Executivo da Fatal Fans conta bastidores da negociação do patrocínio do Corinthians
Samuel Ongaratto revela por que o clube recusou a proposta em 2022 e o que mudou para viabilizar o maior acordo publicitário do futebol brasileiro
Pressionado por uma dívida que oscila entre 2,4 bilhões e 2,7 bilhões de reais, o Corinthians assinou o maior patrocínio já registrado no futebol brasileiro. O acordo, no valor de 22 milhões de reais, tem como parceira a Fatal Fans, plataforma de assinatura de conteúdo adulto. A parceria trouxe fôlego financeiro imediato ao clube, mas também o lançou no centro de uma polêmica nacional envolvendo ética publicitária, proteção infantil e responsabilidade social no esporte.
O contrato tem vigência até o final de 2027, com opção de prorrogação até 2028, podendo somar mais de 31 milhões de reais ao todo. Pelo acordo, a marca aparecerá no calção do time principal de futebol, nas costas dos uniformes do basquete e na barra da camisa do futsal.
A relação entre clube e empresa não começou agora. Samuel Ongaratto, diretor de negócios da Atlas Technologies — que controla tanto a Fatal Fans quanto o site de acompanhantes Fatal Model —, conta que uma primeira tentativa de parceria esbarrou em resistência interna há alguns anos. “Foi a primeira equipe que buscamos em 2022, mas a gestão da época negou prontamente, deixando claro que a parceria era impensável”, relembra.
O que mudou, segundo ele, foi justamente o lançamento da Fatal Fans, marca com apelo público menos controverso que o modelo original de anúncios. “Percebemos que a marca Fatal Fans teria uma recepção mais amigável perante a sociedade, servindo como um caminho mais seguro para a negociação”, explica o executivo.
Para o Corinthians, o acordo funcionou como uma injeção emergencial de caixa. A patrocinadora concordou em pagar cerca de quatro vezes o valor médio de mercado pelo espaço publicitário, com uma cláusula que obriga o repasse de mais de 60% do valor logo nos primeiros meses. Esse dinheiro adiantado permitiu ao clube quitar uma multa aplicada pela Fifa e encerrar um bloqueio para contratação de jogadores. “Estruturamos um aporte de 14 milhões de reais nos primeiros 120 dias para atender às necessidades mais urgentes do clube, o que garantiu, por exemplo, a manutenção de modalidades ameaçadas, como o futsal e o basquete”, detalha Ongaratto.
Apesar do respiro financeiro, a repercussão fora dos gramados foi dura. Uma petição contrária ao patrocínio reuniu mais de 63 mil assinaturas e levou o caso ao Ministério Público, sob a alegação de que a exposição da marca despertaria em crianças e adolescentes curiosidade precoce sobre conteúdo pornográfico. Na Câmara e nas assembleias, deputadas como Sâmia Bomfim e Marina Helou protocolaram projetos de lei para proibir esse tipo de publicidade em espaços esportivos e áreas públicas.
Um detalhe da negociação chamou atenção de analistas: o time feminino de futebol ficou de fora da exposição da marca adulta. No calção das jogadoras, o espaço foi ocupado pela campanha “Respeita As Minas”. Para especialistas em governança corporativa, a escolha funcionou como uma forma de proteger a imagem do clube diante das críticas. Ongaratto, porém, defende que a decisão teve outra motivação: “O setor de projetos sociais do clube condicionou a aprovação da parceria ao repasse de recursos para suas iniciativas. Percebemos que o projeto ‘Respeita As Minas’ refletia valores que nos unem, pois o respeito está intrinsecamente ligado à nossa própria luta contra o preconceito. Afinal, qualquer pessoa que exerça uma profissão legal e digna merece ser respeitada”.
No fim das contas, o episódio evidencia um retrato mais amplo do futebol brasileiro. Com o afastamento de patrocinadores tradicionais e o endividamento crescente dos clubes, setores estigmatizados e pouco regulamentados encontram nas camisas e calções uma vitrine de visibilidade. O caso Corinthians–Fatal Fans, nesse sentido, não é apenas sobre um contrato publicitário, mas um teste sobre até onde a necessidade financeira pode ir sem comprometer os valores que sustentam a relação entre um clube e sua torcida.







