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Membros da Liga Mundial de Surfe falam sobre Medina e Olimpíadas

Em entrevista a VEJA, especialistas discutiram a importância do Brasil para o surfe e a medalha de ouro conquistada por Ítalo Ferreira

Por Sabrina Brito 30 jul 2021, 19h28

As Olimpíadas de Tóquio marcam a estreia do surfe como esporte olímpico. O brasileiro Ítalo Ferreira se consagrou o primeiro campeão da modalidade nas Olimpíadas, enquanto Gabriel Medina levantou bastante polêmica ao ser vencido pelo atleta japonês Kanoa Igarashi nas semifinais.

VEJA conversou com Ivan Martinho, gerente geral da América Latina da Liga Mundial de Surfe, e Jessi Miley-Dyer, vice-presidente sênior de tours e chefe de competições da organização, sobre a controversa prova de Medina e o desenvolvimento do surfe como esporte nos últimos anos.

Qual a importância da medalha de ouro conquistada por Ítalo Ferreira?

Ivan Martinho: O impacto dessa vitória é enorme. Combinando a incrível conquista do Ítalo com o drama ao redor da polêmica situação do Gabriel Medina, a repercussão do esporte no Brasil e no mundo foi muito grande. Gabriel e Ítalo eram favoritíssimos, e suas performances permitiram que pessoas que nunca haviam assistido a baterias fossem para as redes sociais dar suas opiniões sobre as notas e as ondas, o que foi muito legal de ver. O pessoal deixou de lado o colete de especialista em Covid-19 para colocar o colete de comentarista de surfe.

Jessi Miley-Dyer: Esperamos que, em dez ou quinze anos, tenhamos jovens afirmando que viram Ítalo vencer e, a partir desse momento, pensaram em começar a surfar e acabaram se apaixonando pelo esporte.

Como a medalha pode impactar as gerações futuras?

Ivan Martinho: O efeito dessa conquista vai além dos atletas que competem nas Olimpíadas. Imagine o garoto ou a garota que vê o Ítalo no pódio e se sente inspirado para comprar uma prancha e se arriscar no esporte. Isso mexe com a cabeça dos jovens, assim como as vitórias de Rayssa Leal e Kelvin Hoefler no skate. Não à toa, sites como Netshoes e Mercado Livre mostraram o impacto das performances brasileiras nas vendas de artigos ligados a surfe e skate. Vimos também um aumento de acessos nos nossos sites e plataformas.

Por que é importante para a Liga Mundial de Surfe que o esporte seja considerado olímpico?

Ivan Martinho: As Olimpíadas são o principal palco esportivo do planeta, e o processo até que o surfe se tornasse um esporte olímpico foi longo. A audiência desse evento é de bilhões de pessoas, entre as quais muitas nunca tiveram muito contato com o surfe. Colocar o esporte nos Jogos Olímpicos leva a modalidade a outro patamar de exposição mundo afora.

Jessi Miley-Dyer: A importância é muito grande. O reconhecimento é essencial para nós, e faz com que os espectadores vejam que o surfe é um esporte como qualquer outro. Estou muito animada para ver nossos surfistas no holofote, assim como Simone Biles e Kate Ledecky.

O que levou o surfe até as Olimpíadas?

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Ivan Martinho: Não é coincidência que o esporte hoje seja olímpico. O Comitê Olímpico Internacional tinha em mente o objetivo de rejuvenescer o público das Olimpíadas, o que o levou a adicionar o surfe e o skate aos esportes praticados no evento.

Quão importante é o Brasil para o surfe enquanto esporte?

Ivan Martinho: Hoje, o Brasil é o principal gerador de talentos para o surfe. Isso vale principalmente para o masculino, e nos esforçamos para fazer com que isso seja verdade também para o feminino. Somos a principal referência de talentos no esporte desde 2014, quando Gabriel ganhou o campeonato mundial. Entre os 36 melhores atletas do esporte do mundo, 11 são brasileiros.

Jessi Miley-Dyer: Algo que sempre notei entre os surfistas brasileiros é que eles se apoiam muito, estão sempre juntos. Eles parecem ter fome de ir bem, de se provar. Sou australiana, e nós também valorizamos o fato de não sermos considerados favoritos. Eu diria que o começo dessa tempestade brasileira no surfe começou com Gabriel Medina e Adriano de Souza enfrentando nomes como Kelly Slater e Mick Fanning com muita vontade de ganhar e muito orgulho.

O que você achou da polêmica sobre as notas de Medina e Igarashi?

Ivan Martinho: O surfe é um esporte de avaliação que conta com muitos critérios para a pontuação. A semifinal do Gabriel contra Igarashi foi tema de extensa conversa na Liga Mundial de Surfe. Falei com vários juízes do esporte e notei que, no Brasil, a maioria deles tendia a acreditar que a onda do Medina foi melhor que a do Igarashi. Mas outros especialistas afirmaram entender a vitória do japonês, incluindo Ítalo Ferreira. Eu diria que os juízes com quem conversei se dividiam meio a meio entre dar a vitória a Gabriel ou a Igarashi.

Jessi Miley-Dyer: Eu não estava lá, e, pela televisão, pode ser bem difícil decidir uma prova tão acirrada. O resultado foi muito próximo. A verdade é que qualquer um dos dois poderia ter ganhado.

Faz sentido pedir que o Comitê Olímpico Brasileiro reclame das notas de Medina ao COI, como foi mencionado nas redes sociais?

Ivan Martinho: Pessoalmente, não acho que haja evidências conclusivas capazes de levantar uma grande polêmica. Além disso, todos os surfistas que participaram das Olimpíadas sabiam que, no evento, seria impossível contestar as notas dos juízes, o que foi um combinado pré-estabelecido. 

Ítalo Ferreira tem um passado bastante simples. O surfe pode mudar vidas?

Ivan Martinho: A história do Ítalo é a história do brasileiro batalhador, herói do povo. Nordestino de vida simples e filho de pescador, ele diz que costumava surfar na tampa de isopor que o pai usava para guardar peixes. A história dele é muito inspiradora, e mostra que é possível que uma pessoa de origem humilde, como tantos brasileiros, pode, com muito esforço e empenho, construir uma carreira linda e mudar a vida de sua família. É importante contar a história de Ítalo à exaustão para motivar as pessoas a não desistir. Quantos Ítalos podemos ter perdido por falta de apoio?

Jessi Miley-Dyer: Para muitos, inclusive para mim, o surfe traz uma sensação de enorme gratidão por tudo que o esporte nos proporcionou. O passado de Ítalo é fantástico e inspiracional, e vê-lo no topo do esporte depois de vencer o título mundial é sensacional.

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