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Japonesa, negra e engajada: Naomi Osaka é a cara dos Jogos de Tóquio

<p>Tenista de 23 anos se consolida como um ícone pop mundial ao brilhar nas quadras e ainda lutar por igualdade racial e saúde mental dos atletas</p>

Por Luiz Felipe Castro Atualizado em 11 jan 2022, 16h47 - Publicado em 23 jul 2021, 16h41

A identidade do responsável por acender a pira olímpica é sempre um segredo guardado a sete chaves, mas, nos Jogos de Tóquio, deu a lógica. Conforme já vinha sendo especulado, a honraria coube à maior estrela do esporte japonês na atualidade, a tenista Naomi Osaka. Seus ótimos resultados em quadra (é número 2 do mundo e já ganhou quatro títulos de Grand Slam) são apenas uma das razões para a escolha. Mulher, negra, jovem, bem sucedida e uma das vozes mais ativas em pautas sociais como o racismo, Osaka representa tudo aquilo que os organizadores nipônicos gostariam de transmitir. É a cara de um Japão moderno, tolerante e engajado.

Ao receber a tocha no Estádio Olímpico de Tóquio, utilizando um inédito visual de tranças vermelhas, Naomi manteve o olhar sereno, quase inexpressivo, que costuma exibir em quadra. Não era frieza, mas nervosismo. “Este é, sem dúvidas, a maior conquista esportiva e a maior honra que terei na minha vida. Não tenho palavras para descrever os meus sentimentos neste momento, mas sei que estou repleta de gratidão”, escreveu a atleta para seus mais de 2 milhões de seguidores no Instagram.

Osaka é uma estrela mundial. Nascida na região japonesa homônima, é filha de mãe oriental com pai haitiano, negro. Mora desde os três anos nos Estados Unidos, de onde nunca saiu, mas optou por defender a pátria de nascimento. Apesar da timidez, a tenista concordou em contar sua história em uma série recém-lançada na Netflix. Também virou boneca Barbie e estampou capas de revista mundo afora e se tornou a atleta mais bem paga do mundo em 2020.

De acordo com ranking da revista Forbes, ela embolsou 60 milhões de dólares (mais de 300 milhões de reais) nos últimos 12 meses. Mais de 90% do montante vêm de contratos publicitários. Ainda que seja uma grande campeã (tem dois Abertos da Austrália e dois Us Opens no currículo) é com sua imagem que Osaka mais fatura, aproveitando-se de uma tendência recente: a busca de marcas de luxo por figuras engajadas.

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Osaka não é piadista como Novak Djokovic, nem carismática como Serena Williams. Seu magnetismo reside, sobretudo, na clareza com a qual se posiciona. No ano passado, seu treinador, o belga Wim Fissette, chegou a dizer que o ativismo vinha melhorando o desempenho dela. Ao longo US Open, Osaka entrou em quadra usando máscaras pretas com o nome de americanos negros vítimas de violência por parte de policiais, como George Floyd e Breonna Taylor. “Quero as pessoas comecem a falar desses problemas e por isso utilizei as máscaras ao longo das duas semanas”, discursou a campeã, na época. 

Naomi Osaka usou máscara em homenagem a Trayvon Martin, jovem morto em 2012
Naomi Osaka usou máscara em homenagem a Trayvon Martin, jovem morto em 2012 Matthew Stockman/Getty Images

Antes disso, ela havia se negado a jogar a semifinal do torneio de Cincinnnati em resposta à morte de Jacob Blake, um homem negro baleado pela polícia, em Wisconsin. Na ocasião, justificou sua atitude dizendo que “antes de ser atleta, eu sou uma mulher negra. E como uma mulher negra, sinto que há coisas mais importantes nesse momento que requerem imediata atenção, mais do que me assistirem jogar tênis”.

Recentemente, Osaka abraçou outra pauta importante, a da importância da saúde mental. A tenista mais famosa do mundo decidiu abandonar a disputa de Roland Garros ao entrar em conflito com a organização por se recusar a participar de coletivas de imprensa, entrevistas previstas antes e após as partidas. “O melhor para o torneio, para os outros jogadores e para o meu bem-estar é a minha saída (do torneio) para que cada um volte a se concentrar no tênis”, disse por meio de suas redes sociais, em um desabafo no qual revelou sofrer de depressão.

“Eu nunca exagerei em usar termo ‘saúde mental’. A verdade é que eu tenho sofrido com longas crises de depressão desde o US Open de 2018 e tenho muita dificuldade para lidar com isso. Todo mundo sabe que eu sou introvertida e qualquer pessoa que me assista em um torneio vai notar que muitas vezes eu ando com fones de ouvido, isso me ajuda a lidar com a ansiedade”, completou. Ela chegou a declarar que preferia pagar a punição do que se submeter a cumprir o protocolo obrigatório para todos os tenistas.

“Frequentemente sinto que pessoas não têm consideração pela saúde mental de atletas”, disse, sugerindo ainda que o valor de sua punição fosse enviado a instituições de caridade. Os momentos de tristeza, felizmente, parecem ter passado, e Naomi Osaka tem tudo para coroar sua recuperação com uma medalha de ouro em casa.

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