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Futebol: a ciranda dos técnicos

Não há profissão mais instável no Brasil que a de treinador — e não parece existir luz no fim desse túnel em que só a vitória é celebrada

Por Alexandre Salvador - Atualizado em 20 dez 2019, 10h16 - Publicado em 20 dez 2019, 06h00

Tão movimentada quanto o mercado de jogadores no período entre uma temporada e outra do futebol brasileiro é a dança das cadeiras dos técnicos. Com uma diferença fundamental: enquanto os atletas costumam trocar de camisa por vontade própria, os comandantes das equipes tendem a mudar de time depois de ser demitidos. Um levantamento divulgado recentemente pela Pluri Consultoria, especializada em estudos sobre o esporte, traz uma realidade incômoda: cada um dos vinte principais clubes do Brasil teve, em média, 18,7 técnicos desde 2009. Tudo somado, nos últimos dez anos, a estabilidade da turma da elite foi de pouco mais de seis meses no emprego. É muito pouco. O tricampeão do mundo Tostão, craque também ao escrever, foi preciso em sua coluna na Folha de S.Paulo: “No Brasil, há uma pressa em exaltar e em desmerecer os jogadores e, principalmente, os treinadores, depois das vitórias e das derrotas”.

Desde 2003, com a última grande mudança no calendário do futebol nacional — a instituição da disputa por pontos corridos —, o profissional com maior tempo de permanência no comando técnico de uma equipe foi Muricy Ramalho, que capitaneou o São Paulo entre 2006 e 2009, por exatos três anos, cinco meses e dezesseis dias. Atualmente, o técnico mais longevo é Renato Gaúcho, que comanda o Grêmio há três anos e deve ficar no cargo para a próxima temporada.

NA VITRINE - Sampaoli, vice-campeão brasileiro: ele não quis ficar no Santos Nayra Halm/Fotoarena

Os homens à margem do gramado que vão bem, ganhando partidas, perduram porque, no Brasil, só a vitória interessa. Chamou atenção, portanto, a decisão tomada por Vanderlei Luxemburgo e Jorge Sampaoli, que abriram mão da estabilidade em busca de uma posição mais interessante em outra agremiação. Luxemburgo deixou o Vasco da Gama depois de sete meses no clube carioca. Valorizado pela torcida e pelos dirigentes, ele exigiu salário muito superior ao que os cartolas vascaínos pensavam oferecer, e pediu o chapéu. A rigor, sabia ter uma janela de oportunidade mais polpuda. Havia uma vaga no Palmeiras, clube com o segundo maior orçamento do país, atrás apenas do Flamengo, e para lá se mudou o veterano “professor”.

Aliás, Luxemburgo só fechou com o time alviverde graças à negociação frustrada entre o clube paulista e Sampaoli. Considerado um dos melhores técnicos em 2019, o argentino chegou ao Brasil no início do ano, contratado pelo Santos. Escolhido pelo presidente José Carlos Peres, o ex-­treinador da seleção argentina não conquistou nenhum título, embora tenha ficado com o vice-campeonato do Brasileirão, mas foi celebrado ao montar uma equipe que joga ofensivamente. Por essa razão, quando Sampaoli anunciou que deixaria o Santos — ele não teria ficado satisfeito com os planos de investimento para 2020 —, o Palmeiras logo se mostrou interessado. A pedida do argentino, porém (estima-se um valor superior a 2 milhões de dólares mensais para ele e sua comissão), foi alta demais.

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Os casos de Luxemburgo e Sampaoli, que pediram para sair, em busca de dinheiro, de paz, seja lá do que for — e não há nessa postura nada de errado —, são exceções que confirmam a regra do vaivém. A pressão é permanente, ao contrário do que ocorre, por exemplo, na Europa — o francês Arsène Wegner dirigiu o Arsenal de 1996 a 2018, em 1 235 jogos (venceu 707 e perdeu 248). Não ganhou nenhuma Liga dos Campeões, e ainda assim aguentou firme. No Brasil, é tudo mais rápido e autocrático: perdeu duas, três, quatro vezes, adeus. E a situação pode piorar nos próximos anos com o efeito “Jesus”. Contratado em junho pelo Flamengo, em apenas seis meses o português Jorge Jesus conquistou o Brasileirão e a Libertadores e levou o rubro-negro à final do Mundial de Clubes, contra o Liverpool. Comparativamente, portanto, será difícil para os pares do lusitano. “A pressão aumentou”, disse a VEJA o recordista Muricy Ramalho, atualmente comentarista do SporTV. “Muitos paradigmas foram quebrados neste ano, principalmente em relação à forma de jogar, para a frente, no ataque.” Jesus mostrou, também, que dá para repetir escalações, mesmo com torneios simultâneos. Quem não fizer isso, eis o problema, correrá o risco de entrar na açodada ciranda do troca-troca.

Publicado em VEJA de 25 de dezembro de 2019, edição nº 2666

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