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Grito homofóbico no estádio ecoa na sociedade, diz presidente do Vasco

Alexandre Campello defende a postura do árbitro que interrompeu uma partida contra o São Paulo ao ouvir gritos homofóbicos da torcida

 

BRADO – Campello: orientação para que os locutores do estádio dissessem “parem”

BRADO – Campello: orientação para que os locutores do estádio dissessem “parem” (Andre Melo Andrade/Eleven/Folhapress)

O que o senhor achou da decisão do árbitro Anderson Daronco, que parou o jogo ao ouvir os cantos discriminatórios da torcida do Vasco contra a equipe do São Paulo? Ele agiu corretamente, pois o Superior Tribunal de Justiça Desportiva recomendou maior rigor e obediência a normas recentes da Fifa contra o preconceito nos estádios. E, imediatamente após o Daronco paralisar o jogo, tanto o treinador Vanderlei Luxemburgo quanto os jogadores, a própria torcida e o clube, por meio do sistema de som do estádio, pediram que os gritos cessassem.

A homofobia é uma vergonha para o futebol? Diria que é um problema de toda a sociedade, e nós, dirigentes e clubes, temos um papel no combate ao preconceito. Os torcedores em um estádio de futebol e a própria sociedade passam por um processo de aprendizado e conscientização. O Vasco se compromete a promover ações educativas junto ao torcedor. E tenho certeza de que teremos um retorno. Nós percebemos uma sensibilização muito grande dos vascaínos em relação ao tema, sobretudo entre os jovens torcedores.

Se, porventura, o Vasco perder os pontos por causa do episódio, o que o senhor dirá à torcida, caso o critique? Acredito que o Vasco não vai perder os pontos. Entendo que, neste momento, o próprio espírito da Justiça Desportiva está mais voltado para o aspecto educativo do que para o punitivo. Mas, de certa forma, o episódio do último domingo mostrou que a punição, no futuro, acontecerá, sim, se o comportamento se repetir. De qualquer maneira, há uma questão muito maior: o combate ao preconceito no futebol não deve ser motivado pelo receio de punição desportiva, mas sim por ser uma demonstração de cidadania, de respeito ao próximo. Fundamentalmente, porque é o certo a ser feito. Ainda precisamos melhorar muito, e o futebol tem grande contribuição a dar no diálogo com a sociedade e na conscientização das pessoas.

É possível ser otimista em relação ao futuro? Sim. Esse é um comportamento que não cabe mais no futebol ou em qualquer outra esfera da sociedade. Preconceito é crime. Como sempre fez em sua história, o Vasco vai levantar a voz contra a intolerância. Precisamos atentar para o fato de que um canto homofóbico em um estádio não é algo menor ou restrito àquele espaço. Aquele grito ecoa na sociedade. Ele pode estimular um ambiente de permissividade a atos de violência, seja por homofobia, seja por racismo.

Publicado em VEJA de 4 de setembro de 2019, edição nº 2650