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Fifa nega fim do evento, mas sofre pressão e cobra governo

<p>Medo da violência decorrente dos protestos no país motiva pedidos de cancelamento do ensaio geral para 2014. Por enquanto, torneio continua, mas sob ameaça</p>

Por Giancarlo Lepiani, de Salvador Atualizado em 11 jan 2022, 21h25 - Publicado em 21 jun 2013, 13h08

A Fifa sabe das consequências desastrosas, para ela e para o Brasil, de um eventual cancelamento da Copa das Confederações ainda na primeira fase, sem que o torneio tenha um campeão. Por isso, a cúpula da entidade ainda não trata seriamente da ideia – defendida cada vez mais pelos envolvidos no evento, mas desmentida em comunicado de sua direção de comunicação na manhã desta sexta-feira, um dia depois das manifestações que levaram cerca de 1 milhão de pessoas às ruas e véspera da partida mais aguardada da fase de grupos, entre Brasil e Itália, na Arena Fonte Nova, em Salvador, neste sábado. A capital baiana, aliás, foi palco de uma das cenas que mais preocuparam a entidade: veículos com identificação da Fifa, que servem para transportar funcionários e dirigentes, foram apedrejados na quinta. Temerosos, os funcionários de menor escalão são alguns dos que estariam defendendo a interrupção súbita da competição. Mais preocupantes são os sinais de que delegações participantes do torneio (ou pelo menos alguns integrantes dessas equipes) estariam dispostos a abandonar a disputa e voltar para casa. Atletas que trouxeram parentes e amigos ao país estão alarmados com os numerosos casos de violência ligados aos protestos nas ruas. O fato de a Copa ser um dos alvos dos manifestantes, que criticam os gastos excessivos dos governos estaduais e federal com o evento, aumenta ainda mais a pressão sobre a Fifa.

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Quase todas as partidas já realizadas foram impactadas, de uma forma ou de outra, pelos protestos desta semana. Desde a abertura, em Brasília, até os dois jogos disputados na quarta, no Rio de Janeiro e em Salvador, os manifestantes se aproximaram das arenas do torneio em diversas ocasiões, inclusive nos dois jogos da seleção brasileira. Na quarta, em Fortaleza, a presença da equipe na Arena Castelão foi usada pelos manifestantes para atrair ainda mais atenção para suas reivindicações. Um grupo violento chegou a furar o bloqueio policial que protegia o estádio, motivando um confronto a poucos quilômetros do local do jogo, a menos de duas horas do duelo entre a seleção brasileira e o México. Os integrantes da delegação mexicana seriam alguns dos insatisfeitos com a presença no país. Outros seriam os italianos, justamente os adversários do Brasil no jogo de sábado, na Bahia. A partida deverá ser um episódio decisivo para a organização da Copa das Confederações. Estarão em campo as duas maiores vencedoras da história dos Mundiais, num duelo que será transmitido para todo o planeta, numa das cidades onde as manifestações foram mais turbulentas. Em caso de distúrbios graves no entorno da Fonte Nova, os pedidos de cancelamento do torneio deverão se multiplicar – e a insatisfação dos visitantes, até agora restrita aos bastidores, deverá ficar mais explícita. Apesar da tensão, o Comitê Organizador Local (COL) e a Fifa evitam dar qualquer sinal público de descontentamento ou apreensão com a segurança da competição.

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Nos comunicados e briefings diários com a imprensa, seus representantes nunca desviam do roteiro: defendem o direito democrático à manifestação pacífica, garantem confiar na capacidade das autoridades brasileiras e descartam fazer mudanças na organização das partidas em decorrência dos protestos. Ainda assim, a Fifa já fez chegar ao Palácio do Planalto o recado sobre a necessidade de reforçar a proteção ao evento e aos seus envolvidos, desde os auxiliares que fazem o torneio funcionar até os jornalistas, convidados, patrocinadores e, claro, as sete seleções estrangeiras que participam do torneio. Quatro delas se despedem do país já no fim de semana, com o encerramento da fase de grupos. Os jogos da semana que vem, no entanto, serão os de maior importância e repercussão: as semifinais, em Fortaleza e Belo Horizonte; a disputa pelo terceiro lugar, em Salvador; e a grande final, no Rio de Janeiro, no início da noite de domingo. Todas essas sedes tiveram protestos de grande porte – e em todas elas houve cenas de vandalismo em meio às manifestações. O presidente da Fifa, Joseph Blatter, não está no Brasil: na quinta, viajou rumo à Turquia, onde acontece o Mundial Sub-20. Seu retorno está previsto para o dia 26, em Belo Horizonte, que sediará, além de uma das semis, um seminário com palestra inaugural do cartola. Ele permaneceria no país até a final, no Maracanã, para entregar a taça aos campeões. Na estreia da competição, no último sábado, Blatter foi vaiado pelos torcedores enquanto discursava e apresentava a presidente Dilma Rousseff. Diante da evidente irritação da mandatária brasileira, o suíço cobrou do público respeito a Dilma e acabou provocando uma vaia ainda mais retumbante.

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Nas entrevistas e pronunciamentos no país, Blatter sempre se disse tranquilo com a situação, assegurando que não via riscos ao torneio e reclamando do uso do evento pelos manifestantes para atrair mais atenção às suas reivindicações. Também fez uma previsão desastrada, apostando na redução da escala dos protestos nos dias seguintes à abertura. Joseph Blatter e seus auxiliares só tomariam a decisão drástica de encerrar o torneio mais cedo caso a situação fugisse de vez ao controle do poder público ou se ocorressem atos de hostilidade ainda mais graves e contundentes contra qualquer envolvido na competição. Cancelar a Copa das Confederações por causa da violência confirmaria os piores temores dos críticos da realização do torneio no país – e, pior ainda, praticamente inviabilizaria a manutenção do Mundial no Brasil faltando menos de um ano para o jogo de abertura, em 12 de junho de 2014, em São Paulo (onde, aliás, começou a onda de manifestações). Blatter – que sempre ressalta que “foi o Brasil que pediu para receber a Copa, e não a Fifa que pediu ao Brasil para sediá-la” – teria mecanismos judiciais para recuperar os eventuais prejuízos decorrentes de uma mudança de país-sede. O compromisso firmado pelo Brasil ao se candidatar a palco da Copa de 2014 prevê o pagamento de multas multimilionárias à Fifa em caso de danos à imagem do torneio, constrangimento aos patrocinadores ou o próprio cancelamento do evento por motivos que escapem ao controle da entidade. Nesse cenário absolutamente desastroso, é difícil imaginar que a entidade, que já não conta com a simpatia de boa parte da população, ainda mandasse a conta ao país mais emblemático para o futebol internacional pelo fracasso de sua competição mais importante e rentável (a enorme maioria das receitas da Fifa é proveniente da organização do Mundial).

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