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Maracanã abre as portas ainda em obras. Como em 1950

Evento-teste ainda não é a reinauguração, marcada para daqui a 36 dias. Mas o governo do Rio quer tranquilizar a Fifa sobre entrega do palco da final da Copa

Por Giancarlo Lepiani - 27 abr 2013, 10h58

No auge dos trabalhos, mais de 5.000 operários frequentaram o canteiro de obras. Em 1950, a equipe era de 1.500 trabalhadores, que ergueram o estádio em 22 meses – só receberam um reforço de pessoal na reta final, quando viraram as madrugadas para garantir que o Mundial pudesse acontecer

Em 16 de junho de 1950, o presidente Eurico Dutra abriu as portas do Estádio Municipal do Rio, que ainda não tinha recebido o nome de Mário Filho (a homenagem ao jornalista só veio nos anos 1960) e nem o apelido de Maracanã (em referência à avenida onde foi erguido). A obra ainda estava incompleta – havia andaimes de pé, grades soltas e montanhas de cimento e brita espalhadas pelos cantos. Oito dias depois, na abertura da Copa do Mundo, uma multidão estimada em quase 200.000 pessoas superlotou o estádio, que havia sido desenhado para abrigar 155.000. E o palco da festa ainda não estava pronto: andaimes sustentavam a cobertura e a torcida circulava em meio a tijolos e tábuas. Seis décadas depois, o governo do Rio espera não repetir o passado na Copa das Confederações, o ensaio geral para o Mundial de 2014. Quando a presidente Dilma Rousseff repetir Dutra e chegar ao Maracanã para a reabertura do maior estádio brasileiro, no início da noite deste sábado, o palco da final da Copa ainda não estará totalmente pronto, como em 1950. Restarão mais 36 dias para corrigir as falhas, completar o que está inacabado e concluir todos os trabalhos até a inauguração oficial, marcada para 2 de junho, num amistoso entre Brasil e Inglaterra, já em meio aos preparativos para a Copa das Confederações. A missão é bem menos complicada desta vez: o governo e o consórcio responsável pela obra tiveram mais tempo, mais recursos e mais tecnologia para remodelar o estádio (muito pouco do Maracanã original resistiu à reforma). Ainda assim, recomenda-se não vacilar: as exigências da Fifa também aumentaram, e hoje é impensável ver o Maracanã receber uma partida de Copa ainda como um canteiro de obras.

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O evento deste sábado é apenas um teste, mas tem enorme importância. Com o prazo apertado até os primeiros jogos oficiais em junho, é preciso correr para deixar o estádio totalmente pronto – afinal, como se sabe, a entrega de uma nova arena não significa que ela esteja pronta para receber um grande evento. As falhas preocupantes observadas nas primeiras partidas abrigadas pelos novos estádios brasileiros comprovam que esse período de correção de falhas é absolutamente indispensável. Para evitar maiores riscos – e maiores críticas em caso de problemas de operação -, o Maracanã estará fechado ao torcedor comum neste sábado. Apenas os operários que participaram da obra e seus familiares foram convidados, formando um público total estimado em 27.500 pessoas, cerca de 30% da capacidade total do estádio em sua nova versão. Uma partida entre jogadores veteranos, comandados por Ronaldo e Bebeto, integrantes do Comitê Organizador Local (COL) de 2014, será a principal atração (Zico e Romário, dois outros gigantes da história do velho Maracanã, não estarão em campo). Artistas cariocas vão cantar o hino nacional brasileiro e Dilma será recebida por autoridades estaduais e municipais na cerimônia. Tanto o COL como o governo do Rio mostram cautela, deixando claro que o evento-teste não é a reinauguração e que o estádio só será entregue oficialmente no mês que vem. Com o Engenhão interditado, os clubes do Rio pressionam pela liberação do Maracanã para jogos da Copa do Brasil, do Campeonato Estadual e da Copa Libertadores. Se existe alguma chance de isso acontecer, ela passa pelo sucesso absoluto do ensaio deste sábado. Qualquer falha significativa impedirá que se negocie com os clubes uma reabertura antecipada do estádio ao público.

O amistoso estrelado por Ronaldo e Bebeto será a primeira partida do Maracanã em quase três anos. As obras começaram em agosto de 2010 – e foram marcadas por greves, protestos, desencontros e, como era de se prever, atrasos. O andamento moroso do trabalho até o ano passado preocupou tanto a Fifa que houve até reuniões emergenciais para que a entidade cobrasse garantias de que o estádio estaria pronto. Muitos não acreditavam que haveria tempo. O consórcio reforçou o contingente de operários e estabeleceu um ritmo de trabalho quase ininterrupto para concluir a reforma a tempo. Ainda assim, o Maracanã é apenas o penúltimo estádio da Copa das Confederações a ser entregue (só o Estádio Nacional de Brasília, palco da abertura, está mais atrasado). Além das várias greves de operários, problemas no consórcio dificultaram os trabalhos – a Delta, que dividia as obras com Andrade Gutiérrez e Odebrecht, abandonou sua parte no ano passado por causa de um escândalo de corrupção. As manifestações dos índios que ocupavam um antigo museu do complexo e de atletas que contestam a demolição de piscinas e instalações de atletismo vizinhas ao estádio também marcaram a reta final da reforma. O orçamento mudou várias vezes – revisões pedidas pelo Tribunal de Contas do Rio fizeram o valor cair para 808,4 bilhões, valor mais que suficiente para a construção de um novo estádio da estaca zero. A reforma acabou ficando muito próxima disso: com exceção da fachada original, muito pouca coisa restou dentro do gigante carioca. No auge dos trabalhos, mais de 5.000 operários frequentaram o canteiro de obras. Em 1950, a equipe era de 1.500 trabalhadores, que ergueram o estádio em 22 meses – só receberam um reforço de pessoal na reta final, quando viraram as madrugadas para garantir que o Mundial pudesse acontecer. Espera-se que, depois deste sábado, não seja preciso repetir essa correria antes que o Brasil recebe a Copa das Confederações.

O primeiro vídeo do Drone VEJA

Após um ano de preparativos, VEJA estreia seu multicóptero controlado à distância em uma gravação realizada no Estádio do Maracanã. Drone é a palavra em inglês usada para designar os veículos aéreos não tripulados. Equipado com uma pequena câmera, o dispositivo de VEJA é capaz voar alto – mais de 100 metros – ou bem próximo da cena retratada. No caso do Maracanã, isso significa uma perspectiva única do gramado, das arquibancadas e da cobertura, recém-reformados, como se pode ver no clipe abaixo. A versão completa do vídeo, assim como o making of da gravação, estão na edição para tablets da VEJA desta semana. Bom voo!

Para ler outras reportagens compre a edição desta semana de VEJA no IBA, no tablet ou nas bancas. Confira outros destaques de VEJA desta semana.

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