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Football Leaks: o hacker por trás do vazamento de milhões de documentos

"Snowden" da bola, o português revelou negociatas e falcatruas dentro e fora dos gramados

Por Luiz Felipe Castro Atualizado em 21 fev 2020, 10h12 - Publicado em 21 fev 2020, 06h00

Na semana passada, uma notícia explodiu como uma bomba dentro do vestiário do Manchester City, campeão da Premier League, o torneio inglês de futebol, a mais rica e concorrida disputa nacional de clubes do mundo. Pelas próximas duas temporadas, ou seja, até julho de 2022, a equipe comandada pelo técnico espanhol Pep Guardiola está banida de todas as competições europeias. Além de cumprir a punição esportiva, o City terá de pagar uma multa de 30 milhões de euros à Uefa, a entidade que rege o esporte no continente.

De acordo com a acusação, o time azul e branco de Manchester violou as regras da federação ao não respeitar o que se convencionou chamar de “fair play financeiro”, um código de conduta criado em 2010 para conter muito desequilíbrio entre os mais poderosos e os mais fracos, e também para evitar, com acompanhamento minucioso, a falência de equipes de futebol. Em linhas gerais, segundo a norma, nenhuma agremiação pode gastar mais do que arrecada. No entanto, os grandes e bilionários mecenas burlam as regras, desenfreadamente, ao aplicar caminhões de dinheiro nos clubes, escondidos por meio de truques contábeis, quando não por esquemas de fraude do imposto.

É JUSTO? - O City ergue a taça: vitórias turbinadas por fundos quase ilimitados Richard Heathcote/Getty Images

Tudo corria mais ou menos bem, de modo hipócrita, até que Rui Pinto, um jovem português de apenas 31 anos, estudante de história da Universidade do Porto, amante de futebol e de computadores, surgiu em cena na pele de um hacker — no estilo de outros renomados personagens de sua estirpe, como Edward Snowden e Julian Assange, as figuras por trás dos grandes vazamentos de nosso tempo. Rui pôs as mãos em mais de 70 milhões de trocas de mensagens e documentos que, segundo ele próprio, expõem “tudo o que serve para enriquecer certos parasitas que se aproveitam do futebol”.

Investigações jornalísticas feitas a partir desse material já expuseram inúmeras negociatas e falcatruas que implicam os times e grandes nomes do esporte, como Cristiano Ronaldo e Lionel Messi (veja o quadro abaixo). Como sempre ocorre em denúncias que brotam da invasão digital, as punições — como agora, no caso do Manchester City — andam de mãos dadas com muita celeuma. As opiniões se dividem entre os que consideram a postura um crime e os que veem nela um mal menor para resolver um problema maior.

Rui Pinto está preso em Lisboa desde 22 de março do ano passado. Ele é acusado de pelo menos noventa crimes, como acesso ilegítimo a informações sigilosas, violação de correspondência, sabotagem informática e tentativa de extorsão — antes de revelar seus achados gratuitamente à imprensa, o português teria tentado arrancar dinheiro de partes envolvidas no escândalo. Ele nega as acusações. “Não me considero um hacker, mas um cidadão que agiu em nome do interesse público”, disse, em entrevista à revista alemã Der Spiegel. “A minha única intenção era revelar práticas ilícitas que afetam o mundo do futebol.” A briga é grande, porque a cartolagem anda atavicamente nos andares superiores da política. Um dos advogados do português é o francês William Bourdon, que também defendeu Snowden e Assange. “Acreditamos na pureza de sua motivação. Ele não tem interesse por dinheiro”, afirma Bourdon. É difícil dizer que Rui Pinto é um homem puro, defensor das boas práticas. Mas é certo, contudo, que depois dele o bilionário futebol europeu não será mais o mesmo.

Publicado em VEJA de 26 de fevereiro de 2020, edição nº 2675

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