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Luli Pereira, mais um brasileiro em Pipeline. Fora da água

Catarinense de 38 anos é um dos juízes da etapa que define novo campeão

“O surfe é um esporte livre, que segue diretrizes gerais, mas não tem um gol, por exemplo, para podermos padronizar”

Gabriel Medina está sob os olhares de todos os brasileiros em Pipeline, no Havaí, onde ocorre a última etapa do Mundial de Surfe. É lá que o garoto de 20 anos pode garantir o título inédito na categoria, escoltado por outros surfistas brasileios que conseguiram boas posições, como Jadson André, Miguel Pupo, Filipe Toledo e Alejo Muniz. Mas há mais um brasileiro que carrega uma responsabilidade tão grande quanto a de Medina. Luli Pereira, de 38 anos, é o único representante do país que julga as manobras dos atletas em todas as onze etapas do World Championship Tour (WCT), a primeira divisão do surfe.

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O que Medina precisa para ser campeão no Havaí:

* Se o brasileiro perder na segunda (25º) ou na terceira fase (13º) em Pipeline, precisa torcer para Slater não vencer a etapa, e Fanning não chegar às semifinais. Neste caso, se Fanning cair nas quartas, eles empatarão em pontos e farão uma bateria homem a homem para decidir o título.

* Se perder na quinta fase (9º), Medina tem que torcer para Mick não chegar à final e para Slater não vencer a etapa.

* Se perder nas quartas (5º) ou nas semis (3º), tem que torcer para Mick não vencer a etapa. Neste caso, Kelly Slater não poderia alcançá-lo.

*Se chegar à final, conquista o título, independentemente de qualquer outro resultado dos concorrentes.

A parte mais difícil de seu trabalho é dar notas baseado em critérios subjetivos. “O surfe é um esporte livre, que segue diretrizes gerais, mas não tem um gol, por exemplo, para podermos padronizar”, diz Luli. O objetivo é exatamente não impor limites ao surfista. Em cada evento há um juiz principal (head judge) e outros sete juízes se revezando para dar as notas. Em cada bateria, cinco deles avaliam critérios que podem variar durante o dia para julgar os competidores: grau de dificuldade da manobra, compromisso (se o surfista se aventura ou se é conservadornas ondas que escolhe), risco (se o atleta pega ondas mais perigosas), variação de manobras, manobras modernas e inovadoras, combinação de grandes manobras, velocidade, força (o quanto usa a força nas manobras) e fluidez (harmonia com a onda e equilíbrio). Em cada local de prova, alguns desses parâmetros se destacam. “Em Pipeline, por exemplo, estamos julgando tubos, então tem mais peso o grau de dificuldade e o risco em que o atleta se coloca. Diferente de Trestles (em San Clemente, Califórina), onde observamos mais a combinação de manobras, se são progressivas, a força e velocidade do atleta.”

Depois que os juízes colocam as notas na planilha, o head judge passa verificando a pontuação. O trabalho dele é garantir coerência nas avaliações. “A diferença de opinião é respeitada dentro de um padrão de no máximo um ponto e meio entre as notas de cada juiz. Se passar disso, o andamento do julgamento fica ruim”, conta Luli. Se o head judge percebe necessidade de ajuste, ele pede para os companheiros assistirem ao replay da onda a ser avaliada e das outras já surfadas no confronto. Casos em que a última nota pode virar a bateria são os mais delicados. “O clima é tenso, nossas escolhas afetam as carreiras dos atletas e a decisão de títulos. As notas podem demorar a sair porque revemos todas as ondas quantas vezes for necessário.” Foi o que aconteceu na final da etapa de Teahupoo, no Taiti, neste ano. Medina somava 18.96 pontos. Kelly Slater precisava de 9.33 para vencer o evento. Na última onda surfada pelo americano, dois juízes deram a virada, três não. Como a nota mais alta e a mais baixa são excluídas, sobrando três para fazer a média, Slater não alcançou Medina. Por 0.03, Gabriel venceu a etapa, disparando na corrida pelo título inédito.

Sobre Medina e a nova geração brasileira de surfistas, Luli fala com propriedade, pois sua trajetória muitas vezes andou lado a lado com a deles. Aos 8 anos, começou a surfar e competiu profissionalmente até 2004, quando também se formou em Direito e decidiu focar na carreira de arbitro. A primeira vez que julgou uma etapa do QS, a divisão de acesso do surfe, foi em 2005, época em que Medina já se destacava nos campeonatos nacionais. Luli inclusive foi o head judge na primeira vitória de Medina em um QS, em 2009, em Maresias. “Tenho muito orgulho de fazer parte dessa geração brasileira. Querendo ou não, a gente participa dessa explosão ao promover a mudança de critério, passando a dar mais valor a manobras inovadoras e progressistas, como as dos brasileiros. Me enche de orgulho fazer um trabalho que está sendo reconhecido no mundo inteiro – e que pode ser coroado com um título mundial.”