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Luís Figo: “A Fifa não é transparente”

Em entrevista a VEJA, feita dias antes de desistir da candidatura à presidência da entidade, o ex-craque português Luís Figo já dava indícios de que não seguiria no jogo até o fim

Por Mafalda de Avelar, de Madri 21 Maio 2015, 16h18

O ex-craque português Luís Figo, de 42 anos, desistiu de sua candidatura à presidência da Fifa. Na eleição do próximo dia 29, os candidatos serão Joseph Blatter, o suíço que desde 1998 comanda a entidade máxima do futebol, e o príncipe jordaniano Ali bin Al Hussein. Alguma dúvida de quem vencerá? Para justificar a retirada de seu nome, Figo afirmou ter jogado a toalha em decorrência de incidentes “que deviam envergonhar quem quer que o futebol seja livre, limpo e democrático”. Em 8 de maio, duas semanas antes da decisão desta quinta-feira, Figo falou com exclusividade em Madri para Mafalda de Avelar, enviada especial do site de VEJA. Não é difícil encontrar, na minuciosa entrevista, ecos de um desfecho nada excepcional, e até previsível, em se tratando da Fifa.

Como vê a Fifa hoje? Ao longo do tempo, a Fifa fez coisas positivas, mas hoje é uma organização que não é transparente, não é democrática. Não há lugar para as opiniões divergentes e os críticos são silenciados. Nesta campanha tive oportunidade de constatar isso. Não me foi permitido falar nos congressos das confederações fora da Europa, o presidente da Fifa recusou debates. O presidente da Fifa concorre às eleições, mas diz que não é candidato. Que é presidente e que por isso nem tem que apresentar propostas eleitorais. Isto revela como estão as coisas montadas e organizadas de forma a silenciar as críticas e a não dar espaço a vozes que queiram outro rumo e outra estratégia. Percebo agora melhor as muitas pessoas ligadas ao futebol que me dizem que esta é uma luta desigual, um jogo em que nem todos usam as mesmas regras.

Se sente, nesta candidatura, a remar contra uma maré instituída? Toda a gente diz que sou jovem e que tenho tempo. Muita gente me diz que é uma luta perdida, mas eu estou habituado a lutar até ao fim. Vamos ver. Pode ser que tenham razão. Mas no final o importante é que exista um debate sobre a instituição.

Tem medo de represálias? Não. Se tivesse medo de represálias não me tinha iniciado neste processo porque ao final de contas desde o início me avisaram para ter cuidado, mas eu, graças a Deus, não necessito da Fifa para viver, não necessito da Fifa para respirar e por isso não tenho que ter receio de nada.

Quando se fala em corrupção na Fifa é sempre lembrada a escolha da sede da Copa do Mundo. Concorda? Acho que todas as investigações que foram feitas, e mandadas fazer, deveriam ser públicas. Acho que era a forma mais fácil e mais direta de acabar com todo o tipo de suspeições que existem sobre as últimas nomeações. Acho que foi feita uma alteração em relação às últimas atribuições por parte da Fifa – neste momento quem vota é o congresso e antes era o comitê executivo. Acho que está bem, porque neste caso deve votar toda a gente por ser uma forma de democracia. Mas também estou de acordo de que se se manda investigar, o que quer que seja, depois se devem tornar as conclusões da investigação públicas. Porque só assim se acaba com as suspeições em relação aquilo que possa ter existido no passado.

Está se referindo ao relatório do advogado Michael J. Garcia que trata exatamente de alegada corrupção nas associações mundiais de futebol? Sim, do Garcia Reports.

Acha que esse relatório deveria ser público? Devia ser, mais não vai ser.

Por que é que está tão seguro de que n��o vai ser? Porque estamos em eleições. Se não foi público até agora é porque não interessa ser.

Votaria a favor da publicação deste relatório? Lógico. Se você não tem nada a esconder, vota a favor da publicação; se tem alguma coisa a esconder, vota contra.

O que tem que mudar? Tem que mudar a liderança da organização. Para se modernizar e para ser transparente, para que exista democracia, para que exista uma distribuição que deve ser feita em relação a todas as instituições, neste caso com as receitas que existem no futebol, no mundial, na Fifa. Tem que ser feita uma mudança, nesses aspectos, e depois alguns retoques na estrutura que vão permitir que não exista qualquer tipo de suspeições em relação ao passado.

O português Luís Figo decepcionado com a eliminação de sua seleção da Copa do Mundo de 2002
O português Luís Figo decepcionado com a eliminação de sua seleção da Copa do Mundo de 2002 VEJA

O senhor tem apregoado a bandeira da honestidade e da transparência. É assim que quer impor a mudança? Tem que ser. Depois da imagem que aparenta, é importantíssimo uma mudança na liderança para que as coisas mudem.

Qual é o seu grande fator de diferenciação em relação a Blatter? Eu tenho um programa (Figo levanta a mão e mostra-o). Do Blatter ainda não vi nenhum programa em relação aquilo que pretende para o futuro. Ao longo deste processo estive presente em todos os congressos e praticamente ouço falar sempre do passado, passado, passado. Realmente em relação ao futuro não sei quais são as suas ideias.

No seu manifesto fala de uma Copa do Mundo que pode chegar a ter 48 seleções – em vez das atuais 32. Essa postura não pode ser interpretada como uma manobra eleitoreira? Acho que as pessoas pegaram nas 48 seleções e se esqueceram de uma outra proposta minha, também anotada no manifesto.

Que são 40? Sim, que são as 40.

Mas qual o objetivo desse aumento? O meu objetivo, primeiro que tudo, é que exista debate. E já existe e isso é bom. Sinceramente penso que o futuro da competição vai ser alterado independentemente da minha vitória. O meu primeiro objetivo é que exista um debate no congresso – em que são as pessoas que decidem, neste caso as federações. Tem que se estudar a possibilidade das atuais 32 seleções se manterem; de existir uma ampliação para 40 ou até mesmo para 48. Mas não significa que se fosse eleito presidente da Fifa passem logo a ser 48. Não decido nada. Quem decide é o congresso e quem decide são os membros da Fifa.

Qual a razão desse objetivo? O que toda a gente quer são mais lugares. Todas as confederações querem mais vagas. Se perguntar à Europa, quer mais vagas; se perguntar a África, quer mais; então é uma forma de encontrar um equilibro entre todos. Penso que de 32 a 40, por exemplo, são mais oito seleções, não é um aumento…

…e a logística? É exequível esta proposta? Neste caso são três dias a mais de competição, que vai permitir mais receitas porque vão existir mais alguns jogos. Mais receitas, mais dinheiro, que pode ser distribuído para as associações, e as associações vão ter muito mais dinheiro para investir outra vez no futebol.

A qualidade do futebol não fica comprometida? Acho que não. Nas últimas eliminatórias para a Copa, grandes seleções ficaram de fora – como a Suécia. Por exemplo, se a Suécia se qualificar, você acha que vai diminuir a qualidade do mundial? Ou se alguma equipe da América do Sul se qualificar, por exemplo? Acho que não. Ter mais seleções é uma forma de a Copa também chegar a muitos mais países em todo o mundo.

Distribuição do dinheiro por mais federações, mais países, é uma das promessas que fez no seu manifesto. Como é que pretende fazer isso? Eu acho que o dinheiro existe para poder ser distribuído equitativamente. Neste caso pretendo distribuir parte das receitas – 2,5 bilhões de dólares – equitativamente, uma parte para infraestruturas e outra parte para seleções com mais necessidades. Mas logicamente que isso é decidido no congresso.

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Vai dar um peso maior às economias com mais necessidades? Há uma base que neste momento existe que é distribuir 250.000 dólares por seleção/federação ao ano. Logicamente que este ano foi mais porque há eleições. O que eu proponho é que em vez de 250.000 dólares ao ano, que sejam distribuídos 2 milhões de dólares ao ano, por ciclo de quatro anos. Ou seja, é uma grande diferença. De 250.000 para 2 milhões de dólares. Isso é parte do dinheiro que existe em termos de receitas produzidas pela Copa do Mundo.

O jogador português de futebol Luis Figo é casado com a modelo sueca Helen Svedin.
O jogador português de futebol Luis Figo é casado com a modelo sueca Helen Svedin. VEJA

Ásia, África, América. Qual o papel destes continentes no mundo do futebol? São continentes onde o futebol já é fortíssimo e onde há espaço para ainda se desenvolver mais. O futebol é um esporte global e temos que olhar para todos os pontos do globo com muita atenção para ver em quais aspectos podemos ajudar. Na minha visão, a Fifa deve ter mais colaboradores de fora da Europa.

A Fifa tradicionalmente é muito conservadora. Qual proposta oferece para modernizar o jogo e torná-lo ainda mais atraente? No meu manifesto digo sim às novas tecnologias. Se todo o mundo, hoje em dia, está tão dependente das novas tecnologias, porque não as utilizar, também, em prol de algumas ações no futebol, neste caso na linha de gol, que é uma das propostas que eu faço? Quero também criar um grupo consultivo com pessoas experientes e com grandes nomes do futebol. Pessoas que possam aconselhar o presidente em todas as decisões relacionados com o futebol: calendário, formatos das competições, regras do jogo, estratégias para desenvolvimento do futebol. Acho que é importante ter pessoas que são experientes, grandes nomes, que possam aconselhar. Logicamente, isso tem que ser aprovado no congresso da Fifa, mas acho que daria credibilidade à organização e às propostas que possam ser apresentadas no futuro.

A Fifa proibiu recentemente a partilha de passes com fundos de investimento. Michel Platini, presidente da Uefa, também defende essa medida, mas as ligas portuguesa e espanhola apresentaram uma queixa na Comissão Europeia que procura revogar essa medida. Qual é o seu posicionamento a respeito desse tema? Neste momento foi tomada uma decisão que tem de ser respeitada para ver como funciona. Depois acho que as pessoas envolvidas e interessadas, pró ou contra, dependendo daquilo que se for seguindo em relação a essas decisões, devem tomar decisões concretas em relação ao tema. Isto é, se é uma coisa importante para o futuro do futebol ou se prejudica diferentes seleções ou mercados.

Mas qual é a sua opinião? A minha opinião é que se tem que esperar para ver aquilo que vai acontecer.

Como assim? Como ficam, por exemplo, os clubes pequenos? Isto ainda é uma decisão que está verde. Ainda não se sentiu realmente o que vai acontecer. Isto envolve muitos aspectos, envolve o controle de muitas situações e de saber mais sobre a proveniência dos fundos. Acho que se deve esperar de certa forma para ver como corre este processo. A minha opinião é que se deve aguardar para ver qual a melhor solução e depois decidir.

Como vê o futebol brasileiro depois do trágico 7 a 1 contra a Alemanha? “7×1” são coisas que podem acontecer um dia. É futebol, acontece uma vez na vida. São aqueles resultados inesperados em que tudo acontece de bom a uma equipe e tudo acontece de mal a outra. Mas eu acho que o Brasil é sempre um país com potencialidades impressionantes pela quantidade de talento que tem e pela quantidade de habitantes e de paixão que têm pelo futebol. E por isso será sempre um país com condições únicas para poder ter sucesso.

Acredita que o Brasil ainda é um berço de bons jogadores jovens? Sim, e não é de agora. Desde sempre o Brasil é uma fábrica com potencial de exportação de talento – uma fábrica que cria grandes jogadores.

E os argentinos? Acho que a América do Sul tem uma grande tradição em termos de futebol e é uma escola – e um mercado – impressionante em termos de talentos. Não só o Brasil, mas a Argentina e todos os outros países vizinhos.

Qual o melhor jogador brasileiro de todos os tempos? Daqueles que eu tive oportunidade de ver jogar o meu ídolo é o Zico. Depois tive a sorte de poder jogar com o Ronaldo, com o Roberto Carlos. Mas o melhor, melhor, é difícil de indicar.

E o melhor do mundo do momento? Cristiano Ronaldo e Messi.

Dá-lhes um empate técnico? Dou-lhes um empate politicamente correto.

Luis Figo e Michael Schumacher durante amistoso em Portugal, em 2004
Luis Figo e Michael Schumacher durante amistoso em Portugal, em 2004 VEJA

Reza a lenda que Portugal tem três “F´s” (Fátima, fado e futebol). Também os têm? Tenho. Família, Figo e futebol.

O que acha mais importante: fé ou futebol? As duas coisas estão intimamente ligadas.

Mas o que mexe mais com as pessoas? O futebol é uma religião e é preciso ter fé para acreditar nessa religião.

O que correu bem e o que correu mal nesta última copa organizada pelo Brasil? Esteve presente? Sim, estive presente. Acho que o que correu talvez mal – para a Fifa – foram os protestos que existiram em torno do campeonato do mundo. Se calhar a informação, o processo que foi feito no Brasil em relação à transparência e ao que se gastou – e não se gastou – devia ter sido mais claro para que as pessoas neste caso não tivessem revoltadas em relação à organização do campeonato do mundo. Acho que é triste para a Fifa que tenham existido tantos protestos em relação a uma organização, quando tem que ser um orgulho para qualquer país organizar o maior evento desportivo do mundo.

O que acha que vai acontecer com a Olímpiada do Rio? Está tudo ainda em construção. Mas acho que no final tudo será resolvido, em termos de estrutura. É um pouco como em Portugal que está sempre tudo à espera que se terminem as estruturas e as obras, mas no último momento acaba sempre tudo por arrancar e por correr bem.

Estamos aqui em Espanha. Sente alguma mágoa da sua mudança de Barcelona para Madrid, do Barça para o Real, quando jogava? Eu não. Talvez eles comigo, sim. Eu não guardo mágoa com ninguém. Eu dei o máximo que podia e que sempre esteve ao meu alcance em todas as equipes onde estive. Agora, o resto a mim não me preocupa.

É compatível ter um Figo gestor (com negócios próprios) e um Figo dirigente da Fifa? Desde que não haja incompatibilidades, não vejo problema.

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