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Londres sofre para encher as arenas (e esvaziar a cidade)

Enquanto procuram maneiras de resolver escândalo das cadeiras desocupadas nos locais de competição, autoridades pedem a moradores que alterem a rotina

Por Giancarlo Lepiani, de Londres 30 jul 2012, 07h52

Não ajudou em nada o fato de Sebastian Coe, o presidente do comitê organizador, ter minimizado o peso do fato, garantindo que as arenas londrinas estavam “entupidas de gente”. Ao mesmo tempo, as emissoras de TV exibiam repetidamente as cenas dos lugares vazios

No terceiro dia de competições da Olimpíada de Londres, as autoridades britânicas tentam resolver uma difícil equação. Por um lado, buscam afastar os moradores das áreas próximas aos locais de provas e fazer a população adotar caminhos alternativos para evitar congestionamentos nas ruas e no sistema de transporte público; por outro, buscam inventar formas de resolver o problema das cadeiras vazias em algumas das principais arenas dos Jogos. No fim de semana, as grandes porções de arquibancadas abandonadas às moscas foram o assunto mais comentado na cidade olímpica, junto com o início irregular da delegação britânica na briga por medalhas. O caso ganhou contornos de escândalo, com ministros e parlamentares cobrando providências imediatas das autoridades olímpicas – que anunciaram, na manhã de domingo, que lançariam uma investigação completa sobre o assunto nesta segunda-feira. Mas é pouco provável que a falha seja resolvida já neste início de semana – até porque não a origem do problema ainda não está totalmente esclarecida.

Os assentos vazios seriam facilmente explicados em competições que atraem pequeno interesse. Não foi o que se viu no fim de semana. Eventos disputadíssimos, como provas decisivas da natação e o tênis em Wimbledon, tinham setores quase inteiros sem torcedores. Num primeiro momento, a culpa foi despejada sobre os ombros dos vilões favoritos dos críticos dos organizadores olímpicos: acreditava-se que os ingressos não usados estavam nas mãos dos patrocinadores, como Coca-Cola e McDonald’s, que recebem lotes de entradas para todas as competições. As empresas explicaram que os bilhetes são repassados a torcedores comuns através de sorteios e promoções – e que, portanto, elas não teriam como garantir seu uso. No decorrer do domingo, surgiu a informação de que os patrocinadores não eram os culpados, e que os setores vazios eram destinados a convidados. Os ingressos foram entregues aos cartolas, diplomatas e outros VIPs. A notícia só aumentou a revolta dos torcedores comuns (e dos próprios atletas, que reclamaram através das redes sociais sobre a dificuldade que enfrentaram para conseguir ingressos para suas famílias e amigos).

Não ajudou em nada o fato de Sebastian Coe, o presidente do comitê organizador, ter minimizado o peso do fato, garantindo que as arenas londrinas estavam “entupidas de gente”. Ao mesmo tempo, as emissoras de TV exibiam repetidamente as cenas dos lugares vazios. Quando percebeu o tamanho da repercussão negativa do problema, o comitê local se mobilizou para arrumar soluções emergenciais, como ocupar as cadeiras livres com crianças, professores e integrantes das Forças Armadas. Mais um desastre de relações públicas: a imprensa local, que já tinha cobrado as autoridades de forma implacável pela convocação de soldados para cobrir o buraco deixado pelo fiasco da empresa de segurança G4S, questionou se Coe e seus auxiliares chamariam o Exército sempre que houvesse alguma falha a ser remendada nos Jogos. Na manhã desta segunda, enquanto o jornal Daily Mail revelava que muitas das entradas VIP estão nas mãos de cambistas em ação no centro de Londres, cogitou-se uma saída que apela à tradição britânica da pontualidade. Fala-se em disponibilizar para o público todos os lugares que permanecerem vazios meia hora depois do início de cada evento – uma regra que, é fácil supor, poderia até aumentar a confusão nas arenas.

Para aumentar a irritação dos londrinos que passaram o fim de semana procurando ingressos enquanto a TV flagrava longas fileiras de lugares vazios, a prefeitura pediu nesta segunda, primeiro dia útil de competições na capital, que os moradores mudassem de rotina e ficassem à distância das regiões onde acontecem as principais competições. Com o sistema de transporte público em regime especial por causa dos Jogos, havia o temor de que qualquer interrupção no metrô ou qualquer acidente numa via central da cidade causasse um efeito dominó que engarrafasse a cidade toda. Não foi o que aconteceu no horário do rush matinal. A lentidão no trânsito não foi maior que a de uma segunda-feira comum, e os trens e metrôs deram conta da carga adicional de passageiros. O sistema de transporte público londrino registra cerca de 12 milhões de viagens por dia. Com os Jogos, acredita-se que será preciso absorver mais 3 milhões de percursos diários. Apesar do sucesso do esquema preventivo na primeira manhã de um dia útil com competições olímpicas, as autoridades londrinas ainda não comemoram – e lembram que o teste de fogo será na sexta-feira, quando começa o atletismo, no Estádio Olímpico, com capacidade para 80.000 pessoas.

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