Clique e Assine a partir de R$ 7,90/mês

Josi Santos faz terapia na neve e confederação já sonha com os Jogos de 2018

Pouco importa o resultado na competição. A participação da santista nos Jogos de Sochi serviu para exorcizar o medo após o acidente da companheira Laís Souza, e abrir o caminho para os brasileiros no esporte de neve

Por Alexandre Salvador 14 fev 2014, 17h54

São menos de dez segundos desde o início da descida pela colina, o voo sobre a rampa inclinada até a aterrissagem na neve. Como foram dois saltos, vamos considerar 20 segundos no total, ok? Somados os saltos em treinamentos aqui na Rússia, digamos que o tempo acumulado praticando o esqui aéreo no ambiente olímpico chega a um minuto. Se para alguns essa volta do ponteiro do relógio passa depressa, para a paulista Josi Santos foi uma eternidade. Essa brevíssima experiência da atleta brasileira foi uma vitória. A vitória de quem conseguiu enfrentar o trauma causado pelo acidente de sua companheira de modalidade, a também paulista Laís Souza, que segue internada em um hospital nos Estados Unidos, há mais de duas semanas.

Leia também:

Funcionário é atropelado por trenó e quebra perna em Sochi

Muito sexo, pouca bebida: a tônica dos Jogos de Sochi

Temperatura sobe em Sochi – e a neve começa a derreter

O resultado dos dois saltos feitos pela atleta natural de Santos, de 29 anos, pouco importam – mas vale dizer que o primeiro salto, um mortal de costas, rendeu a melhor nota da carreira da brasileira. Também vale a ressalva de que, em competições oficiais, Josi tem 100% de aterrisagens completadas (nenhuma queda, portanto) – estatísticas simples, mas que significam muito para quem há sete meses nunca havia pisado num esqui. “Não tenho como descrever. Todos vocês acompanharam a nossa trajetória e viram que não foi fácil. Realizar o meu sonho olímpico com uma homenagem para minha amiga”, disse Josi ao final da prova no parque Rosa Khutor.

Continua após a publicidade

Na quinta-feira, ao conversar com os jornalistas, estava claro no semblante de Josi que o medo a acompanhava. Logo nas primeiras respostas, veio a revelação. “A galera comentou comigo que a pista é meio perigosa.” Durante a rotina noturna de treinos, ainda na quinta, era visível um certo desconforto de principiante. Para piorar: não deve ter sido fácil voltar a encarar a neve com as imagens da amiga ainda bem vivas no pensamento. Embora o acidente de Laís tenha ocorrido fora da área de treinamento de saltos, o cenário não deve ser muito diferente. Desde o episódio nos Estados Unidos, Josi tem acompanhamento de um psicólogo, o chileno Gastón Ortiz, que faz sessões do que ela chamou de “conversas”. E não são só sobre o acidente ou sobre o esporte. “São sobre a vida toda.”

Leia também:

Primeira grande zebra em Sochi: Shaun White sem medalha

Falta de neve compromete a prova mais radical dos Jogos

Nesta sexta-feira, ela foi se soltando aos poucos durante a prova. Após o primeiro salto, os dedos polegar e indicador formaram um L e foram acompanhados de uma mensagem para a câmera: “Força, Laís” – em alto e bom tom. Depois do segundo, veio a sensação do dever cumprido, e o choro nervoso, muito mais de alívio do que de felicidade. A descarga emocional em cima dela foi muito grande. Além de toda a preocupação com “as primeiras”: primeira olimpíada, primeira negra a participar nessa modalidade, primeira brasileira nesse esporte e, claro, o acidente com a Laís. “Tudo isso é uma carga pesada demais para qualquer atleta”, afirma o presidente da Confederação Brasileira de Desportos na Neve (CBDN), Stefano Arnhold.

Projeto 2026 – É cedo para falar, afinal, com a lesão de Laís, a única atleta da equipe brasileira no esqui aéreo é a representante nos Jogos de Sochi. Mas o presidente da CBDN está otimista. “Para nosso benefício, essa modalidade dá muito bem para ser praticada no verão (o Brasil tem um centro de treinamento montado em São Roque, no interior de São Paulo). Além disso, ela pode muito bem incorporar atletas oriundos de modalidades acrobáticas, como os saltos ornamentais, o trampolim e, claro, a ginástica.”

O próximo passo da CBDN é fazer seletivas, com o auxilio do treinador da equipe brasileira, o americano Ryan Snow. “Não tem nenhuma outra modalidade de neve que reúne tantas características dos brasileiros. Vamos buscar jovens promissores entre 14 e 18 anos, para investirmos na formação e colher os frutos em 2018, 2022 e 2026. Tenho certeza que o esqui aéreo ainda vai dar muito o que falar dentro do esporte nacional. Pode apostar”, disse Stefano. A trajetória curta, porém guerreira, da brasileira Josi Santos já serve como inspiração para novos atletas seguirem seus passos pioneiros.

Continua após a publicidade

Publicidade