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Ioga tipo vale-tudo

As posturas milenares desenvolvidas no Oriente para conectar corpo e mente agora servem de inspiração para ginásticas mirabolantes no ar e na água

 (Arte/VEJA)

Não é de hoje que a ioga, técnica milenar nascida no Oriente, atrai ocidentais em busca da transcendência do corpo e da mente — sem falar, claro, da capacidade de trançar cabeça, tronco e membros em poses inimagináveis, feitas para ser postadas no Instagram. Calcula-se que nos últimos dez anos o número de praticantes tenha triplicado e alcançado 40 milhões de pessoas no mundo, mais de 500 000 delas no Brasil. A ioga tradicional proporciona benefícios comprovados cientificamente, como o alívio do stress e o aumento da concentração. Mas, como não podia deixar de ser em tempos de obsessão pela boa forma, os movimentos lentos e harmônicos vêm sendo adaptados para acrobacias, passos de dança e outras modalidades de exercício físico (veja o quadro) que trocam a serena posição de lótus no tapetinho emborrachado pelo vigor de uma ginástica localizada.

Uma das variações mais populares é a air ioga, praticada, como o nome indica, no ar, com a ajuda de um tecido resistente que aguenta até 300 quilos — adaptação da ioga antigravidade criada em 2007, nos Estados Unidos, por um ex-acrobata e coreógrafo da Broadway, Christopher Harrison, e licenciada para mais de quarenta países. A aula começa com o sankalpa, quando os alunos se concentram em mentalizar seu objetivo, e depois há a entoação de um mantra. Isso feito, acabou o sossego. Dali em diante, cada um sobe em um pano preso ao teto da sala e põe-se a tentar reproduzir os malabarismos do instrutor. O apogeu da sequência é a “invertida”, a posição de plantar bananeira com o corpo esticado como um poste, imortalizada nas redes sociais por celebridades como Gisele Bündchen e Xuxa. Dica: no ar, é mais fácil conseguir. “O tecido dá maior segurança e ainda reduz o risco de lesões, já que não é necessário usar o apoio da cabeça no chão”, diz Danielle Langer, professora da academia Bio Ritmo, que oferece a modalidade.

A sala de air ioga comporta vinte alunos e, sempre que um horário é aberto, as vagas se esgotam em minutos. Praticante da ioga convencional há mais de uma década, a arquiteta carioca Fernanda Prados, 43 anos, decidiu aventurar-se na aérea duas vezes por semana. “Estou conseguindo evoluir bem, porque o tecido facilita o encaixe das posturas mais difíceis”, diz. Outra vertente em alta, a acro ioga combina os movimentos da ioga aos da ginástica acrobática e é praticada em dupla ou trio: uma pessoa fica embaixo, deitada, e seus braços e pernas erguidos sustentam quem estiver executando as posturas. Definitivamente, não é para amadores — exige treino, força e concentração. Em uma hora, queimam­-se 500 a 1 000 calorias, tanto quanto em uma hora de spinning ou de corrida na esteira. Quem preferir o ambiente aquático poderá deleitar-se com aqua ioga (na piscina) ou sup ioga (sobre uma prancha, no mar).

A ioga foi criada na Índia, há mais de 5 000 anos, como uma filosofia de vida centrada na conexão de corpo e mente através de recursos como meditação, respiração e execução dos ássanas, posturas inspiradas em animais ou na natureza. Variações sempre existiram, mas sem se descolar do propósito original — daí os adeptos do exercício tradicional torcerem o nariz para as heterodoxas práticas modernas. “Na ioga tradicional não tem essa competição para chegar a determinada postura. Nós acreditamos numa evolução mais natural, sem todos esses malabarismos que vemos por aí”, diz Vladimir Hersen da Costa, instrutor há 23 anos e coordenador do espaço fundado pelo professor Hermógenes, um dos precursores da ioga no Brasil. Uma das vertentes mais controvertidas, a bikram chegou a virar febre nos Estados Unidos, com escolas espalhadas por toda parte, mas perdeu um bocado do charme quando seu inventor, o indiano Bikram Choudhury, caiu em desgraça em meio a uma enxurrada de denúncias de assédio sexual a partir de 2013. A bikram, também conhecida como hot ioga, consiste em uma série fixa de 26 exercícios executada em uma sala fechada, a 40 graus de temperatura e alta umidade — em tese, para reproduzir o clima da Índia (Choudhury costumava circular vestindo apenas uma sunga cavada). O fundador fugiu dos Estados Unidos para o México e o método bikram mudou de dono, mas continua em uso, inclusive no Brasil.

Qualquer que seja a aplicação das posturas da ioga, ela sempre trará benefícios para a forma física — desde que utilizada com seriedade. “São movimentos que atuam sobre as fibras de colágeno dos músculos e tendões, melhorando a resistência e a força, além de contribuírem para um condicionamento cardiorrespiratório mais eficiente”, diz o médico Sérgio Maurício, membro da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte. Sendo assim, está valendo até a experiência da fazenda de criação de cabras no Estado de Oregon, nos Estados Unidos, onde os animais circulam livremente entre os alunos durante as aulas. Ou até a beer ioga praticada em Berlim, na Alemanha, que prevê uns goles entre uma postura e outra. Com o perdão dos puristas, faz sentido — são, ambas, terapias de efeito comprovado para o corpo e a mente.

Publicado em VEJA de 8 de maio de 2019, edição nº 2633

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