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Feito do Tucumán foi épico, mas expôs a ‘várzea’ da Libertadores

Jogar com uniforme emprestado foi folclórico. Grave foram os problemas de logística, a interferência do governo, os riscos e o desrespeito ao regulamento

Por Luiz Felipe Castro Atualizado em 8 fev 2017, 13h39 - Publicado em 8 fev 2017, 11h39

O centenário clube argentino Atlético Tucumán ganhou as manchetes em todo o mundo nesta quarta-feira graças a uma façanha histórica: chegou ao local do jogo com mais de uma hora de atraso, sem poder aquecer, com uniformes e chuteiras emprestadas e mesmo assim venceu a altitude de 2.850 metros de Quito e o El Nacional por 1 a 0 para garantir uma épica classificação na Copa Libertadores. A história é espetacular, destas que merecem ser contados em filmes, e será celebrada na cidade de Tucumán para sempre. Mas também carrega uma série de absurdos que só reforçam o caráter “varzeano” que sempre acompanhou a Libertadores.

Um fato visual chamou bastante atenção: sem tempo de retirar suas malas no aeroporto, o Atlético Tucumán pegou emprestados os trajes da seleção argentina sub-20, que disputa o sul-americano no Equador. O Tucumán, fundado em 1902, joga com as mesmas cores da seleção nacional, o que diminuiu o constrangimento. Quem não deve ter gostado nada são os patrocinadores do clube, que não tiveram suas marcas estampadas no grande momento da história do “Decano”. Isso tudo é bobagem na Libertadores (na Liga dos Campeões seria um enorme problema) e entra para o folclore do futebol até de maneira positiva — o fato de uma equipe usar uniformes emprestados de outras seleções ou clubes não é novidade e já ocorreu até em Copas do Mundo.

Mas há uma série de fatos lamentáveis registrados na “batalha de Quito”. Duas delas têm fundamento jurídico e se referem à tolerância da Conmebol em relação ao atraso e às normas de logística. Como mostrou o jornalista argentino Alejandro Etchevery, da ESPN, em seu Twitter, pelo regulamento, as equipes devem chegar ao local da partida com um dia de antecedência e, se demorar mais de 45 minutos para entrar em campo, deve ser declarada perdedora por W.O. (walkover, quando uma equipe se recusa ou é impedida de entrar em campo). O Tucumán chegou no dia do jogo e demorou mais de uma hora para chegar ao Estádio Olímpico de Atahualpa, mas contou com uma série de ajudas para não ser desclassificado. As principais foram do árbitro e da própria equipe do El Nacional (que pode até ter sido bastante digna, mas agora não poderá reclamar da desclassificação), que permitiram o atraso.

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Mas não foi só isso: o embaixador argentino no Equador, Luis Juez, contou que os governos dos países intercederam para que houvesse jogo. “Que não nos encham o saco com o regulamento”, afirmou o embaixador à Fox Sports argentina, de dentro do ônibus da equipe. Numa semana em que um novo escândalo envolvendo a influência do Boca Juniors na Libertadores explodiu, tamanha “flexibilidade” em favor de um clube argentino levanta, no mínimo, uma série de reflexões. O embaixador, porém, acabou revelando outra informação preocupante: “Estamos viajando a 130 km/h para chegar a tempo“, relatou, de dentro do ônibus. Mais tarde, contou ao Canal Trece que o veículo “parecia um meteoro”. Felizmente, nada de grave ocorreu, mas não parece nada prudente que uma equipe viaje por um trajeto de 38 quilômetros a esta velocidade, ainda que escoltado por policiais, pelas estradas equatorianas.

Outra questão grave diz respeito à logística montada pelo Atlético Tucumán. Menos de dois meses depois da tragédia ocorrida com a Chapecoense e a companhia aérea LaMia, o time fretou um voo da companhia chilena Mineral Airways, controlada pelo grupo DAP, que foi proibida de voar de Guayaquil a Quito por não possuir a documentação necessária. O embaixador argentino garantiu que a “culpa é da empresa chilena e não do clube argentino”, que, portanto, não deveria ser punido. Mas além de contratar uma empresa pouco confiável (ou, ao menos, pouco organizada, já que não tinha os papéis necessários), o Tucumán deixou tudo para última hora, de forma amadora – ainda que muitas equipes optem por encarar a altitude apenas no dia do jogo. Por sorte, conseguiu pegar um voo de carreira da Latam e chegar a Quito minutos antes de a bola rolar.

Cultura x Bagunça – A façanha do Tucumán levanta uma série de discussões sobre as particularidades da Copa Libertadores e muitos defenderam o caráter “varzeano” da competição, com seus estádios mal cuidados, cachorros invadindo o campo, foguetório na concentração do adversário e, sobretudo, festa inigualável nas arquibancadas. Estes atributos, de fato, fazem parte da cultura do futebol sul-americano e, muitas vezes, dão charme à competição. No entanto, a segurança e bem-estar dos atletas e torcedores têm de ser sempre prioridade. Não há beleza alguma em ver torcedores atirando pedras ou outros objetos no gramado, com atletas tendo de ser protegidos por escudos dos policiais. Invasões de campo e as constantes agressões entre atletas também prejudicam a imagem do torneio e devem ser punidas exemplarmente pela Conmebol.

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Neste ano, a federação sul-americana, agora presidida pelo paraguaio Alejandro Dominguez, promoveu mudanças no formato do torneio, que será jogado ao longo de todo o ano. E até cogitou final em jogo único e campo neutro, baseado no sucesso da Liga dos Campeões da Europa. Eis um grande equívoco da Conmebol: não se deve copiar a “gourmetização” do futebol europeu, criar um “hino da Libertadores”, um novo logotipo, etc. O que, de fato, importa, são estádios seguros e em bom estado, a garantia da segurança, o cumprimento das normas, o fim da corrupção nas federações e das arbitragens escandalosas – que, diversas vezes, prejudicaram as equipes brasileiras, passando pelo Santos de Pelé (que venceu duas vezes e depois abriu mão de disputar o bagunçado torneio) e pelo episódio Carlos Amarilla de Corinthians x Boca Juniors, em 2013, entre tantos outros exemplos. A festa do Atlético Tucumán na madrugada desta quarta-feira foi maravilhosa, mas poderia ter terminado em tragédia.

Torcedores do Boca Juniors
Exemplo prático: La Bombonera é um espetáculo inigualável. Atirar gás de pimenta no rival é péssimo Vanderlei Almeida/AFP/VEJA
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