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Heloísa Schurmann: Toda tempestade passa

A matriarca da família de velejadores aplica as lições da vida no mar à quarentena

Por Heloísa Schurmann Atualizado em 17 abr 2020, 09h43 - Publicado em 17 abr 2020, 06h00

Viver um dia de cada vez — e com esperança. Foi dessa forma que decidi encarar a quarentena. Estou longe do mar, em terra firme, na casa do meu filho David, de 46 anos, em São Paulo. Não por opção. A pandemia já se alastrava em fevereiro, quando estive nos Estados Unidos para resolver questões familiares após o falecimento de meu pai, em novembro. Por isso não pude acompanhar meu marido, Vilfredo, que pegou o barco e tomou o rumo das Malvinas, onde com certeza está mais seguro das ameaças do novo coronavírus. Mas, estando aqui, não paro de pensar que, nem nos piores momentos da minha existência, dentro de uma embarcação com os mastros quebrados, sacudida por ondas de mais de 10 metros de altura, nem diante da incerteza sobre se escaparia da morte, deixei de acreditar no seguinte: toda tempestade passa.

Aprendi essa lição ao longo de três décadas de vida no mar. Tenho 72 anos. Em 14 de abril, completou 36 anos nossa primeira volta ao mundo. Uma das viagens mais difíceis foi em 1989, quando cruzamos o Oceano Pacífico com nossos três meninos. Permanecemos um mês dentro de um barco de 44 metros quadrados. Aprendemos um novo modo de viver. É claro que escolhemos nos colocar ali, porém vivemos uma situação difícil, em que a família inteira ficou reunida o tempo todo. Não existia a tecnologia de hoje. Eu dava aula às crianças e tinha a rotina de cuidar da embarcação. Em terra, a diferença é que nossa casa não se mexe.

Naquela fase, aprendi que precisamos ter paciência, seja com os filhos, seja com o marido. É a regra número 1. Depois, temos de aprender a solidariedade. Além disso, a rotina é fundamental. Estipular um horário para cada atividade e ter momentos de independência, mesmo com a família no isolamento. Devemos respeitar o espaço do outro. Quantas vezes não quis ficar sozinha? Não falo sobre ter um quarto, um espaço físico; queria ter o meu tempo para escutar uma música ou meditar.

A família Schurmann, pode acreditar, é igual a todas as outras. Chega uma hora em que a gente se cansa da convivência e um não aguenta mais ver o outro. Coisinhas pequenas começam a incomodar, surge um conflito, um desentendimento — faz parte. Para superar isso, é preciso recorrer à arte de aparar arestas, aquele incontornável exercício de aprender a lidar com as diferenças, a resolver discordâncias. Se não dialogarmos sobre o que acontece dentro do barco, ou de casa, a tempestade lá fora nem se comparará à tormenta que vai dominar o ambiente do lar. No fundo, somos interdependentes. Se estou na residência do meu filho, preciso entender que ele receberá as compras e não posso tocar em nada antes da esterilização. Se estou de dieta e a família decidir que vamos comer macarrão, pronto, assim será. Não posso me opor diante de coisas pequenas. O que estamos vivendo é uma realidade imposta. Ninguém a pediu. Temos de saber lidar com esse surto.

Em casa, cuido das mídias sociais, dou assessoria a escolas e faço lives com mães. Elas estão aflitas. Perder a paciência com os pequenos é normal; o momento é novo e não vai durar para sempre. Muitas me mandam mensagens: “Falar com você me pôs um pouco de volta no trilho”. Temos de nos lembrar das coisas boas. Minha maior felicidade é ter visto meus filhos crescer no barco. As pessoas precisam resgatar esse contato, usar menos as telas e lembrar o que se perdeu, conversar cara a cara.

Cada dia eu conto uma história ao meu neto de 11 anos — talvez, no ritmo pré-pandemia, eu não tivesse essa oportunidade. Temos brincado de mímica; fazia anos que eu não brincava de mímica. É importante reconhecer o que há de bom nisso tudo — esperança começa a nascer disso. Quando nos dermos conta, a tempestade terá passado.

Depoimento dado a Jennifer Ann Thomas

Publicado em VEJA de 22 de abril de 2020, edição nº 2683

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