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Jogos da diversidade: as estrelas gays da Olimpíada de Tóquio

Ao menos 163 atletas desta edição já se declararam homossexuais, superando as edições do Rio e de Londres; "não se ganha sem gays", diz Megan Rapinoe

Por Da Redação Atualizado em 23 jul 2021, 18h35 - Publicado em 23 jul 2021, 18h13

Megan Rapinoe, 36 anos, estava exaurida após a vitória por 2 a 1 dos Estados Unidos sobre a França, em 28 de junho de 2019, no Parque dos Príncipes, em Paris. O jogo das quartas de final daquela Copa do Mundo feminina era considerado como uma decisão antecipada da competição. Autora de dois gols e eleita a melhor atleta em campo pela Fifa, Rapinoe deixou uma clara mensagem: a causa que defendia e acreditava, de igualdade de gênero, estava acima do próprio desempenho pessoal.

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“Vamos, gays! Não se pode ganhar um campeonato sem gays na equipe, nunca ninguém fez isso. É ciência”, desabafou a camisa 15. “Eu fico motivada por ver pessoas que gostam de mim e lutam pelos mesmos ideais. Adquiro mais energia com isto do que tentando provar que alguém está errado”.

A jogadora virou o rosto de uma luta que ganhou ainda mais força quando anunciou o relacionamento com Sue Bird, 40 anos, um dos maiores nomes do basquete em todo o mundo. Tetracampeã olímpica e referência no esporte, dias depois do manifesto dela em Paris, a armadora se disse orgulhosa pelo posicionamento da companheira.

“Megan está no nível de chefão do videogame sobre autoconhecimento. Ela sempre foi confiante, mas isso não significa que sempre foi imune (…) Eu acho que a sensibilidade de Megan é o que a leva a lutar pelos outros. Acho que é o que a levou a se ajoelhar. A Megan que você está vendo agora? É a versão mais forte daquela que se ajoelhou”, afirmou ao The Player’s Tribune.

Escolhida como um dos porta-bandeiras na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio, ao lado do jogador de beisebol Eddy Álvarez, Bird representou mais um passo na busca pelo reconhecimento da causa LGBT+. O casal, campeão olímpico, está mais em evidência do que nunca e puxa a fila para que a atual edição se torne a mais inclusiva de todos os tempos, com pelo menos 163 gays declarados, de acordo com o site Outsports.

Sue Bird e Eddy Álvarez foram porta-bandeiras dos Estados Unidos -
Sue Bird e Eddy Álvarez foram porta-bandeiras dos Estados Unidos – Clive Brunskill/Getty Images

O número já é consideravelmente maior do que nas últimas edições dos Jogos. No Rio de Janeiro-2016 apenas 56 registros, enquanto em Londres-2012 foram 23. Dos 163, o Brasil conta com 14 representantes em diversas modalidades. Vale lembrar que o evento conta com pouco mais de 11.300 atletas.

Marta e sua esposa, Toni Deion Pressley -
Marta e sua esposa, Toni Deion Pressley – Instagram/Reprodução

No futebol feminino, as brasileiras Marta, Formiga, Bárbara, Letícia, Aline Reis e Andressa Alves já assumiram a orientação sexual publicamente. Eleita por seis vezes como melhor jogadora do mundo, Marta é casada com sua colega de equipe, a zagueira americana Toni Deion Pressley. Elas assumiram o relacionamento publicamente em janeiro deste ano, após a superação de momento delicado, a descoberta de um câncer de mama por Toni. O elenco do Orlando tem outro casal, Ali Krieger e Ashlyn Harris.

A PLACAR, Formiga contou ter vivido uma série de preconceitos pela opção: A gente já enfrentou muito preconceito e resistiu. Recentemente, eu e minha mulher, Erica, recebemos uma mensagem de um cara falando que ela estava errada por ser lésbica e casada com uma jogadora de futebol negra. Quanta gente ignorante! O futebol feminino está quebrando”, disse.

Não é só o futebol. No vôlei, Douglas Souza, ponteiro da seleção masculina, tem se notabilizado por mostrar bastidores da Olimpíada de modo irreverente e espontâneo. Ele foi o primeiro atleta a assumidamente gay da modalidade no Brasil. Entre suas dezenas de vídeos diários, Douglas já testou, sambando, a famosa cama de papelão da Vila – “Ainda bem que não quebrou. Cama super aprovada” – cantou músicas de Pablo Villar e fez piadas com a maioria dos companheiros de equipe. Ele diz nunca ter sofrido com homofobia na seleção.

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“Quero ser lembrado como o Douglas que fez história como primeiro homossexual no vôlei que conseguiu jogar em alto nível. Quero ser um espelho de pessoas fora do padrão. Sou fora do padrão”, disse, durante uma live realizada pela equipe do Taubaté no ano passado.

Além de Douglas, outros nomes como Ana Carolina (vôlei), Carol Gattaz (vôlei), Ana Marcela Cunha (natação), Izabela da Silva (atletismo), Babi Arenhart (handebol), Isadora Cerullo (rúgbi) e Silvana Lima (surfe) são só alguns dos exemplos. Em entrevista à Folha, em 2018, Ana Marcela comentou temer fazer comentários, apesar da opção pública.

Ana Marcela Cunha assumiu publicamente ser homosexual em 2015 -
Ana Marcela Cunha assumiu publicamente ser homosexual em 2015 – Alexandre Loureiro/Getty Images

“É público, mas não comento”, resumiu. “Não sabemos quem está do nosso lado. Vemos tanta gente sendo agredida na rua por isso, também. Tenho medo, por isso não me exponho. Saímos juntas, mas evitamos mãos dadas. Existe muita gente que não entende”, completou a atleta, explicando sobre o relacionamento com a também atleta Diana Abla, jogadora de polo aquático da seleção brasileira.

No futebol masculino, a discussão vai ainda mais longe. Se há sinceridade no lado oposto, o feminino, com uma série de histórias inspiradoras e que viraram referência, ainda não há revelações maiores no mundo do futebol deles. Em 2020, um jogador enviou ao tabloide The Sun uma carta em que, apesar de entender ser gay desde os 19 anos, ainda não se sentia seguro para compartilhar a sua opção com dirigentes ou colegas de equipe.

Matéria da PLACAR na edição de setembro de 013 -

Um dos casos mais emblemáticos foi o de Robbie Rogers, campeão da Major League Soccer (MLS) com o Los Angeles Galaxy, em 2015, e assumidamente declarado homossexual. Na cerimônia do título, ele foi homenageado pelo então presidente do país, Barack Obama. Antes disso, Rogers chegou a cogitar aposentadoria precoce dos gramados. Parou em 2017, por lesões.

Em setembro 2013, Rogers foi um capítulo a parte na edição 1383 de PLACAR. A matéria tinha como título “A porta da esperança?” e falava sobre como a decisão de Rogers e o beijo de Emerson Sheik em um amigo, no mesmo ano, poderiam, enfim, encorajar jogadores a “saírem do armário”. O tabu persiste, bem como o preconceito, mas a Olimpíada de Tóquio, que se apresenta como os “Jogos da Diversidade” pode ser mais um importante ponto de mudança.

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