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Everaldo Marques, o narrador ‘ridículo’ que brilhou na Olimpíada

Com bordões divertidos e incrível versatilidade, locutor foi uma voz de destaque no processo de rejuvenescimento do esporte da Rede Globo

Por Luiz Felipe Castro Atualizado em 6 ago 2021, 15h43 - Publicado em 6 ago 2021, 08h30

“Ítalo Ferreira, você é ridículo!”, exclamou Everaldo Marques, utilizando o mais conhecido de seus bordões um rasgado elogio, convém sempre avisar—, no momento mais marcante de sua carreira, a primeira transmissão de uma medalha de ouro em TV aberta. O narrador paulista de 43 anos nunca sonhou em ser atleta, mas foi um dos destaques da Olimpíada de Tóquio como a voz que ajudou a modernizar as transmissões da Rede Globo. 

Everaldo foi contratado pela emissora carioca no início de 2020 após quase 15 anos na ESPN, onde ganhou notoriedade ao transmitir partidas de NBA e NFL, as principais ligas de basquete e futebol americano dos EUA, sempre mesclando irreverência a um notável preparo. Na Olimpíada, ele conseguiu colocar em prática aquela que considera sua maior qualidade: a versatilidade. Desde o início no rádio, já narrou 64 modalidades. “Não fui escalado para nenhuma das que faltavam, como golfe, caratê ou BMX freestyle, mas se tivesse acontecido, eu estaria preparado, pois estudei muito”, contou a VEJA.

O locutor garante jamais ter sido “podado” pela direção da Globo. Ao contrário: foi contratado justamente por apreço ao seu estilo e se destacou no processo de modernização nas transmissões dos canais Globo, que incluiu a presença de outros jovens narradores como Sérgio Arenillas, de 25 anos, Natalia Lara, 27, e Renata Silveira, 31, e de comentaristas como Karen Jonz, do skate. Até mesmo os profissionais da velha guarda da casa, como Galvão Bueno, Luís Roberto de Múcio e Cleber Machado, claramente adotaram tom mais ousado, com direito a piadas, cantorias e muita interação com os telespectadores nas mais diversas plataformas.

  • Esta reinvenção aos 71 anos, aliás, marcou uma espécie de consagração do sempre controverso Galvão Bueno, exaltado nas redes sociais pelas mais variadas gerações. “É um privilégio trabalhar com ele, que sempre me acolheu muito bem”, contou Everaldo. Eis a nova cara das transmissões esportivas, informativas como sempre, mas menos sisudas. Na entrevista abaixo, Everaldo Marques falou sobre sua primeira experiência em TV aberta, detalhou seu estilo e contou a origem de seu mais famoso bordão:

    Teve de adaptar seu estilo de narração ao chamado ‘padrão Globo’? De jeito nenhum. No início muita gente dizia que eu seria ‘podado’ na Globo, mas fui contratado justamente porque gostavam do meu estilo. Narro como sempre fiz, preocupado em trazer o máximo de informação e divertir as pessoas na medida do possível. A Olimpíada é um grande desafio, pois temos a missão de cativar tanto o fanático quanto quem não entende nada da modalidade.

    Ao longo dos Jogos, as transmissões pareciam menos quadradas, com certa tolerância até mesmo para eventuais gafes como palavrões vazados. O padrão Globo está mais leve? Tem coisas que não temos como evitar, que fogem do controle do narrador. O que nos resta é ter um certo jogo de cintura para contornar estas situações e saber brincar com isso.

    Quantas modalidades já narrou? Atualmente, 64. Não fui escalado para as que faltavam, como golfe, caratê e BMX freestyle. Mas se tivesse acontecido, eu estaria preparado, pois estudei muito durante os três meses que antecederam a Olimpíada. Para os esportes em que não me sentia confortável, fui buscar auxílio de atletas, federações. É complexo, há muitas regras, termos técnicos, deixei tudo à mão. Os esportes mais curiosos que já narrei foram aqueles que a gente costuma jogar com os amigos, como sinuca, boliche e pôquer. O mais recente da lista de exóticos foi o padel.

    Qual modalidade te dá mais prazer de narrar? Não consigo responder a esta pergunta. São fases, é como quando a gente lê um bom livro ou assiste um bom filme, a gente acaba se apaixonando. Ter narrado a Fórmula 1 foi um sonho de infância que realizei, um período de lua de mel, mas gosto mesmo é de narrar, seja o que for. Meu sonho sempre foi ser narrador, nunca quis ser jogador.

    Qual foi a narração mais especial na Olimpíada? Sem dúvidas, a medalha de ouro do Ítalo Ferreira no surfe, minha primeira em TV aberta. Apesar de ter sido em um horário não muito favorável, deu tudo certo, a repercussão foi ótima.

    Até o Kelly Slater, lenda do surfe, te elogiou… Sim, foi uma grande surpresa. Ele comentou em um vídeo dos bastidores postado pelo Flávio Canto, ex-judoca e nosso comentarista, a quem ele segue. Não tenho nem roupa para isso.

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    A Globo, aliás, vem fazendo uso do recurso de ‘react’,a filmagem dos bastidores das transmissões, uma tendência já vista em redes sociais como o YouTube. Isso pode tirar a naturalidade do narrador? A mim não afeta em nada, não me preocupo. Eu sempre tive muito cuidado, a partir do momento em que estou microfonado eu evito palavrões ou qualquer coisa do tipo, porque sempre existe o risco de vazar o áudio. As câmeras de bastidores sempre estiveram ali, ainda que as imagens não fossem divulgadas. E não deixei de fazer nada que eu faria antes, não mudou nada, pelo menos para mim.

    Atrair a atenção dos jovens é um desafio que o próprio Comitê Olímpico Internacional identificou, o que o levou a incluir skate e surfe no programa olímpico. Como manter o interesse no ramo das transmissões? Nossa profissão vai se transformando, mas seguimos nos comunicando, por plataformas e jeitos diferentes, mas sempre escrevendo e falando. A rede social e a segunda tela estão cada vez mais presentes, as informações circulam de maneira mais rápida, mas no fim das contas a gente segue se comunicando, é apenas  uma questão de se adaptar.

    O narrador deve torcer pelo Brasil? A ESPN tinha uma postura mais neutra e algumas pessoas até reclamavam que a gente gritava o gol contra o Brasil com a mesma intensidade. Eu não vejo problema nenhum em colocar uma mostardinha a mais, criar uma expectativa de medalha para o Brasil, vender a emoção, como diz o Galvão Bueno. O Marco Antônio, narrador da Band, tem uma boa definição: podemos torcer, mas não distorcer. Eu narro o que estou vendo. Sou um comunicador, mas, acima de tudo, um jornalista, e é possível colocar uma pilha a favor dos brasileiros sem desvalorizar os adversários.

    De onde surgiu o bordão “Você é ridículo”? Sempre acompanhei os esportes americanos e nos EUA eles usam bastante o termo “ridiculous” de maneira positiva, da mesma forma que usamos “monstro” como um elogio. Resolvi usar pela primeira vez na NBA, em um lance do Stephen Curry, nas finais de 2015, e aí pegou.

    Mas houve certa confusão no início. Houve em um Super Bowl em chamei a Lady Gaga de ridícula e os fãs dela, os “little monsters”, ficaram revoltados. Agora com a Rayssa Leal, do skate, houve um pequeno ruído, mas diria que na proporção de 95 de apoio e 5 de críticas. Não podemos nos guiar tanto pelo recorte da rede social, não é um reflexo da realidade. De qualquer forma, eventuais críticas não me afetam de jeito nenhum. Eu não fico gastando bordão, mas se alguém fizer por merecer ser chamado de ridículo, assim será.

    Você estreou algum bordão olímpico? Não. Só adaptei o uso do “bingo!”, normalmente para cestas de três no basquete, para manobras no skate e no surfe. Eu não fico pensando em criar bordão, eles surgem, vêm e vão, muitas vezes uso termos que estão fazendo sucesso na internet. O bordão é a cereja do bolo. Se o bolo for ruim, não é a cereja que vai salvar.

     

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