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Ídolo de uma geração, Falcão vê o futebol sepultado após revés em 82

A Seleção Brasileira que havia brilhado nos amistosos e nas eliminatórias para a Copa da Espanha de 1982 ainda sentia uma importante ausência no seu plantel. Liberado pela Roma pouco tempo antes do torneio, Paulo Roberto Falcão se uniu ao time de estrelas comandado por Telê Santana e deixou o seu nome na história após assumir com maestria a função designada no meio-campo daquela equipe que foi parada somente pela eficiência dos jogadores italianos de Enzo Bearzot.

Às vésperas do aniversário de 30 anos da derrota por 3 a 2 para a Itália, Falcão conversou com a Gazeta Esportiva.Net e relembrou momentos marcantes da campanha desempenhada pelo Brasil no Mundial. Sem desmerecer os adversários que calaram toda uma Nação no Estádio do Sarriá, em Barcelona, o atual técnico do Bahia diz não ter encontrado os motivos que levaram ao inesperado revés e atribuiu ao destino a culpa de ter ‘sepultado’ o futebol mundial naquele dia 05 de julh

Sacado sem motivos aparentes da Copa da Argentina, em 1978, Falcão ainda destacou a importância que aquele Mundial tinha para um grupo que viu até mesmo o Dr. Sócrates largar o cigarro para a disputa da competição. Diante do reconhecimento dos brasileiros na chegada ao Aeroporto do Galeão, e da perplexidade dos próprios italianos com o título conquistado, o ídolo de Internacional-RS e São Paulo enxerga aquela Seleção como um time insubstituível e não hesita em classificar o próprio esporte como o principal derrotado em 1982.

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Gazeta Esportiva. Net: Você chegou à Seleção depois dos demais jogadores. Sentiu com a falta de entrosamento com o resto do time ou demorou pra se adaptar ao esquema de jogo do Telê Santana?

Falcão: Eu jogava na Roma e o Dirceu estava no Atlético de Madri. Os times europeus não eram obrigados a nos liberar integralmente para o período de treinos que a Seleção tinha programado em Belo Horizonte e depois na Europa. Mesmo assim, eu não cheguei a sofrer com a falta de entrosamento com o grupo. O time era muito técnico e nós conseguimos nos adaptar bem ao estilo de jogo.

GE.Net: A chegada do time na Espanha foi tomada de grande expectativa. Ao que você atribui todo esse carinho que a equipe recebeu?

Falcão: O Brasil de um modo geral sempre teve esse carinho e aquela Seleção foi conquistando isso com o seu futebol. Foi criado esse consenso com os amistosos que nós disputamos. Para nós ficou ainda mais claro depois do jogo com a Itália. No caminho para o hotel, estenderam uma faixa que dizia: ‘Valeu Brasil, nem sempre o melhor ganha’. Eles adoravam aquela Seleçã

GE.Net: A seleção era praticamente composta por jogadores que atuavam no Brasil. Existe alguma relação com a forma como os atletas foram recebidos pelo público em 82 e como eles são idolatrados pela torcida atualmente?

Falcão: Não dá para comparar com hoje. Hoje, o grau e a intensidade das informações são absurdos. Não significa que tudo seja correto, mas você tem sites, internet, celular, jogos… Você pode assistir a qualquer campeonato do mundo em qualquer canto do Brasil. Antigamente, o jogador era conhecido por disputar uma Copa do Mundo. O Mundial era a grande vitrine para nós jogadores.GE.Net: O Telê Santana resolveu promover algumas mudanças no time antes da estreia contra a União Soviética? Foi uma surpresa para o grupo a entrada do Dirceu no lugar do Paulo Isidoro, por exemplo?

Falcão: O Telê Santana mexeu porque o (Toninho) Cerezo estava suspenso. Além disso, eu também entrei naquele time. Foi coisa dele mesmo. Ele resolveu colocar o Dirceu e nunca nos disse o motivo. Um treinador sempre tem que ser respeitado em suas escolhas, viu! (risos, fazendo alusão ao fato de ser treinador do Bahia atualmente)

GE.Net: O Brasil foi para o vestiário no jogo contra a União Soviética atrás no placar. Como o time reagiu depois da falha do goleiro Waldir Peres no primeiro tempo?

Falcão: O nosso time era experiente e nós reagimos bem a isso. Quando terminou o primeiro tempo, o Júnior foi até o Waldir Peres e brincou com ele dizendo: ‘Levanta essa cabeça, Waldir. Essa Copa ainda tem muito gol para você tomar’. O Waldir fez um grande Mundial e foi um dos caras mais injustiçados depois da nossa eliminaçã

GE.Net: O Brasil virou o jogo contra a URSS depois que você deixou a bola passar para o chute de fora da área do Éder. Como foi aquele lance dentro de campo?

Falcão: Essa jogada tem uma explicação única. Quando o Paulo Isidoro rolou, eu ia dominar a bola. Eu só fiquei com ela, porque o grito do Éder me fez pensar que ele estava muito bem posicionado. Se fosse um grito de menor intensidade, eu não teria deixado a bola passar. Eu teria pensado que se fosse para ele apenas dominar, eu pegaria e sairia jogando, pois estava mais à frente. Foi um grito de quem ia mesmo bater no gol.

GE.Net: Sentiu alguma insegurança nos jogadores de defesa depois que o Brasil saiu atrás no placar no jogo seguinte, contra a Escócia?

Falcão: Nós tínhamos maturidade, o time era muito maduro. Era praticamente uma seleção de capitães. Essa equipe tinha o Oscar, capitão do São Paulo, o Zico, capitão do Flamengo, eu, que tinha sido capitão do Internacional e era praticamente um dos líderes da Roma. A Seleção era muito boa e nós nos preparamos durante três meses para esta Copa do Mundo. O Sócrates chegou até a parar de fumar para disputar este Mundial. Mesmo perdendo, nós íamos para cima e tínhamos muita consciência do que precisava ser feito para virar o placar.GE.Net: Dos três gols que você marcou nesta Copa do Mundo, qual deles foi o mais bonito e importante para você?

Falcão: O gol contra a Itália, porque era o da classificação e o empate nos bastava. A Itália havia feito o segundo e com aquele nós terminaríamos o jogo empatados na pior das hipóteses. Foi o gol da nossa libertação, tanto que aquela comemoração é vista até hoje. O próprio gol ainda está na memória dos torcedores, e, com certeza, seria muito mais falado se nós tivéssemos conseguido a classificação.

GE.Net: Sobre aquele jogo contra a Argentina. O que você pode falar daquela apresentação da Seleção?

Falcão: Foi fantástico. Aquela exibição acabou com a dúvida daquelas poucas pessoas que ainda não confiavam no nosso potencial. Foi criado um consenso de que esse time tinha que ganhar o título da Copa do Mundo. Junto com o jogo contra a Itália, foi uma das nossas melhores atuações.

GE.Net: Quais foram os comentários dos jogadores depois daquele jogo e até mesmo da expulsão do Maradona?

Falcão: Não se falava muito. Nós estávamos muito preocupados com o Zico. O (Daniel) Passarela havia acertado uma pancada na panturrilha dele e ele se queixava de muitas dores. Aquele time era muito consciente. Nós não ficávamos desesperados quando saíamos atrás no placar e nem deslumbrados quando conseguíamos uma grande vitória.

GE.Net: Você acha que essa vitória sobre a Argentina deixou a equipe com uma espécie de salto alto antes do jogo com a Itália?

Falcão: Chance zero. As pessoas buscam uma desculpa para todo time que perde. Em 1998, falaram que o Brasil perdeu porque o Ronaldo teve não sei o que. A verdade é que nós tomamos um banho da França, um chocolataço. Foi um banho de bola. Não existe consistência em nada do que se busca para justificar uma derrota. Nós criamos muitas chances e chegaram a dizer que aquela Seleção tinha que se segurar mais. No terceiro gol da Itália, por exemplo, nós estávamos com dez jogadores dentro da área. Depois falaram que o Batista precisava entrar para auxiliar na marcação. O Batista nem no banco estava por causa daquela entrada do Maradona no jogo passado. Sempre vão tentar achar algo que precisava ter sido feito para que nós conseguíssemos a classificação.

GE.Net: Para você, o que teria de ser mudado na forma como o time jogou para que o Brasil pudesse ter vencido a Itália?

Falcão: Ninguém aceitaria um Brasil diferente. O Brasil não perdeu aquele jogo por não ter mudado. O Brasil não ganhou, porque não foi eficiente da forma como a Itália foi. O (Dino) Zoff fez dois ou três milagres. Quis o destino que nós saíssemos de lá derrotados.

GE.Net: E o que falar do Paolo Rossi? Ele era mesmo um predestinado depois de todo aquele episódio envolvendo esquemas de aposta?

Falcão: O Rossi voltou depois destes dois anos de suspensão e nem era para estar naquela seleção. Os três primeiros jogos dele foram muito ruins e a torcida pressionava para que ele saísse do time. Infelizmente, ele acertou contra a gente. Ele estava sempre confiante e adquiriu ainda mais ânimo contra o Brasil. Sempre foi um goleador de área, que fazia gol de biquinho ou roubava a bola do zagueiro para marcar. Ele era um grande ídolo antes daquela confusão e voltou a ser muito querido pelo torcedor depois disso.GE.Net: Faltou humildade para o Brasil jogar com o empate ou a Seleção teve humildade demais para buscar a vitória contra a Itália?

Falcão: Nem um, nem outro. Eu até vi esse jogo umas vezes e dá para perceber que nós tentávamos roubar a bola da Itália. Pressionamos durante toda a partida. Isso foi coisa do destino, ele não quis que aquela Seleção ganhasse. Eu cheguei a ler um texto muito bom nessa época e ele terminava com: ‘O destino quis assim, bem feito para o destino’. Todo mundo vai encontrar uma explicação, mas nós nunca vamos ter uma. Você não pode imaginar que jogadores como Sócrates, Zico e Cerezo tivessem salto alto. Isso é outro rótulo que tentam colocar em uma Seleção com a experiência e vivência que nós tínhamos. Eram jogadores com inteligência acima da média, com um conhecimento, cobrança tática e leitura de jogo que poucos tivera

GE.Net: Como foi o clima no vestiário depois dessa derrota?

Falcão: Foi um clima parecido com o de um funeral. Foi tudo muito triste, todo mundo chorava. Era como se o nosso futebol tivesse sido sepultado. Nós tivemos as melhores atuações da Copa do Mundo e nossa ficha simplesmente não tinha caído naquele momento.

GE.Net: A derrota da Seleção de algum jeito colocou fim ao futebol ofensivo? Agora se prioriza o futebol de resultados apenas?

Falcão: O futebol perdeu com essa derrota. A Itália tinha uma qualidade fantástica. O goleiro Dino Zoff era um dos melhores da Europa. O (Gaetano) Scirea, o líbero, era um dos três maiores da Europa também. O (Antonio) Cabrini marcava com uma eficiência e uma velocidade incríveis. O (Marco) Tardelli tinha um rendimento muito bom e eles ainda tinham jogadores como o (Giancarlo) Antognoni, Bruno Conti e (Daniele) Massaro. Foi um time excepcional. O Brasil perdeu para uma grande seleção, mas o futebol também perdeu, porque todos passaram a valorizar muito mais a marcação. O (Claudio) Gentille, por exemplo, grudou no Zico da mesma forma que marcou o Maradona. A Itália era um time que marcava muito forte e saia muito bem para o contra-ataque.GE.Net: E quando você retornou para a Roma, existia uma certa perplexidade entre os italianos? Os jogadores e os próprios torcedores ficaram surpresos com essa vitória ou comentaram algo do tipo com você?

Falcão: Todos estavam surpresos, claro. Na época, os jogadores não falavam com a imprensa italiana, porque havia uma briga entre ambos. A imprensa marrom plantou um boato de homossexualismo na equipe e eles ficaram p…, com razão. Eu fazia uma participação em um programa de rádio e uma vez eu cheguei a entrevistar o Enzo Bearzot, técnico da Itália campeã em 82. Perguntei a ele se tinha sido mais gostoso ganhar do Brasil ou da imprensa, e ele disse que foi muito bom superar os dois, porque esse episódio foi de muito mal gosto. Além disso, quando a Itália ganhou do Brasil, ela ganhou o campeonato. Com todo respeito aos alemães, que tinham um grande time, mas eles cresceram muito depois que passaram pela gente.

GE.Net: Como foi a história das malas prontas? A seleção italiana realmente não acreditava na vitória?

Falcão: Isso não existiu de fato. Eu tive uma conversa com o Bruno Conti depois do jogo contra a Argentina para dar os parabéns pela vitória e pela atuação fantástica que ele teve naquele jogo. Além disso, eu iria combinar com ele a reapresentação na Roma, porque nós jogávamos juntos lá. E nessa conversa que nós tivemos ele me deixou com a impressão de que nós passaríamos, enquanto Itália e Argentina ficariam no meio do caminho. Eu não sei se eles estavam com as malas prontas, mas o Bruno me disse que o objetivo deles era não perder para a gente. A intenção era empatar com o Brasil para voltar com a sensação de ter feito uma grande Copa do Mundo.

GE.Net: Você acredita que o futebol hoje em dia poderia ser diferente se aquela Seleção tivesse sido campeã em 1982?

Falcão: Muito tempo se passou depois disso. A Espanha resgatou um pouquinho esse futebol bem jogado, mas com menos objetividade do que aquela Seleção de 82. Acredito que esse Barcelona também será referência por muito tempo, mas o futebol deu uma parada depois disso.

GE.Net: O que falar sobre o Sócrates? Qual a sua real importância naquela Seleção?

Falcão: O Sócrates era um grande jogador, uma grande figura humana. Mas eu não gosto de comparações, porque elas são inadequadas. Quando ele morreu no ano passado, a revista ‘Época ‘me pediu um artigo sobre ele e eu fiquei muito lisonjeado com isso. Você podia não concordar com algumas ideias do Magrão (apelido do Sócrates), mas ele tinha todo o nosso respeito. Era um cara de opinião e nós entendíamos essa liberdade de expressão que ele tinha.GE.Net: Quais eram esses pontos que vocês não concordavam?

Falcão: Não foi nada pontual, foi apenas um exemplo que eu dei para ilustrar a nossa convivência dentro do grupo.

GE.Net: Pode-se dizer que ele era o grande responsável por toda aquela magia do Brasil em 1982 ou você acha que isso era compartilhado por todo o grupo?

Falcão: Esta foi uma Seleção construída ao longo de dois anos. Zico, Júnior, Leandro, Oscar, Batista… Tínhamos um monte de gente qualificada. Não seria muito justo com o Magrão e nem com qualquer um atribuir esse rótulo a um jogador específico. Era uma equipe repleta de capitães, que tinham muita qualidade na forma como se posicionavam e em seus comportamentos.

GE.Net: E sobre o Zico, o que você pode falar sobre a participação dele nesse Mundial?

Falcão: O Zico entra nesse hall de jogadores diferenciados. Era uma Copa muito importante para ele, porque em 78 ele entrou e saiu (Zico dividiu uma bola com Henryk Kasperczak e acabou se lesionando na vitória por 3 a 1 contra a Polônia). O Mundial também era muito importante para mim, para o Magrão… Ele se preparou muito, assim como o restante. Era um jogador de muita qualidade e um dos mais talentosos daquele time, mas o ponto principal dessa equipe era o coletivo. Nós não tínhamos individualidade.

GE.Net: Dá para você falar que essa Copa foi mesmo o auge de sua carreira?

Falcão: Naquela Copa de 82 veio todo o filme da de 78, que eu não joguei. Eu tinha conquistado o direito de estar naquela Seleção por mérito. Estava num grande momento, tinha ganhado a Bola de Ouro da ‘Placar’, e mesmo assim fui tirado. Naquele momento em que nós estávamos cantando o hino contra a União Soviética, vieram coisas na minha cabeça, pensamentos que você não comanda. Individualmente, a Copa de 82 foi muito boa para mim. Mesmo jogando apenas cinco jogos, diferente do (Paolo) Rossi e do (Karl-Heinz) Rummenigge, eu fui o Bola de Prata do torneio. O Rossi ganhou a de Ouro e o Rummenigge ficou em terceiro, mas eu acho que todos deveriam ser premiados pelo que fizeram naquele campeonato.GE.Net: Com relação ao ambiente entre os jogadores, como o Telê Santana administrava aquela equipe?

Falcão: A gente brincava com o Telê e dizia que ele era muito chato. Todos os treinos eram baseados em dois fundamentos: dominar e passar bem. Ninguém ficava com a bola no pé. O nosso drible era o passe e ali tinha gente que driblava muito bem. Era uma seleção rodeada de grandíssimos jogadores, mas formada com muita simplicidade.

GE.Net: Alguma história específica marcou a sua carreira naquela Copa do Mundo?

Falcão: Não tem nenhum momento em especial, porque eu acho que todos são especiais. O convívio com o grupo foi algo muito marcante. A nossa chegada no Galeão também foi muito vibrante. Aquela multidão toda gritando o nosso nome e batendo palma. Além disso, o reconhecimento que nós tivemos depois da Copa do Mundo foi fantástico. Depois do torneio, eu fui jantar em uma boate, que era muito famosa aqui em São Paulo, e as pessoas se levantaram para me aplaudir de pé quando eu entrei no local.

GE.Net: Você vê algum time com potencial para desempenhar um futebol parecido com o da Seleção de 1982?

Falcão: Não, não mesmo. Vai ser impossível alguém chegar no nível daquela Seleção.

GE.Net: E como será este livro que você está escrevendo sobre o Mundial de 82?

Falcão: Este é um projeto que eu estou realizando. Vai ser uma coisa muito simples. Eu só estou tentando deixar as minhas impressões de 82 gravadas. Quero que esse tipo de coisa fique guardada. Eu estou tentando fazer algo em cima desse pouco tempo que tenho. Inicialmente, eu queria ter feito algo maior. A minha ideia era reunir os 11 titulares daquela partida e passar o jogo contra a Itália em uma sala repleta de microfones. Um iria comentar sobre a atuação do outro ou falar sobre a jogada que passava na televisão. Esse era um projeto muito legal e o livro seria feito baseado nesses comentários. Mas, infelizmente, isso nunca foi possível.