Clique e Assine a partir de R$ 19,90/mês

Morte em Oruro pode ficar impune dentro e fora de campo

Menor se apresenta nesta segunda-feira para assumir a culpa, livrando outros envolvidos. Após pressão nos bastidores, Corinthians busca reverter punição

Por Da Redação 25 fev 2013, 12h28

Confiante na possibilidade de convencer a Conmebol a recuar, o Corinthians chegou até a ensaiar uma chantagem de bastidores. Ao vazar à imprensa, no sábado, a informação de que pretendia abandonar a competição caso a punição fosse mantida, o clube deixou a entidade em situação complicada

Quando a morte do garoto Kevin Espada, de 14 anos, completar exatamente sete dias, na noite de quarta-feira, é possível que a série de equívocos e omissões que provocou a tragédia em Oruro já esteja impune, tanto dentro como fora de campo. Na tarde desta segunda, o menor de 17 anos que confessou ter disparado o sinalizador que acertou Kevin no olho, provocando sua morte imediata, deverá se apresentar à Vara da Infância e da Juventude de Guarulhos, na Grande São Paulo, para assumir a culpa pela tragédia. Como ele ainda não atingiu a maioridade e dirá à Justiça que foi o único responsável pelo ocorrido, é muito provável que o rapaz exima todos os outros envolvidos, de forma direta ou indireta – incluindo os doze que estão detidos na Bolívia – de qualquer pena. Na esfera esportiva, a dura punição imposta ao Corinthians na semana passada também pode ser revertida. Depois de exercer forte pressão nos bastidores, o Corinthians espera a vitória de seu recurso contra a decisão da Conmebol já nesta segunda-feira. Na partida de quarta, portanto, o Pacaembu estaria cheio, com a presença de milhares de integrantes da facção responsável pela tragédia, a Gaviões da Fiel, em festa pela atuação de seu time pela Libertadores – como se nada tivesse acontecido, e como se ninguém tivesse de responder pela morte brutal de Kevin Espada.

Leia também:

‘Minha vida acabou’, diz menor que assumirá disparo na Bolívia

Uniformizada entregará responsável por morte na Bolívia

Corinthians contesta punição e aposta em Pacaembu cheio

Com a apresentação do menor que confessou ter disparado o sinalizador – de forma acidental, garante ele -, é provável que o jovem integrante da Gaviões da Fiel seja submetido a uma medida de correção socioeducativa, além de permanecer sob a guarda da mãe. Ele não está livre de uma possível pena de detenção, mas o advogado da torcida organizada, Ricardo Cabral, não acredita nessa possibilidade. Seja como for, o menor permanecerá no Brasil. Com sua confissão, a acusação contra os doze suspeitos de envolvimento no caso ainda detidos na Bolívia deve perder força. A torcida espera que eles sejam liberados nos próximos dias. O menor garante que não está assumindo a culpa para acobertar os verdadeiros responsáveis ou para livrar os doze detidos em Oruro. “Não protegi ninguém. Só quero assumir meu erro”, disse ele em entrevista à TV Globo. “Se estivesse no lugar dos torcedores presos na Bolívia, não ia querer ficar detido injustamente.” O advogado da torcida organizada sabe que a confissão do menor não garante a soltura dos presos na Bolívia – dois deles tinham sinalizadores iguais aos que mataram Kevin. Ele cobrou o governo brasileiro sobre o caso: “A partir dessa divulgação, cabe também à nossa diplomacia fazer a parte dela”, disse. O Itamaraty já tinha cogitado alugar uma casa na Bolívia para dar uma residência fixa aos suspeitos e, assim, permitir que eles tentassem esperar a conclusão do processo em liberdade.

Continua após a publicidade

Leia também:

Corinthians prepara recurso, mas não age contra bandidos

Conmebol suspende torcida do Corinthians na Libertadores

Corinthians acha que não merece ser punido pela tragédia

Acompanhe VEJA Esporte no Facebook

Siga Veja Esporte no Twitter

No domingo, o clube sinalizou que essa medida radical não será adotada. Ainda assim, os dirigentes que vão analisar o recurso corintiano ficaram sob forte pressão, pois sabem que um dos maiores contingentes de torcedores do continente estão à espera de uma liberação para seguir o time de perto no estádio. Responsabilizar um clube pelos atos de seus torcedores – sejam eles acidentais ou não – em tragédias como a da semana passada é um princípio amplamente aceito no direito desportivo em todo o mundo. Esse tipo de punição passou a ser vista como a melhor maneira de conter a violência nas arquibancadas. Ainda assim, a diretoria corintiana segue insistindo no argumento de que não tem qualquer culpa pelo episódio e que, portanto, não deve haver qualquer sanção ao clube. A justificativa é frágil diante do fato de que o regulamento deixa claro que as agremiações responderão pelos atos de seus simpatizantes – e mais ainda diante da ligação dos cartolas com os torcedores organizados, principalmente da Gaviões da Fiel, que recebe apoio financeiro e logístico da instituição desde a administração do ex-presidente Andrés Sanchez. No domingo, ao ser informado de que o menor confessaria sua culpa, um dos advogados do clube, Felipe Santoro, avaliou que a notícia “não ajuda nem atrapalha” sua defesa na Conmebol. “O que queremos é a anulação da liminar porque o clube não pode ser punido antes de ser julgado. O Corinthians corre risco de ficar sem público e, depois, ficar provado que é inocente”, disse ele.

Continua após a publicidade
Publicidade