Assine VEJA a partir de R$ 9,90/mês.

Lais fala sobre a dor e sua luta para recuperar movimentos

'Eu choro para caramba, mas penso na solução do problema', conta esquiadora

Por Da Redação - 24 mar 2014, 08h46

“Tenho meu momento de tristeza, vivo ele, encaro ele, choro. Não é em todo momento que sou forte. Eu choro pra caramba. Acho que isso dá energia para você pensar, refletir, acho que é a punhalada que você leva para continuar.”

Quase dois meses depois de se acidentar enquanto treinava em Salt Lake City, nos Estados Unidos, para ir aos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, na Rússia, Lais Souza concedeu sua primeira entrevista, exibida na noite de domingo pelo Fantástico, da TV Globo. Lais apareceu falando bem, quase sem nenhuma dificuldade, e realizando uma série de exercícios de fisioterapia. A atleta se disse esperançosa sobre recuperar pelo menos alguns movimentos. “Todo dia, quando eu deito na minha cama, eu peço que eu quero andar”, afirmou. Ela revelou ainda alguns sinais promissores de sua recuperação, que tem sido mais rápida do que o previsto inicialmente pelos médicos. “Eu senti vontade de fazer xixi. Não era para eu sentir nada”, explicou. Ela corria sério risco de precisar para sempre de respiração mecânica e até de não conseguir mais falar ou comer. “Mas eu estou comendo de tudo, de tudo mesmo. Comi picanha um dia desses”, contou.

Leia também:

COB lança campanha de arrecadação para tratamento de Lais

Publicidade

Em recuperação, Lais Souza agradece apoio dos fãs

O programa mostrou a atleta cantando ao lado da fisioterapeuta Denise Lessio, sua melhor amiga e empresária, e que está nos EUA desde o acidente. Foi de Denise a ideia de fazer Lais tentar recuperar a fala e a respiração dublando músicas que gosta. Com essa etapa vencida, faltam muitas outras. Lais move normalmente o pescoço, o que deve tornar mais fácil a tarefa de direcionar a cadeira de rodas especial que precisará usar, movendo-a com o queixo. Com a lesão entre a terceira e a quarta vértebras, que afetaram a medula, os sinais enviados do pescoço para baixo não deveriam ser sentidos. Mas Lais e os médicos comemoram o fato de ela ter sentido uma agulhada na ponta do dedo, por exemplo. “Nunca imaginei que uma furadinha de agulha fosse ser tão importante”, contou a mãe da atleta, Odete. Ainda não se sabe se Lais ficará para sempre tetraplégica, porque a área da lesão ainda está inchada. Mas Lais sabe que, pelo menos por hora, não conseguirá ter movimentos dos membros.

“Penso na solução do problema, no que posso fazer para melhorar, já que não posso mudar o que aconteceu. Com um pouquinho que tenho de movimento, estou lá me matando para mexer esse músculo.” Os médicos se mostram otimistas com a forma com que Lais tem respondido ao tratamento. “O que eu sei de pacientes com a paixão e a determinação da Lais é que eles acabam sendo bem sucedidos na vida, ainda que fiquem para sempre em cadeiras de rodas”, contou o médico que chefia a Unidade de Reabilitação de Lesões Medulares do Jackson Memorial Hospital, da Universidade de Miami. Lais vai começar um tratamento com células-tronco para tentar aumentar as chances de recuperar mais movimentos. Apesar da motivação para percorrer esse longo caminho, Lais admitiu que às vezes se deixa abater. “Tenho meu momento de tristeza, vivo ele, encaro ele, choro. Não é em todo momento que sou forte. Eu choro pra caramba. Acho que isso dá energia para você pensar, refletir, acho que é a punhalada que você leva para continuar.”

A atleta também contou suas lembranças do dia do acidente, em que treinava saltos e freadas bruscas para a prova de que participaria em Sochi. “Foi no momento em que eu estava numa velocidade grande, bem grande. Fui de lado para dar uma freada, eu freei e lembro disso. Depois disso, não lembro mais. Eu tenho algumas cenas na cabeça. Logo depois que eu caí, eu lembro do meu técnico, chamando, chorando, ofegante. Lembro do helicóptero, o barulho. Depois do helicóptero, só lembro da UTI.” Lais precisa de doações para pagar seu tratamento depois que sair do hospital. Até a semana passada, só 3.000 reais haviam sido arrecadados. O COB não fez um seguro de invalidez para a atleta, o que deixou Lais sem cobertura. De acordo com o comitê, o seguro para os atletas olímpicos brasileiros só vale para as competições. Lais estava pré-convocada, e sua vaga foi oficializada apenas no dia seguinte ao acidente. Outros atletas e personalidades publicaram fotos nas redes sociais pedindo apoio financeiro à recuperação de Lais.

Publicidade

(Com Estadão Conteúdo)

Publicidade