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Há quarenta anos, novidade de Copa no Brasil era o telão

Saiba como a torcida se preparava para o Mundial da Alemanha Ocidental-1974

Quatro décadas atrás, ninguém pensava em assistir à Copa em 3D e HD, em casa ou no cinema com imagens absolutamente impecáveis – tecnologia, às vésperas do Mundial de 1974, na então Alemanha Ocidental, era o telão, ainda analógico (e pouquíssimo confiável). Uma reportagem de capa de VEJA pouco antes do torneio mostra que a novidade não era das mais empolgantes. Além de precisar se contentar com uma imagem escura e às vezes embaralhada, o torcedor sofria com as quedas de satélite e a quebra dos canhões de projeção, estragando a festa de quem pagava até 50 cruzeiros para ir a uma das exibições:

A gigantesca e já rotineira movimentação dos meios de comunicação do país, repetida a cada Copa, este ano ganha duas novidades: uma já meio familiar, a TV em cores, e outra que nasceu em 1974, o “telão”, que vem a ser uma enorme tela de televisão (6 por 9 ou 9 por 12 metros) espalhadas por algumas capitais (Rio, São Paulo, Niterói, Brasília e Recife). O equipamento cedido por 180 dias pelo Tele-Sistema Mexicano à TV Bandeirantes de São Paulo (só de seguro e frete pagou 740.000 cruzeiros) é um projetor como de cinema, com três “canhões” (um verde, outro azul e o terceiro vermelho), que recebe a imagem da TV (fora de São Paulo, a imagem é da Rede Tupi, que participa do negócio com 15%, ficando 35% para Murillo Leite Empreendimentos – Murillo Leite é o superintendente da Bandeirantes – e 5% para o grupo mexicano).

Teoricamente, com preço variando de 50 cruzeiros no luxuoso Parque Anhembi em São Paulo a 10 cruzeiros no “Geraldão” do Recife, o interessado ficaria comodamente sentado como no cinema, vendo a Copa ao vivo e em cores. No entanto, o azar parece estar perseguindo o telão. No Recife, 4.000 pagantes revoltaram-se com as imagens distorcidas e borradas (incluindo eventuais incursões da Pantera Cor-de-Rosa e outros desenhos animados) que se sucediam na tela em que deveria se desenvolver o jogo Iugoslávia 2 x Inglaterra 2, realizado quarta-feira última em Belgrado. O gramado aparecia totalmente roxo e, embora o uniforme da Iugoslávia e da Inglaterra sejam de cores diferentes, viam-se dois times de camisa igual, algo assim corno verde-escuro. Um deles fez um gol e a plateia perguntava: “Quem marcou? Quem marcou?” Ocorre que no telão só a imagem vem de fora e o som é local. O atarantado locutor do telão estava nas mesmas condições dos espectadores. Do mesmo modo, em Salvador, apesar da providência de reduzir a luminosidade do ginásio da Fonte Nova com a instalação de 600 metros quadrados de plástico preto, o telão também não funcionou: quebrou o “canhão vermelho” e é impraticável misturar apenas verde e azul.

Também em São Paulo, sede do empreendimento, o telão não tem sido muito feliz. E desta vez Murillo Leite, que ao fim da transmissão no Anhembi devolvia pessoalmente o dinheiro dos ingressos a quem o solicitasse, responsabilizou a Embratel. Aconteceu que só o primeiro tempo de Iugoslávia e Inglaterra foi transmitido com certa regularidade, apesar de súbitas aparições na tela da apresentadora Xênia, em seu programa habitual das tardes no Canal 13, interrompendo o duelo futebolístico. A etapa complementar, como dizem os cronistas esportivos, ficou reduzida a 20 minutos, pois o tempo do satélite tinha sido reservado previamente para um noticiário da Espanha para a Ibero-América (a Embratel assegura que nada tem a ver com isso). Os espectadores, que no Anhembi haviam pago 50 cruzeiros, mais 7 pelo estacionamento, gritavam em coro: “Telão ladrão”.

No Recife foi necessária a intervenção da polícia. De qualquer modo, a experiência já deu certo em muitos outros países e na Copa, como o próprio time brasileiro, o telão precisará estar em forma. No entanto, enquanto nos grandes centros as possibilidades se tornam mais sofisticadas (no telão do Parque Antártica em São Paulo, os espectadores sentam-se a mesas de chope, refrigerantes e salgados), em outras regiões do país velhas novidades causam furor. Em Manaus, por exemplo, não se sabe se a intensa procura de televisores em cores de 16 polegadas (medida ainda usada na capital amazonense), a prestações de 136 cruzeiros mensais a perder de vista, se deve à Copa ou à televisão em si. Pois pela primeira vez Manaus estará vendo transmissões diretas de TV de fora – e a confirmação de que uma “perna do satélite” tinha sido efetivamente lançada em direção à cidade provocou na última quinta-feira manifestações como o lançamento de foguetes e a desistência de vários torcedores com viagem marcada para a Alemanha.

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Deixar o país para acompanhar o torneio ao vivo, aliás, era uma aventura quase impensável para a esmagadora maioria dos brasileiros. Se hoje o torcedor está mais acostumado a viajar, inclusive para o exterior, na Copa disputada quatro décadas atrás o número de fanáticos dispostos a fazer essa jornada era muito menor – e as dificuldades, infinitamente maiores, já que não havia internet nem gadgets para ajudar o brasileiro a se orientar na Alemanha Ocidental:

Na Alemanha haverá muito menos brasileiros do que se pensou. A previsão da agência Intermares, por exemplo, era vender 1.100 passagens. Vendeu 780. Um “pool” de agências reunidas pela Lufthansa – oferecem aos participantes camisas do “time do grito” e um chapéu tirolês, com a indispensável peninha branca – vendeu setecentos lugares. Esperava-se o dobro. A APM-Turismo vendeu 36 lugares e ainda tinha, até a semana passada, 74 vagas. A Mélia, através de várias agências espalhadas pelo Brasil (ela não trabalha diretamente com o público), teve um resultado melhor, 350 vagas ocupadas num total de 360.

Seus responsáveis admitem, no entanto, que o relativo sucesso se deve exatamente ao fato de que os roteiros de suas excursões não ficam muito presos à Copa, incluindo esticadas a Portugal, Espanha, França, Bélgica, etc… É uma viagem longa e cara: 37 dias e 1.956 dólares por pessoa só na parte terrestre, o que tira um pouco de força dos que argumentam que o alto preço das passagens foi a razão maior para o fracasso de alguns empreendimentos visando à Copa.

Em Porto Alegre, funcionários de uma agência disseram a VEJA que há dois anos tinham 148 inscrições antecipadas, cujos pagamentos já estavam sendo feitos. Desses 148, apenas cinquenta se interessaram em viajar agora. O gerente de uma agência de Blumenau – cidade que uniria a paixão pelo futebol do brasileiro com a nostalgia da Alemanha de grande parte de seus 125.000 habitantes (para provocar Blumenau, um jornal de Itajaí indagava recentemente: “Responda depressa: se Alemanha e Brasil chegarem à final, para quem Blumenau vai torcer?”) – estava realmente perplexo: “Meus chefes em São Paulo não conseguem entender como é que não vendemos uma única passagem aqui” .

Leia a reportagem original na íntegra no Acervo Digital VEJA