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Italo Ferreira, atual campeão mundial de surfe: ‘Vivi um ano de cinema’

'Estou treinando pesado desde o primeiro dia do ano porque o objetivo agora é duplo: ser bicampeão mundial e campeão olímpico', diz o potiguar

Por Italo Ferreira - Atualizado em 10 jan 2020, 10h43 - Publicado em 10 jan 2020, 06h00

Se o meu ano de 2019 fosse escrito por um roteirista de cinema, tenho certeza de que ele seria enquadrado no gênero ficção. Começaria pouco antes do início do circuito mundial, em abril, comigo em cena anotando em um papel as metas para a temporada: ser feliz, vencer duas provas do circuito mundial, ser campeão do mundo e conquistar uma vaga para a Olimpíada. Sem querer dar spoilers (mas já o fazendo), consegui tudo isso e muito mais. O engraçado é que, mesmo ganhando a primeira etapa do circuito mundial, na Austrália, as pessoas não me consideravam um postulante ao título da WSL. A atenção da imprensa e dos próprios competidores estava no havaiano John John Florence e, entre os brasileiros, no Gabriel Medina e no Filipe Toledo. Esse “desprezo” fez com que eu quisesse vencer ainda mais, treinasse em dobro. Dizem que sou ligado nos 220 volts, mas na verdade isso tudo é excesso de vontade. Acordava todos os dias antes de o sol nascer, era o primeiro a entrar na água e o último a sair. E, quando não estava surfando, ficava atento à preparação física. Minha mente e meu corpo sempre em perfeita sintonia.

E nesse filme houve muitas reviravoltas. Um dos momentos mais malucos aconteceu em setembro, nos Jogos Mundiais do Japão. Alguns dias antes de embarcar para o país asiático, roubaram meu passaporte em Los Angeles, na Califórnia. Imagine a correria até conseguir todos os documentos de emergência para poder viajar. E, para piorar a situação, um furacão fez com que meus voos se atrasassem. Mesmo naquele momento, em que tudo parecia dar errado, não me abalei. Tenho uma fé muito grande e acredito que tudo sempre acontece por um motivo. Cheguei à cidade da competição e fui direto para a praia, sem ter nem mesmo uma prancha. Entrei no mar de bermuda jeans e surfei com equipamento emprestado, faltando apenas nove minutos para a minha bateria acabar. Não apenas venci aquela fase como também levei a medalha de ouro para casa.

Como nas melhores histórias, tive de superar grandes desafios. Além de curar duas lesões complicadas no tornozelo e na coxa, ao longo do ano perdi duas pessoas muito importantes para mim: meu tio Miro morreu durante a “perna” europeia do circuito. Naquele momento, eu estava em quinto lugar no ranking e parecia impossível ainda sonhar com o título. Decidi transformar a dor da perda em combustível dentro d’água, conseguindo um segundo lugar na França e uma vitória na etapa de Portugal. Cheguei ao Havaí, a última etapa do ano, como líder do ranking mundial, dependendo apenas da minha performance para alcançar meu grande sonho.

Foi então que veio outro baque, talvez o maior de todos: a minha avó faleceu enquanto eu estava treinando em Pipeline. Ela era uma pessoa muito querida, e nós tínhamos uma relação bastante próxima. Essa foi a fase mais difícil, mas tentei me blindar. Eu não assistia, por exemplo, às baterias dos meus adversários diretos, como Medina e Toledo. Não precisava torcer contra eles, tinha apenas de fazer meu papel e vencer todas as vezes que entrasse na água. Na fase final, enfrentei o Gabriel, e a situação era simples: quem ganhasse seria, também, o campeão mundial de 2019. E eu venci.

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Terminada a premiação, perguntaram-me como seria a comemoração, se eu queria fazer uma festa ou algo do tipo. Respondi somente que precisava voltar a Baía Formosa, no Rio Grande do Norte, minha casa, para treinar, porque 2020 estava logo aí. E enfim chegou. Estou treinando pesado desde o primeiro dia do ano porque o objetivo agora é duplo: ser bicampeão mundial e campeão olímpico. O surfe é um esporte individual, mas ninguém vence sozinho. Tenho um time que faz com que tudo corra perfeitamente bem durante o ano.

Estou doido para saber como será o filme de 2020. Mas, se depender de mim, não tenho dúvida de que ele terá um final feliz: com a bandeira do Brasil no pódio nos Jogos de Tóquio e espero que comigo no lugar mais alto.

Publicado em VEJA de 15 de janeiro de 2020, edição nº 2669

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