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Meditação, frustração e, enfim, um sorriso: os bastidores da luta entre Mayra Aguiar e Kayla Harrison

No mais novo capítulo de uma das rivalidades mais acirradas do judô mundial, um olhar diferente para luta que definiu o ouro feminino entre os meio pesados

Por Alexandre Salvador 15 jul 2015, 00h21

Mississauga, 20 horas e 14 minutos. Na arena nem tão cheia nos arredores de Toronto vivia-se a expectativa de um dos embates mais relevantes de todos os Jogos Pan-Americanos (embora nem todos os expectadores dessem conta disso). De um lado, a brasileira Mayra Aguiar, atual campeã mundial dos meio-pesados e quinta colocada do ranking mundial. Do outro, a americana Kayla Harrison, medalhista de ouro na última Olimpíada e número 1 do mundo da categoria até 78 quilos. A vitória desta terça de Kayla sobre Mayra empatou novamente o confronto: foram 14 embates, com sete vitórias para cada lado. O chavão costuma dizer que nesses embates o que pesa a balança para um lado ou para o outro são os detalhes. Ei-los.

Meditação

Foi Mayra quem atravessou a cortina que divide o espaço reservado aos atletas e a área de competição. A gaúcha era acompanhada, é claro, da espafalhatosa técnica Rosicleia Campos e do médico da seleção, Breno Schor. Já Kayla apareceu na entrada do tatame ao lado de seu técnico, Jimmy Pedro. Lado a lado com a brasileira, a americana fez seu exercício de concentração. Olhos fechados, respiração longa, e algumas palavras no ouvido de Kayla. “É um momento em que eu quero que ela fique completamente relaxada. São 15 segundos de relaxamento, pois quem luta tenso geralmente não vence”, revelou o técnico Pedro após a luta.

Frustração

Nas arquibancadas, quase toda a delegação brasileira atuava em conjunto com a técnica Rosicleia na missão de orientar Mayra. “Agarra!”, “As duas mãos”, “Vamos, Mayrão!”, era a frase mais repetida nos quatro minutos de combate. Luta truncada, estudada, quase sem ação. O anticlímax provocado pelo profundo conhecimento uma da outra. Restando um minuto para acabar a luta, a ausência de combatividade da brasileira acabou por derrubá-la. Depois da punição, Mayra direcionou o olhar para Rosicleia, em busca de auxilio. Com cinco segundos no relógio, a guarda da brasileira se abriu e veio a imobilização. Ippon.

De tão frustrada, Mayra passou reto pela zona mista dos jornalistas – ela voltaria para falar com a imprensa, depois de um curso relâmpago de media training ao pé do ouvido. Na cerimônia de premiação, nada de sorrisos do lado da brasileira. Um cumprimento de mão entre as adversárias, e um quase beijo no rosto. A boca cerrada de Mayra para as fotos parecia fazer força para não soltar toda a raiva.

Sorriso

“Por que você tem que ser tão casca grossa, cara?” Foi com essa frase e um tapa nas costas que Jimmy Flores se despediu de Mayra, que retribuiu o elogio com um aceno de cabeça. Depois de responder as mesmas perguntas e repetir as mesmas respostas algumas vezes, a raiva se aliou ao tédio. Quando se dirigia para a zona de entrevistas de televisão, a falta dos chinelos fez Mayra voltar para a zona de competição. Um pedido veio das arquibancadas: um casal de cariocas radicados no Canadá pediu uma foto da judoca com a filhinha recém-nascida. Santo remédio. A casca de Mayrão apresentou uma rachadura. Alguns carinhos na bochecha da criança serviram para brotar, finalmente, um sorriso no rosto da brasileira.

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