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Londres falha em atrair novos esportistas

Organizadores querem convencer 1 milhão de ingleses a praticar esportes três vezes por semana

Por Por Jere Longman, de Londres - 2 mar 2011, 17h57

Planejamento inadequado, mudança de governo e cortes no orçamento de organizações de esportes forçaram um reconsideração na ambição inglesa

Quando Londres foi escolhida para sediar os jogos olímpicos de 2012, os organizadores definiram uma meta ambiciosa: envolver mais 2 milhões de pessoas em esportes e atividades físicas na Inglaterra.

Porém, a menos de 18 meses das Olimpíadas, esse compromisso lembra um solitário corredor ofegante, curvado e cansado de uma resolução de Ano Novo cuja ambição não pôde ser cumprida por falta de empenho.

O desafio original de Londres teve de ser modificado. Agora, os organizadores planejam convencer 1 milhão de pessoas na Inglaterra a praticar esportes três ou mais vezes por semana, durante pelo menos 30 minutos. Só que até mesmo a meta do “plano 3×30” vem se mostrando ilusória.

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Números divulgados em dezembro pela agência governamental de desenvolvimento do esporte no país, a Sport England, indicaram que a participação no nível 3×30 havia aumentado em 123 mil pessoas desde 2007, quando foi estabelecido o parâmetro de 1 milhão. No ano passado, porém, esse número aumentou em apenas 8 mil pessoas. No ritmo atual, a meta de 1 milhão de novos participantes não seria atingida em 2013, como se esperava, mas somente uma década depois, em 2023-24.

Enquanto isso, num país que figura entre os mais obesos da Europa, a quantidade de sedentários parece continuar a crescer. Pesquisas da Sport England indicam que o número de adultos que não praticam nenhuma atividade esportiva aumentou em quase 300 mil desde 2005, quando Londres foi declarada sede das Olimpíadas até 2012, até o outono de 2010.

Planejamento inadequado, mudança de governo, profundos cortes no orçamento de organizações de esportes e uma aparente superestimação do impacto dos jogos olímpicos sobre a participação das massas forçaram um reconsideração na ambição inglesa.

O último plano, divulgado em novembro pelo governo democrata de coalizão conservadora-liberal, omitiu a meta de 1 milhão de pessoas. Em vez disso, falou em estimular mais pessoas a se envolverem em esportes por meio de um novo programa, patrocinado pela Loteria Nacional, denominado “Places People Play”.

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“Ainda não desistimos da meta, mas estamos examinando-a com bastante cuidado”, disse Hugh Robertson, ministro de esportes da Inglaterra, em entrevista por telefone.

Segundo Robertson e outros especialistas em esportes, é necessária uma forma mais concreta de definir e mensurar esportes e atividades físicas. Caminhar até o ponto de ônibus conta? Se alguém jogar uma partida de futebol de 90 minutos, isso conta como uma sessão de atividade, ou três?

Evidências sugerem que há mais pessoas participando de esportes do que as pesquisas revelam, diz Robertson. Porém, segundo ele, mensurar a participação envolve um “mecanismo um pouco complicado”.

Todas as candidaturas para sediar as Olimpíadas precisam mostrar como os jogos irão oferecer benefícios permanentes. Cada cidade pode criar um plano de legado. Não existem penalidades específicas por não atingir uma meta, mas o fracasso pode minar a reputação de Jogos de Verão ou de Inverno e causar uma vergonha política.

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Alguns críticos acusaram Robertson de reduzir as ambições londrinas pós-Olimpíadas. Ele respondeu enfaticamente que “não é isso que estamos buscando fazer”.

Legado – Darryl Seibel, porta-voz da Associação Olímpica Britânica, afirmou que autoridades esportivas e governamentais estavam determinadas a deixar um legado significativo das Olimpíadas de Londres, e a levar os planos “da retórica à realidade”.

Londres não é a primeira cidade-sede a lutar com seu legado olímpico. Na verdade, eventos internacionais como Olimpíadas e Copa do Mundo deixam um impacto mais perceptível em infraestrutura do que nos esportes. Estradas, aeroportos e sistemas de trens são aprimorados, enquanto inúmeros estádios se tornam elefantes brancos e os benefícios esportivos permanecem indistintos.

Seis anos depois que Albertville, na França, sediou as Olimpíadas de Inverno de 1992, a arena de patinação artística e a pista de patinação de velocidade foram cercadas e abandonadas. O magnífico estádio olímpico exibido nos jogos de Pequim de 2008, conhecido como Ninho de Pássaros, raramente era usado após um ano e meio.

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Em Londres, houve uma calorosa discussão sobre o Estádio Olímpico de 854 milhões reais: após 17 dias da competição, ele deveria ser demolido e substituído por um estádio de futebol, ou reduzido em tamanho e transformado numa arena para sediar tanto futebol quanto atletismo? Prevaleceu a segunda opção, numa recente votação pela empresa encarregada do legado olímpico.

Pesquisas sobre o impacto dos Jogos Olímpicos na participação do povo em esportes não geraram resultados animadores. Em 2007, o Comitê de Cultura, Mídia e Esportes, da Câmara dos Comuns do Reino Unido, concluiu que “nenhum país-sede jamais conseguiu demonstrar um benefício direto dos Jogos Olímpicos na forma de um aumento estável em participação”.

Um estudo após as Olimpíadas de Sidney, em 2000, mostrou que, embora sete esportes olímpicos tenham mostrado um leve aumento de participação na Austrália, nove mostraram declínio.

Após os Jogos da Amizade de 2002, sediados em Manchester, na Inglaterra, “não houve aparentemente nenhum impacto registrado sobre os níveis de participação esportiva” no norte do país, escreveu Fred Coalter, professor de estudos esportivos na Universidade de Stirling, na Escócia.

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Os Jogos Olímpicos deixarão um legado de estádios novos e renovados, mas provavelmente “não resultará numa nova onda de participação em massa nos esportes”, segundo o Centro de Pesquisa de Esportes, Educação Física e Atividades na Universidade de Canterbury Christ Church, na Inglaterra.

As pessoas fisicamente ativas podem se tornar mais ativas ou tentar um novo esporte, diz Mike Weed, professor de esportes na sociedade da Universidade de Canterbury. Aqueles que já foram ativos podem ser estimulados pelas Olimpíadas a renovar sua participação, diz ele. Isso é conhecido como efeito demonstração.

O que esse fenômeno não faz, disse Weed, “é causar impacto sobre aqueles que nunca praticaram nenhum esporte”.

“As Olimpíadas estão aqui em cima, e nós estamos aqui embaixo”, disse Asha Solanki, de 30 anos, que trabalha com marketing e pratica artes marciais. “Parece algo inatingível. Quantas pessoas você conhece que fazem os 400 metros com barreiras?”

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O último plano de legado, “Places People Play”, é um esforço de 130 milhões de libras para construir, manter e reparar instalações esportivas locais; treinar 40 mil voluntários para organizar esportes de base; gerar competições para alunos do ensino primário e secundário; e estimular 100 mil adultos a levantar dinheiro para caridade e testar a si próprios em diversos esportes olímpicos e paraolímpicos.

Na divulgação do plano, em novembro passado, Sebastian Coe, ex-corredor olímpico e atual presidente da organização das Olimpíadas de Londres, disse que iria “usar a força inspiradora dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos para promover o esporte em todo o país”.

Tessa Jowell, ministra de esportes da oposição, disse: “Não importa como eles pintem, a promessa de legado olímpico que fizemos aos jovens deste país é mais uma promessa não cumprida pelo governo da coalizão”.

O programa fala pouco sobre como aumentar a demanda na participação em esportes, diz Weed. Robertson, o ministro dos esportes, diz que uma iniciativa multifacetada de esportes populares poderia dar certo.

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“Eu nunca subestimaria as dificuldades do que estamos tentando fazer”, disse Robertson. “Mas esse não é um bom motivo para desistir. Foi a promessa que fizemos, e por isso continuaremos tentando”.

(The New York Times)

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