Clique e Assine por apenas R$ 0,50/dia

Fajutos, mas com grife: o fenômeno das lutas de mentirinha com famosos

Embates entre boxeadores e celebridades enchem os bolsos dos participantes e lembram o Telecatch, que fez fama nos anos 60 e 70

Por Luiz Felipe Castro Atualizado em 18 jun 2021, 10h17 - Publicado em 18 jun 2021, 06h00

O pugilismo é uma atividade milenar, conhecida desde a Grécia Antiga e que, ao longo de séculos, foi reprimida em razão da brutalidade dos combates. No século XVII, a troca de socos voltou a se popularizar na Inglaterra, mas só foi considerada um esporte de verdade quando foram publicadas as regras do marquês de Queens­berry, em 1867. O uso de luvas, a divisão de pesos e a limitação de rounds, além do surgimento de ídolos carismáticos, deram ao boxe a aura de dignidade que lhe faltava. A “nobre arte” é sua alcunha mais famosa. Recentes episódios na modalidade, porém, enfurecerem os puristas e levantaram dúvidas sobre sua nobreza.

No último dia 6, o americano Floyd Mayweather, 44 anos, o mais célebre boxeador de sua geração, conhecido como Money, dada a sua habilidade para fazer dinheiro, abandonou mais uma vez a aposentadoria para um embate com o compatriota Logan Paul. Dezoito anos mais jovem e quase 20 quilos mais pesado, Paul era o azarão pelo simples fato de não ser um pugilista de verdade, mas um famosíssimo youtuber, com mais de 23 milhões de inscritos em seu canal. Na véspera, Mayweather admitiu se tratar de um “evento”. “Um assalto a banco legalizado”, debochou. O pay-­per-­view do encontro custou 260 reais e estima-se que Mayweather tenha embolsado o equivalente a mais de 500 milhões de reais, mesmo sem ter derrotado o autor de pegadinhas de gosto duvidoso.

Os abraços em série, além de raros e mal encaixados socos durante oito rounds, receberam vaias do público em Miami, até que a exibição terminasse sem vencedor. As comparações com o Telecatch, atração de luta livre coreografada, uma espécie de UFC de mentirinha que fez sucesso no Brasil nas décadas de 60 e 70 (e que até hoje tem público nos EUA e no México), foram inevitáveis. “Mayweather é especialista em marketing, um espertalhão, e ao fazer isso só ele ganha, enquanto o boxe perde”, disse a VEJA Servílio de Oliveira, 73 anos, medalha de bronze nos Jogos do México, em 1968. Os apoiadores, por sua vez, acreditam que o movimento ajude a atrair um público mais jovem, afeito a Instagram, TikTok, Twitch e outras formas de diversão, e que poderia representar não a morte, mas o renascimento, mais um, da nobre arte.

BIZARRICE - Tóquio, 1976: Ali enfrenta o japonês Inoki na “criação” do MMA -
BIZARRICE - Tóquio, 1976: Ali enfrenta o japonês Inoki na “criação” do MMA – Sankei Archive/Getty Images

A tênue linha entre o que deixa de ser esporte e o que se torna mero entretenimento não é nova. Em 1976, Muham­mad Ali, aclamado como o maior boxeador da história, protagonizou um espetáculo dantesco em Tóquio ao enfrentar Antonio Inoki, um wrestler japonês que chegou a trabalhar em lavouras do Brasil na adolescência. Sem luvas, Inoki passou a maior parte do evento de exibição no chão, no que pode ser considerada a primeira luta de MMA (artes marciais mistas) da história — além de um show bizarro.

Meio século depois, as cifras se multiplicaram e atraem velhos ídolos, como Mike Tyson, artistas e até jogadores da NBA. A moda já chegou por aqui. Acelino Popó Freitas, 45 anos, tetracampeão mundial em duas categorias, planeja para setembro, possivelmente em Miami, uma luta contra o comediante Whindersson Nunes. Popó garante: não vai ter marmelada. “Mayweather não soube fazer um combate atrativo. Eu e o Whindersson vamos lutar de verdade”, diz o ídolo baiano. “Ele mesmo me pediu: pode me arrebentar, só não me apaga. Eu sou um campeão mundial e tenho obrigação de proporcionar um espetáculo bonito.” O espetáculo está garantido. Já a veracidade dos golpes…

Publicado em VEJA de 23 de junho de 2021, edição nº 2743

Continua após a publicidade
Publicidade