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Jornal dos EUA readmite repórter suspensa por tuítes sobre Kobe Bryant

'Washington Post' havia punido Felicia Sonmez por relembrar caso de estupro do ídolo do basquete minutos após sua morte

Por Da Redação - Atualizado em 28 jan 2020, 19h50 - Publicado em 28 jan 2020, 19h45

O jornal americano The Washington Post voltou atrás e decidiu readmitir nesta terça-feira 28 a jornalista Felicia Sonmez, repórter de política nacional da publicação. Ela havia sido suspensa no último domingo 26 por ter compartilhado no Twitter uma notícia antiga sobre uma denúncia de estupro contra o ex-jogador de basquete Kobe Bryant, pouco depois da morte do astro da NBA em acidente de helicóptero.

O sindicato que representa os profissionais do Washington Post havia publicado uma carta, assinada por mais de 300 funcionários, criticando a forma como os chefes lidaram com o assunto. Nesta noite, o grupo anunciou a readmissão de Felicia. Em comunicado, a editora Tracy Grant considera que as postagens tiveram um “timing” equivocado, mas ressalta que não houve violação aos códigos de conduta de seus funcionários em redes sociais.

Felicia estava suspensa pelo Washington Post depois que diretores da publicação consideraram seus tuítes, que iam na contramão da enxurrada de homenagens ao ídolo dos Lakers, um “pré-julgamento que prejudicou o trabalho de seus colegas”.

Minutos depois da morte de Kobe, Felicia Sonmez postou um link para um artigo de 2016 do site Daily Beast sobre as alegações de agressão sexual feitas contra o jogador em 2003. “O caso perturbador de estupro de Kobe Bryant: a evidência de DNA, a história do acusador e a meia-confissão”, era o título do artigo, que não foi escrito por ela. Rapidamente, milhares de seguidores passaram a acusa-la de “insensibilidade” ao recordar a polêmica em meio ao luto.

Felicia, que já foi vítima de abuso, chegou a receber ofensas e ameaças de morte e rebateu com novas postagens. “Bem, isso foi revelador. Para as 10.000 pessoas (literalmente) que comentaram e me enviaram e-mails com abuso e ameaças de morte, por favor, dedique um momento e leia a história – que foi escrita mais de três anos atrás, e não por mim”, iniciou.

“Vale a pena lembrar de qualquer figura pública em sua totalidade, mesmo que essa figura pública seja amada e essa totalidade inquietante. Que as pessoas estejam respondendo com raiva e ameaças contra mim diz muito sobre a pressão que as pessoas sofrem para ficar caladas nesses casos”, completou.

Horas depois, Felicia Sonmez recebeu um e-mail do editor executivo do Washinton Post, Martin Baron. “Felicia. Tuitar isso foi uma verdadeira falta de juízo. Por favor, pare. Você está prejudicando a instituição fazendo isso”, escreveu Baron, segundo informações do New York Times. A jornalista deletou as postagens e foi suspensa por tempo indeterminado.

“A repórter de política nacional Felicia Sonmez foi colocada em licença administrativa enquanto o The Post analisa se os tuítes sobre a morte de Kobe Bryant violaram a política de mídia social da redação. Os tuítes mostraram um pré-julgamento que prejudicou o trabalho de seus colegas”, justificou a editora Tracy Grant, em comunicado.

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Reação de colegas de redação – Assim que o afastamento se tornou público, centenas de jornalistas da casa manifestaram apoio a Felicia Sonmez. O sindicato que representa os profissionais do Washington Post publicou uma carta, assinada por mais de 300 funcionários, criticando a forma como os chefes lidaram com o assunto.

“Felicia recebeu um ataque de mensagens violentas, incluindo ameaças que continham seu endereço residencial, na sequência de um tuíte sobre Kobe Bryant. Em vez de proteger e apoiar um repórter de abusos, o The Post colocou-a em licença administrativa, enquanto os líderes da redação analisam se ela violou a política de mídia social. Felicia teve que deixar sua casa por medo de sua segurança e recebeu orientação insuficiente do The Post sobre como se proteger”, diz um trecho do comunicado.

O grupo disse entender que a morte de Kobe Bryant tornava o momento difícil para os fãs, mas que é responsabilidade dos jornalistas “contar ao público toda a verdade como a conhecemos – sobre figuras e instituições populares e impopulares, em momentos oportunos e inoportunos”. A carta diz ainda que esta “Não é a primeira vez que o The Post procura controlar as falas de Felicia sobre questões de violência sexual. A própria Felicia é uma sobrevivente de assalto que, bravamente, apresentou sua história há dois anos”, dizia outro trecho. A pressão dos colegas deu resultado e, apenas um depois, o jornal decidiu readmitir a funcionária.

A denúncia – Kobe Bryant foi detido em 2003 depois que uma funcionária de um luxuoso hotel no Colorado prestou queixa de abuso sexual. Na ocasião, o jogador do Los Angeles Lakers, que já era casado, foi liberado mediante pagamento de fiança e afirmou que a relação com a jovem de 20 anos foi consensual.

A denúncia foi arquivada depois que a mulher não compareceu ao tribunal. Soube-se depois que Kobe e a sua denunciante entraram em um acordo milionário de indenização. O advogado de Kobe leu uma carta na qual manteve a posição de que a relação foi consentida, apesar de que reconhecer que “ela não analisou a situação da mesma forma”.

Na época, Kobe recebeu o apoio de seus patrocinadores e pediu desculpas públicas à esposa Vanessa pelo adultério. Do problema familiar e judicial nasceu o apelido Black Mamba (a mamba negra, uma das cobras mais venenosas do mundo). O alter ego era uma forma de Bryant deixar as dificuldades fora de quadra e “destruir todos que pisassem nela”, nas palavras dele.

A denúncia de abuso sexual voltou à tona em 2018, quando Integrantes do movimento #MeToo e outras organizações feministas protestaram contra o Oscar de melhor curta-metragem vencido por Kobe Bryant como roteirista do filme Dear Basketball.

 

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