está descartado na capital britânica – ainda que as lembranças do terror de 1972 se reflitam pela cidade inteira, em cada fuzil que recebe quem desembarca na cidade, em cada barreira militar bloqueando o trânsito, em cada peça do arsenal montado para evitar que a história se repita.

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