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Futebol em 2019: jogo contra o racismo

A disputa entre os que insistem em perpetuar o preconceito e quem o deplora terminou empatada

Por Alexandre Salvador Atualizado em 27 dez 2019, 14h55 - Publicado em 27 dez 2019, 06h00

Se fosse uma partida, a disputa no futebol, em 2019, entre os que deploram o racismo e aqueles que insistem em perpetuar o preconceito teria terminado empatada. Em outubro, por exemplo, os técnicos Roger Machado, do Bahia, e Marcão, do Fluminense — que faziam parte da ínfima minoria de profissionais afrodescendentes que comandava, em 2019, times da primeira divisão no Brasil —, se abraçaram no gramado, em um lance que poderia ser classificado como “didático”. Foi, por assim dizer, um empate em zero a zero. No mês seguinte, no entanto, o que se viu foi um jogo bem mais duro, entre dois brasileiros em um estádio da Ucrânia. Durante um clássico do campeonato local, Taison e Dentinho, atletas do Shakhtar Donetsk, tiveram de ouvir imitações de macaco vindas da torcida do rival Dínamo de Kiev. Por volta dos 30 minutos do segundo tempo, Taison se cansou de suportar as demonstrações de intolerância racial e resolveu dar uma resposta. Fez o gesto que se vê na foto ao lado e, em seguida, chutou a bola na direção da torcida organizada do Dínamo.

Depois do rompante, o jogador gaúcho foi às lágrimas, sendo amparado pelos atletas das duas equipes e retirado de campo. Insensível, o árbitro Mykola Balakin chamou Taison de volta só para lhe exibir o cartão vermelho. Mesmo após os apelos para que a expulsão fosse anulada, oficializados pela FIFPro — a associação internacional de jogadores profissionais —, a Federação Ucraniana ratificou a suspensão do meia brasileiro, de 31 anos, por uma partida. Não era, no entanto, o gol da vitória dos racistas. Os agredidos conseguiriam ainda empatar: os torcedores do Dínamo foram impedidos de entrar no estádio por um jogo.

Atuando há nove anos naquele longínquo país do Leste Europeu, Taison disse nunca ter passado por uma situação parecida, mas se mostrou disposto a jogar contra o preconceito. No dia seguinte ao ocorrido, postou em uma rede social a foto de seu gesto junto a um trecho da letra de Jesus Chorou, música dos Racionais MCs: “Amo minha raça, luto pela cor / O que quer que eu faça é por nós, por amor”.

Publicado em VEJA de 1º de janeiro de 2020, edição nº 2667

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