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Mequinho: “Estou entre os melhores”

Craque do xadrez e ídolo nos anos 1970, o jogador fala sobre a doença que o afastou dos campeonatos. Aos 68 anos, ele se destaca nos torneios on-line

Por Klaus Richmond e Luiz Felipe Castro Atualizado em 16 dez 2020, 18h05 - Publicado em 11 dez 2020, 06h00
MUDANÇA - Fé: “Acabei me formando em teologia e pensei em ser padre” -
MUDANÇA - Fé: “Acabei me formando em teologia e pensei em ser padre” – Eduardo Knapp/Folhapress/.

O xadrez virou febre mundial graças à série O Gambito da Rainha. O senhor viu a minissérie? Não, mas soube que a protagonista teve uma trajetória precoce como a minha. Ainda criança, ganhei um tabuleiro de minha mãe. Um delegado que sabia jogar me ensinou e com 7 anos eu já era vice-campeão entre os adultos de São Lourenço do Sul (RS). Aos 13, fui campeão brasileiro, com 20 ganhei o título de grande mestre. Fiquei entre os três melhores do mundo ainda jovem.

Naquela época o senhor era uma celebridade nacional… Sim, fui capa da VEJA, conheci vários presidentes. Mudei para o Rio de Janeiro para jogar pelo Flamengo e cheguei a lotar o Maracanã. O presidente Médici me ofereceu um cargo no governo. Conheci presidentes de quatro países. No meu melhor momento, aos 25 anos, fui acometido por miastenia, uma doença grave que compromete os movimentos motores. Fiquei à beira da morte e tive de me afastar do xadrez por muitos anos.

Capa de Veja - 22 de agosto de 1973
Clique na imagem e relembre a edição de 1973 com Mequinho – Arte/VEJA

Como foi esse período? Eu não tinha força nem para escovar os dentes, sentia frio, passava o dia enrolado no cobertor. Um médico me deu quinze dias de vida. Eu não conseguia mastigar, poderia morrer asfixiado. Tive depressão e cortei o telefone, pois não queria falar com ninguém. Na época já recebia ameaças do inimigo.

A que o senhor se refere? No terreno do xadrez, houve muito terrorismo. Ameaçaram até envenenar minha comida. Ainda hoje, recebo trotes e ameaças. Felizmente, encontrei a cura em Deus. Acabei me formando em teologia e pensei até em ser padre. Hoje me divido entre o xadrez e a religião.

O senhor ainda joga xadrez? Sim, até hoje estou entre os melhores do Brasil. Estou 99% curado da miastenia, mas ainda sinto cansaço. Jogo bastante on-line, não todo dia, pois meus olhos ficaram fracos. Não jogo com meu nome.

Qual é o seu codinome nos jogos on-­line? Jogo com o apelido “Lorenzo”, pois São Lourenço é um dos meus protetores. Joguei várias vezes contra o melhor do mundo, o norueguês Magnus Carlsen. Ganhei cinco e perdi três. Mas não gosto tanto, pois tem muito roubo em jogos on-line, muita gente joga com auxílio de um programa de computador. Em breve, vou disputar um torneio, mas a religião é minha prioridade agora.

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    Religião e jogos on-line: confira, na íntegra, a entrevista com Mequinho

    Publicado em VEJA de 16 de dezembro de 2020, edição nº 2717

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