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Japão: pico repentino de coronavírus após adiamento olímpico gera polêmica

Parlamentares questionam se surto foi negligenciado e números maquiados enquanto país lutava para manter os Jogos, mas governo nega

Por Da Redação - Atualizado em 1 abr 2020, 17h07 - Publicado em 30 mar 2020, 09h36

O governo do Japão e o Comitê Olímpico Internacional (COI) anunciaram o adiamento dos Jogos Olímpicos de Tóquio para 2021 no último dia 24. Até então, o país asiático parecia conseguir conter a pandemia de coronavírus, ao contrário de países vizinhos. Depois da suspensão da Olimpíada, no entanto, o número de infecções em Tóquio apresentou um aumento repentino, o que levantou diversos questionamentos, conforme mostra reportagem da agência Associated Press no último domingo, 30.

O crescimento no número de casos e as ações mais drásticas do governo logo após o adiamento levantaram suspeitas no parlamento e entre os cidadãos. Desconfia-se que o Japão tenha subestimado a extensão do surto e atrasado a aplicação de medidas de distanciamento social enquanto se apegava às esperanças de entregar os Jogos em 24 de julho, conforme programado.

Um dia depois do adiamento, o governador de Tóquio, Yuriko Koike, pediu que os moradores da capital ficassem em casa nos fins de semana até meados de abril, dizendo que os casos confirmados do coronavírus haviam aumentado para 41 em um dia, ante 16 no início da semana. No sábado, Tóquio registrou 63 novos casos, outro recorde de um dia. Koike disse que as infecções em Tóquio estavam à beira de um aumento explosivo e que medidas mais fortes, incluindo um bloqueio, poderiam ser necessárias se a propagação do vírus não diminuir.

O ex-primeiro-ministro japonês Yukio Hatoyama fez duras acusações no Twitter. “Para causar a impressão de que a cidade estava controlando o coronavírus, Tóquio evitou tomar medidas rígidas e fez o número de pacientes parecer menor. O coronavírus se espalhou enquanto eles esperavam. (Para o governador Koike), foram as Olimpíadas primeiro, não os moradores de Tóquio”, afirmou Hatoyama.

O atual primeiro-ministro Shinzo Abe afirmou no último sábado 28 que o Japão está à beira de um grande salto nos casos. “Quando as infecções crescerem, nossa estratégia desmoronará instantaneamente”, alertou Abe. “Na situação atual, mal estamos aguentando.” Ele disse que ainda não é necessário um estado de emergência, mas que o Japão poderá a qualquer momento enfrentar uma situação tão ruim quanto nos Estados Unidos ou na Europa.

Especialistas ouvidos pela reportagem confirmaram um aumento de casos não rastreáveis ​​crescendo rapidamente em Tóquio, Osaka e outras áreas urbanas, sinais de um aumento explosivo de infecções. “Isso é somente uma coincidência?”, perguntou Maiko Tajima, um parlamentar da oposição do Partido Democrático Constitucional do Japão, durante uma sessão parlamentar no último dia 25, citando o repentino aumento.

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O ministro da Saúde, Katsunobu Kato, afirmou que “não há absolutamente nenhuma relação” entre os fatos. Já o primeiro-ministro Shinzo Abe citou especialistas dizendo que um grande motivo para o aumento é o número crescente de casos que não podem ser vinculados e um salto em infecções no exterior. O primeiro-ministro disse às pessoas para “estarem preparados para uma longa batalha”.

A estratégia do Japão tem sido evitar aglomerações e rastrear rotas de infecção, em vez de testar todos. Uma diretriz divulgada no fim de semana ainda diz que os testes serão realizados de acordo com os conselhos dos médicos clínicos. Os especialistas definem um nível alto para a elegibilidade dos testes, permitindo-lhes apenas aqueles vinculados a grupos ou aqueles com sintomas, porque temem que testes em massa encham os leitos necessários para pacientes com necessidades graves e causem o colapso do sistema de saúde.

Números – De 18 de fevereiro a 27 de março, o Japão testou cerca de 50 000 pessoas, uma média diária de 1 270. Houve apenas um ligeiro aumento no número de testes na semana passada. Em Tóquio, menos de 2% dos que procuraram aconselhamento em uma linha direta do governo foram testados, segundo dados do Ministério da Saúde. A Coréia do Sul, por outro lado, havia testado cerca de 250 000 pessoas em meados de março.

Abe negou as alegações de que o Japão manipulou os números limitando os testes ou combinou as mortes por Covid-19 com outras mortes por pneumonia. “Estou ciente de que algumas pessoas suspeitam que o Japão esteja ocultando os números, mas acredito que isso não é verdade. Se houver um encobrimento, ele aparecerá no número de mortes.” Ele disse que os médicos disseram que pacientes com pneumonia por coronavírus podem ser detectados por tomografia computadorizada ou raios-X.

Aki-Hiro Sato, professor de ciências da informação na Universidade da Cidade de Yokohama, disse em um relatório recente que o Japão provavelmente está enfrentando uma segunda ou terceira onda do vírus vindo da Europa e dos Estados Unidos. Tóquio tem cerca de 430 casos, mas Sato estimou que mais 1.000 poderiam ter sido infectados no final de março, se a doença estiver se espalhando em um ritmo semelhante ao de outros países. Incluindo infecções assintomáticas ou leves, cerca de 10.000 pessoas podem estar infectadas, disse ele.

No domingo, o Japão tinha 2.578 casos confirmados, incluindo 712 de um navio de cruzeiro, com 64 mortes, segundo o Ministério da Saúde. Cerca de 1.000 se recuperaram. No momento, o Japão tem 2.600 leitos hospitalares designados para tratamento de doenças infecciosas, incluindo 118 em Tóquio, mas cerca de um terço deles já estão ocupados por pacientes com coronavírus, segundo Satoshi Kutsuna, do Centro de Controle e Prevenção de Doenças.

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