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Megan Rapinoe: protesto ambulante

Assim se autointitula a habilidosa, intensa e politizada atacante que liderou a seleção dos Estados Unidos durante a campanha invicta na Copa do Mundo

Brasileiros acostumados com jogador de futebol pronunciando platitudes e repetindo frases decoradas levam um susto com a fala incisiva de Megan Rapinoe: não há “professor” (técnico, no idioma dos meninos) que segure os passes, os atos e o pendor para a polêmica da estrela da seleção americana que, no domingo 7, venceu a Copa do Mundo feminina na França. Rapinoe, 34 anos completados dois dias antes da final, é uma explosão de talento, combatividade e personalidade. Dentro do campo, inconfundível com a braçadeira de capitã e o cabelo pintado de lilás, ela brilhou — saiu da competição com a Bola de Ouro de melhor jogadora e a Chuteira de Ouro de maior artilheira. Fora dele, como é de seu costume, esbanjou confiança no seu chute, levantou a bola da consciência social e ainda deu uma cotovelada retórica em Donald Trump — tudo sem perder o estilo. “Quanto maior o holofote, mais ela brilha”, obser­vou a técnica do time, Jill Ellis.

Além de craque, Rapinoe é ativista dedicada. Lésbica assumida há sete anos, defende os movimentos LGBT e contribui para eles. Está na linha de frente da mobilização por igualdade de tratamento entre homens e mulheres no futebol, que neste ano levou as jogadoras americanas a processar sua federação, exigindo o mesmo pagamento de prêmios e salários, além de melhores condições de treinamento e viagens (a ação está sendo tratada em câmara de mediação). A questão chegou às arquiban­cadas: as americanas jogaram sob o coro de “equal pay” (em português, “pagamento igual”), mais estridente ainda quando se soube que a Fifa reservara 400 milhões de dólares para premiar os jogadores na Copa da Rússia, em 2018, e 30 milhões para as jogadoras na França.

Pinoe, como é chamada, também joga na linha de frente política. Há três anos, adotou o gesto de ajoelhar­-se em campo na hora do Hino Nacional, atitude iniciada por ativistas negros como protesto pela brutalidade policial. Agora que ajoelhar-se é proibido, Rapinoe opta por não cantar o hino e não levar a mão ao coração, como é costume. Também avisou semanas atrás: na volta aos Estados Unidos, não aceitaria nenhum convite para visitar “a m… da Casa Branca”. Trump reclamou: “Primeiro ganhe a Copa”. Antes de ganhar, reiterou: “Confirmo que não vou, mas retiro o palavrão. Minha mãe não gostou nada dele”.

Dois fatos ligam Rapinoe ao Brasil. O primeiro é de triste memória: nas quartas de final da Copa de 2011, ela desclassificou a seleção nacional ao fazer um passe espetacular para o gol que empatou o jogo, no minuto 122, levando a partida para a disputa de pênaltis e a derrota. O outro tem tons românticos: foi na Olimpíada do Rio, em 2016, que ela e a jogadora de basquete Sue Bird começaram a se conhecer melhor. Elas atuam em times de Seattle, no Estado de Wash­ing­ton, moram na cidade, mas mal se conheciam. A craque do futebol mudou-se para o apartamento da craque do basquete e elas estão juntas até hoje — uma corrida à arquibancada, seguida de um beijo, selou a vitória de domingo. Rapinoe, com seu típico cabelo loiro curtinho, e Bird, com sua longa cabeleira castanha, formaram o primeiro casal gay a posar no ano passado — vestidas só de músculos — para a Body Issue, a edição especial de atletas nus da revista da ESPN.

“Rapinoe é um exemplo e mereceu todas as honras. Espero que ela ganhe o troféu de melhor do mundo”, disse a VEJA Andressa Alves, defensora da camisa 7 da seleção brasileira e ex-jogadora do Barcelona. A craque americana nasceu na Califórnia, em uma família de cinco irmãos (Rachael, sua gêmea não idêntica, também jogou futebol profissional). Ela conta que foi levada aos esportes pelo irmão mais velho, Brian, de quem é muito próxima. Brian Rapinoe é viciado em drogas, já esteve preso várias vezes e se encontra em um centro de reabilitação, de onde deve sair em agosto. Segundo Rapinoe, os problemas do irmão atiçaram sua consciência social e moldaram a personalidade de “protesto ambulante”, como se define.

No campo, rende-se às evidências: “Sou fantástica” — um tipo de atitude que a técnica Jill Ellis apoia e estimula em todas as jogadoras, invariavelmente consideradas as mais metidas de qualquer torneio. “Podem-se adotar todas as táticas do mundo, mas a essência da autoestima é fundamental”, avalia. Totalmente integrada ao espírito do time, Rapinoe afirma que, mesmo assim, não deixa de usar sua alta milhagem para viajar sozinha na executiva: “Não vou sofrer em nome da camaradagem”, brinca. Às calouras, ensina que “tudo pode ser mais e melhor” e “o principal é continuar ganhando”. Rapinoe sabe das coisas.

Publicado em VEJA de 17 de julho de 2019, edição nº 2643

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