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Jogos de Tóquio: revezamento da tocha olímpica tem início em Fukushima

Área devastada por terremoto, tsunami e acidente nuclear abriu desfile que percorrerá o país até 23 de julho, em meio a incertezas e críticas sobre o evento

Por Da Redação Atualizado em 25 mar 2021, 10h22 - Publicado em 25 mar 2021, 09h52

A chama olímpica dos Jogos de Tóquio-2020, tristemente adiados para este ano em razão da pandemia do novo coronavírus, foi acesa na madrugada desta quinta-feira, 25, em uma cerimônia atípica no Japão. O local escolhido para a partida foi bastante simbólico: Fukushima, área devastada há 10 anos por um terremoto, tsunami e acidente com reatores nucleares, que resultou em 18.000 mortes. O evento, portanto, segue de pé, contrariando a vontade da maioria dos japoneses e em meio a uma série de dúvidas sobre os protocolos sanitários que serão adotados. Até a abertura, em 23 de julho, a tocha passará pelas mãos de 10.000 corredores em 47 cidades até chegar ao Estádio Nacional de Tóquio.

“No ano passado, enquanto o mundo inteiro passava por um período difícil, a chama olímpica foi mantida viva de maneira silenciosa, mas poderosa”, discursou a ex-atleta Seiko Hashimoto, presidente do Comitê Organizador, durante a cerimônia fechada para espectadores. “A pequena chama não perdeu as esperanças e, assim como os botões da flor de cerejeira que estão prestes a desabrochar, estava esperando por este dia.”

A cerimônia teve início no J-Village, um centro nacional de treinamento de futebol, utilizado em 2011 no trabalho de socorro às vítimas da catástrofe em Fukushima. Azasu Iwashimizu, zagueira da seleção de futebol campeã da Copa do Mundo em 2011 e medalhista de prata em Londres-2012 foi a primeira atleta a conduzir a tocha. A capitã e estrela daquele time japonês, Homare Sawa, alegou problemas de saúde e não participou do evento.

Críticas e incertezas

Alguns espectadores acompanharam o revezamento, a maioria de longe, à beira das estradas, de máscara, agitando bandeiras olímpicas, mas sem gritar, seguindo recomendação da organização. Também houve protestos contra a realização do evento, em meio a uma pandemia ainda descontrolada no país. O Japão tem cerca de 9.000 mortes por coronavírus, número relativamente baixo comparado a maioria das nações, mas a capital Tóquio relatou 420 casos na quarta-feira 24, o maior número em um único dia neste mês.

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Além disso, a campanha de vacinação no país caminha a passos lentos. Apenas 700.000 pessoas foram vacinadas até agora, a maioria médicos. Depois que o revezamento da tocha terminou, dezenas de manifestantes se reuniram no centro de Tóquio, segurando cartazes pedindo ao Japão para cancelar o evento. “Não faz sentido realizar as Olimpíadas que ninguém apoia”, afirmou à agência Reuters Toshio Miyazaki, 60 anos, que organizou o comício anti-olímpico.

Diante de tantas incertezas, a manutenção da cerimônia simbólica do fogo aceso a caminho da pira foi chamada de “opção antidemocrática”, na definição do jornal americano The New York Times. Antidemocrática porque contrariou a vontade popular: pesquisas recentes indicam que mais de 80% da população japonesa não quer a competição. Epidemiologistas concordam com o risco de contágio, apesar de já ter sido anunciada a proibição de turistas estrangeiros. “Não sei por que alguém sairia de casa para assistir a esses Jogos Olímpicos”, disse Hyoung Min Yoo, que trabalha com finanças em Tóquio e assegurou antecipadamente a compra de ingressos para as finais de atletismo e natação, mas que não irá usufruir da aquisição.

  • No Japão, a Olimpíada foi vista, antes da pandemia, como símbolo de recuperação para o país, um modo de superar uma histórica crise econômica, terremotos, tsunamis, o desastre nuclear de Fukushima. Mas então veio o novo coronavírus para deixar tudo no ar. Há pressão econômica – foram gastos mais de 100 bilhões de dólares – e diplomáticas. Como a China sediará a Olimpíada de Inverno de Pequim, em 2022, os japoneses não querem conceder aos adversários históricos o direito de celebrar o primeiro grande encontro internacional depois da pandemia. Seria uma derrota para o orgulho nacional.

    Trata-se, portanto, de assumir riscos – apesar da evidente desconfiança dos cidadãos. Taro Aso, o ministro das finanças do país, classificou as Olimpíadas de Tóquio como “amaldiçoadas” já que dificilmente o país conseguirá recuperar investimentos. “Cancelar os Jogos Olímpicos seria muito mais fácil”, disse Kentaro Iwata, especialista em doenças infecciosas do Hospital Universitário de Kobe, que acredita que o evento traz riscos mesmo com a prometida “bolha”, em que atletas não poderão socializar fora da vila olímpica, sendo rastreados por um aplicativo de celular.

    O revezamento da Tocha é uma luz, mas convém lembrar que, em 2020, ele também deixou Fukushima – mas foi interrompido, lastimavelmente, no meio do caminho.

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