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Fui o Pelé do futsal

Falcão, 41 anos, o maior jogador de futebol de salão de todos os tempos, despede-se das quadras

Aconteceu mais de uma vez nas premiações da Fifa para as quais fui convidado — o que por si só já seria um feito e tanto para um atleta de futsal. Em uma delas, vi de longe o português Cristiano Ronaldo jantando e comecei a cercá-lo. Queria pedir uma foto, mas estava com vergonha. Foi aí então que ele me viu, me reconheceu e veio puxar papo. Anos depois, vivi a mesmíssima situação com Diego Maradona. O argentino, meu grande ídolo na infância, foi além: beijou minha mão e me agradeceu. “Você fez muita gente feliz”, ele disse. Confesso que esse reconhecimento ainda me surpreende e me deixa orgulhoso. Até o colombiano James Rodríguez, do Bayern de Munique, veio pedir o meu WhatsApp. Jamais poderia imaginar que eu, um moleque abusado do Parque Edu Chaves, bairro da Zona Norte de São Paulo, chegaria tão longe. Para muitos, fui o Pelé do futsal. Já escutei isso do próprio rei do futebol. É uma comparação muito forte, que, obviamente, me envaidece.

Tive uma infância típica de um paulistano da periferia. Empinava pipa, jogava taco e, claro, chutava bola todo dia. Meu nome é Alessandro Rosa Vieira, mas desde cedo me chamam de Falcão. Na verdade, era o Falcãozinho. O apelido original quem ganhou foi meu pai, por sua semelhança, física e técnica, com Paulo Roberto Falcão, craque do Internacional e da seleção brasileira. Meu pai foi meu grande incentivador. Ele logo viu que eu era diferente dos outros e me cobrou para que eu fosse um jogador completo. Preocupava-se não apenas com meus chapéus e lambretas, mas também em saber como eu me portava, como eu respondia a uma entrevista e como era minha interação com a turma das arquibancadas. Acho que esse sempre foi meu diferencial. Todos os dias, escuto nas ruas gente que se interessou pelo futsal por minha causa. As pessoas me dizem que meus dribles deixam o jogo mais alegre. Hoje, sou um jogador de futsal com o reconhecimento, inclusive financeiro, de um craque do futebol de campo.

No entanto, eu sempre flertei com o gramado. Quando jogava nas categorias de base do Corinthians, tive seis passagens pelos times de campo. A diretoria sempre fazia um planejamento especial para mim, mas eu acabava largando. Jogava bem, nunca tive dificuldade com as chuteiras de trava, mas feliz mesmo eu era na quadra. Em 2005, já me chamavam de “rei do futsal” quando decidi me aventurar no São Paulo. A passagem pelo futebol foi bacana, conquistei os títulos do Paulista e da Libertadores e a torcida gritava meu nome. O técnico Emerson Leão não me deu as oportunidades que eu merecia ter, mas acho que acertei em retornar à quadra. O mundo me conhece por causa do futsal, e como jogador de campo talvez eu tivesse sido só mais um. Não me arrependo de nada. Nem de ter ido, muito menos de ter voltado.

Outra decisão certeira foi só ter atuado em clubes do Brasil. Nisso o futsal também difere do futebol de campo. Se tivesse me transferido para o Barcelona, que investe milhões no time de salão, eu não poderia estar sempre com a seleção. Os calendários não seriam compatíveis. Ou seja: se tivesse ido, não conseguiria me firmar como um ídolo nacional.

Em 28 de outubro, usei a camisa verde e amarela com o número 12 nas costas pela última vez numa partida oficial. Aos 41 anos, decidi finalmente pendurar as chuteiras. Em mais de duas décadas de carreira, escrevi uma história vitoriosa, comentada no mundo inteiro. Quem tem 40 anos viu toda a minha trajetória. Quem tem apenas 10 pode ver e rever meus lances no YouTube, os gols que marquei em finais e as homenagens que recebi até de meus adversários. Meu legado para as próximas gerações é de alguém que amou demais a bola. Tanto que seguirei como gestor do meu clube, o Sorocaba, e estarei sempre à disposição para ajudar a seleção, além de tocar outros negócios pessoais.

Depoimento dado a Luiz Felipe Castro

Publicado em VEJA de 12 de dezembro de 2018, edição nº 2612