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Japonesa, negra e engajada: Naomi Osaka é a cara dos Jogos de Tóquio

Tenista de 23 anos se consolida como um ícone pop mundial ao brilhar nas quadras e ainda lutar por igualdade racial e saúde mental dos atletas

Por Luiz Felipe Castro Atualizado em 23 jul 2021, 16h42 - Publicado em 23 jul 2021, 16h41

A identidade do responsável por acender a pira olímpica é sempre um segredo guardado a sete chaves, mas, nos Jogos de Tóquio, deu a lógica. Conforme já vinha sendo especulado, a honraria coube à maior estrela do esporte japonês na atualidade, a tenista Naomi Osaka. Seus ótimos resultados em quadra (é número 2 do mundo e já ganhou quatro títulos de Grand Slam) são apenas uma das razões para a escolha. Mulher, negra, jovem, bem sucedida e uma das vozes mais ativas em pautas sociais como o racismo, Osaka representa tudo aquilo que os organizadores nipônicos gostariam de transmitir. É a cara de um Japão moderno, tolerante e engajado.

Ao receber a tocha no Estádio Olímpico de Tóquio, utilizando um inédito visual de tranças vermelhas, Naomi manteve o olhar sereno, quase inexpressivo, que costuma exibir em quadra. Não era frieza, mas nervosismo. “Este é, sem dúvidas, a maior conquista esportiva e a maior honra que terei na minha vida. Não tenho palavras para descrever os meus sentimentos neste momento, mas sei que estou repleta de gratidão”, escreveu a atleta para seus mais de 2 milhões de seguidores no Instagram.

Osaka é uma estrela mundial. Nascida na região japonesa homônima, é filha de mãe oriental com pai haitiano, negro. Mora desde os três anos nos Estados Unidos, de onde nunca saiu, mas optou por defender a pátria de nascimento. Apesar da timidez, a tenista concordou em contar sua história em uma série recém-lançada na Netflix. Também virou boneca Barbie e estampou capas de revista mundo afora e se tornou a atleta mais bem paga do mundo em 2020.

  • De acordo com ranking da revista Forbes, ela embolsou 60 milhões de dólares (mais de 300 milhões de reais) nos últimos 12 meses. Mais de 90% do montante vêm de contratos publicitários. Ainda que seja uma grande campeã (tem dois Abertos da Austrália e dois Us Opens no currículo) é com sua imagem que Osaka mais fatura, aproveitando-se de uma tendência recente: a busca de marcas de luxo por figuras engajadas.

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    Osaka não é piadista como Novak Djokovic, nem carismática como Serena Williams. Seu magnetismo reside, sobretudo, na clareza com a qual se posiciona. No ano passado, seu treinador, o belga Wim Fissette, chegou a dizer que o ativismo vinha melhorando o desempenho dela. Ao longo US Open, Osaka entrou em quadra usando máscaras pretas com o nome de americanos negros vítimas de violência por parte de policiais, como George Floyd e Breonna Taylor. “Quero as pessoas comecem a falar desses problemas e por isso utilizei as máscaras ao longo das duas semanas”, discursou a campeã, na época. 

    Naomi Osaka usou máscara em homenagem a Trayvon Martin, jovem morto em 2012
    Naomi Osaka usou máscara em homenagem a Trayvon Martin, jovem morto em 2012 Matthew Stockman/Getty Images

    Antes disso, ela havia se negado a jogar a semifinal do torneio de Cincinnnati em resposta à morte de Jacob Blake, um homem negro baleado pela polícia, em Wisconsin. Na ocasião, justificou sua atitude dizendo que “antes de ser atleta, eu sou uma mulher negra. E como uma mulher negra, sinto que há coisas mais importantes nesse momento que requerem imediata atenção, mais do que me assistirem jogar tênis”.

    Recentemente, Osaka abraçou outra pauta importante, a da importância da saúde mental. A tenista mais famosa do mundo decidiu abandonar a disputa de Roland Garros ao entrar em conflito com a organização por se recusar a participar de coletivas de imprensa, entrevistas previstas antes e após as partidas. “O melhor para o torneio, para os outros jogadores e para o meu bem-estar é a minha saída (do torneio) para que cada um volte a se concentrar no tênis”, disse por meio de suas redes sociais, em um desabafo no qual revelou sofrer de depressão.

    “Eu nunca exagerei em usar termo ‘saúde mental’. A verdade é que eu tenho sofrido com longas crises de depressão desde o US Open de 2018 e tenho muita dificuldade para lidar com isso. Todo mundo sabe que eu sou introvertida e qualquer pessoa que me assista em um torneio vai notar que muitas vezes eu ando com fones de ouvido, isso me ajuda a lidar com a ansiedade”, completou. Ela chegou a declarar que preferia pagar a punição do que se submeter a cumprir o protocolo obrigatório para todos os tenistas.

    “Frequentemente sinto que pessoas não têm consideração pela saúde mental de atletas”, disse, sugerindo ainda que o valor de sua punição fosse enviado a instituições de caridade. Os momentos de tristeza, felizmente, parecem ter passado, e Naomi Osaka tem tudo para coroar sua recuperação com uma medalha de ouro em casa.

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