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“Eu sou ‘brasileño'”

Yoandy Leal, 30 anos, nascido em Cuba, é o primeiro estrangeiro a defender a seleção brasileira de vôlei

 (Tomasz Jastrzebowski/FotoOlimpik/Folhapress)

Não sei falar bem o português. Estou tentando aprender. Mas a verdade é que não acho que saber falar o idioma perfeitamente é determinante para que a pessoa seja ou não brasileira. Para aqueles que pensam o contrário, só posso dizer que me sinto feliz por ter a nacionalidade brasileira e, seguramente, sou mais brasileiro do que eles. Eu sou brasileño. Sinto-me assim porque iniciei minha carreira profissional no país aos 22 anos. Nesta temporada, saí para jogar na Itália, onde conquistei os títulos nacional e europeu. Mas foi no Brasil que cresci como atleta e homem. E agora, aos 30 anos, ajudei o Brasil a garantir a vaga para a Olimpíada de Tóquio, ao vencer o torneio pré-olímpico na Bulgária.

Cuba é um país complicado, todo mundo sabe disso, mas é inegável que lá existia uma boa estrutura para formar atletas. Quando criança, era estimulado a disputar todos os esportes. Os professores ficavam analisando nosso desenvolvimento, estatura, e, assim que reconheciam uma aptidão, nos direcionavam para alguma modalidade. Fui selecionado para seguir no vôlei ou no basquete, por causa da minha altura. Eu me identifico muito com a história do Michael Jordan. Gosto muito dele. Ele não era aceito no basquete porque era pequeno, não tinha condições para jogar. Entrou no jogo pela força de vontade e porque insistiu. É um dos maiores da história. Vejo semelhanças em nossas histórias pelas dificuldades que passei em Cuba.

O esporte para um cubano não é apenas lazer. É uma das poucas chances que temos para nos destacar na sociedade. Tive uma conversa com meus pais, e decidimos que deveria seguir no voleibol. E aqui estou até agora. Era difícil, porque com 12 anos já estava separado da minha família. Vivia na escola e via meus pais uma vez por semana. Quem se destaca é levado para uma escola de nível superior, com dedicação ao esporte. O passo seguinte é a seleção nacional. Você treina com o objetivo de jogar pelo país, para defender a seleção de Cuba. Essa era minha vida na ilha, desde cedo tinha grandes responsabilidades. Não é fácil para uma criança ter de passar por isso.

Até 2010, nunca tive problemas com o governo cubano. Mas tudo mudou quando decidi que não jogaria mais pela seleção. Foi logo depois de perdermos a final do campeonato mundial para o Brasil, em Roma. Acreditávamos que nossa vida melhoraria financeiramente depois daquela medalha de prata. Nada disso aconteceu. Então tive de tomar uma decisão drástica. O vôlei sempre foi minha paixão, mas uma pessoa tem de ajudar a sua família, sabe? A maioria dos atletas cubanos pensa assim e acaba seguindo o mesmo rumo: defende o país, a seleção, mas, quando vem um contrato de fora, aceita. Quando anunciei minha vontade, os dirigentes em Cuba me aplicaram uma sanção por dois anos, e eu fiquei sem poder jogar em lugar nenhum.

Mas um brasileiro me estendeu a mão. O Alessandro Lima, que hoje é meu empresário. Ele foi a Cuba com um diretor do Sada Cruzeiro, time de Minas Gerais, os dois falaram comigo e me convidaram. Como não vou ter carinho e estima pelo Brasil? Não seria o jogador que sou hoje sem essa ajuda. Pelo fato de me sentir em casa em Belo Horizonte, fui atrás dos trâmites para poder jogar pela seleção brasileira. Seria um sonho voltar para esse ambiente de competições internacionais, como nos meus tempos de seleção cubana. Neste ano, depois de tantas conquistas pelo meu clube, fui convocado. É a primeira vez na história do vôlei brasileiro que um estrangeiro veste a camisa da seleção. Sei da responsabilidade, e quase não tenho palavras para definir o que sinto. É um misto de nervosismo e felicidade, por ter tido essa oportunidade de defender a bandeira brasileira. É minha forma de agradecer ao país que me acolheu.

Depoimento dado a Alexandre Senechal

Publicado em VEJA de 21 de agosto de 2019, edição nº 2648