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Estrelas na quadra sob o comando de uma juíza brasileira

A árbitra gaúcha Paula Capulo está entre as mais bem graduadas do mundo

Paula Capulo é a única brasileira e sul-america com a graduação prata – são apenas 15 mulheres nesta posição no mundo

Uma dezena dos maiores nomes do tênis estiveram no Brasil em pouco mais de dois meses, entre eles o atual número 1, o sérvio Novak Djokovic, o número 2, o suíço Roger Federer, e o rei do saibro, o espanhol Rafael Nadal, hoje quinto no ranking. Entre as mulheres, esbanjaram seu charme nas quadras a dinamarquesa Caroline Wozniack, a americana Serena Williams (número 2), a bielorrussa número 1 do mundo, Victoria Azarenka, e a rainha dos flashes, a russa Maria Sharapova, terceira no ranking feminino. Se entre os brasileiros a melhor posição no ranking é de Thomaz Bellucci, na 38ª posição, fora das quadras – mas tão importante quanto os jogadores – temos pelo menos mais um representante em ascensão no tênis mundial. A gaúcha Paula Capulo, conhecida como Paulinha, é umas das poucas árbitras que atua nos principais torneios pelo planeta.

Cabelos claros, na altura do ombro, amarrados em rabo-de-cavalo, pouco muda as feições na hora de tirar a limpo se uma bola tocou a linha. Firme, não se abala com a reclamação e cara de indignação do jogador que discorda da marcação. Com seu quase 1,60 metro, Paula sinaliza a marcação e volta em passos apressados para a cadeira que fica no topo da escada no centro da quadra. Não há muita discussão, ela impõe o respeito, serena, convicta. Não faz diferença quem esteja em quadra, o jogador lá na casa do número 200 ou 330 do ranking, ou qualquer um dos grandes nomes, com dezenas de títulos e milhões na conta, sua postura é a mesma.

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“Quando o jogador já me conhece fica mais fácil o trabalho, há respeito. Mas quando um não me conhece pode acontecer de ele querer me testar. Na maioria das vezes não há grandes problemas. E um dos motivos é que não temos qualquer tipo de relacionamento com os jogadores fora das quadras e dos clubes. Se nos encontramos num aeroporto por exemplo, o máximo que acontece é um cumprimento e mais nada, Nem um café”, conta Paula, que começou a se interessar pela arbitragem depois de perceber que, aos 16 anos, mesmo jogando com muita frequência no clube Petrópolis, de Porto Alegre,, não teria grande futuro como tenista. “Não me adaptei às competições dentro da quadra, mas me interessei em ficar no ambiente esportivo, e com 17 anos fiz meu primeiro curso de arbitragem, na Federação Gaúcha. Foi o bastante para rapidamente decidir que eu queria aquilo.”

Era 1999, e logo depois dos primeiros torneios já sentiu o gostinho pelo trabalho. “Gostei de estar no comando, gosto de organização, disciplina, não sei se isso é uma coisa de mulher mesmo, mas acho que sou meio autoritária”, diz abrindo o sorriso. E foi preciso muita disciplina. Nos primeiros anos foram centenas de torneios, desde os infanto-juvenis aos torneios de pequena premiação, muito jogo, sempre estudando e aprendendo, vivendo cada dia uma situação diferente, e se aperfeiçoando. Por cinco anos morava metade do ano no México, onde havia muitos torneios, fechava a temporada com cerca de 300 jogos. Assim, conseguiu a certificação de white badge, a primeira na escala de importância dos árbitros – em seguida vêm bronze, prata e ouro.

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“No fim do ano uma comissão avalia suas atuações na temporada e quando acreditam que você está apto pode acontecer de receber nova graduação.” Paula é a única brasileira e sul-americana com a graduação prata – são apenas quinze mulheres nesta posição no mundo. Outro destaque brasileiro é Carlos Bernardes, graduação ouro – só outros 20 homens e sete mulheres são gold. Paula se tornou bronze em 2006, em processo de seleção da Federação Internacional de Tênis. E no fim de 2011 foi promovida a prata.

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“Por cinco anos como bronze, fazia Grand Slam como juiz de linha. Juiz de cadeira nestes torneios tem de ser prata e ainda assim selecionada. Mas agora já passei por essa experiência, já arbitrei no US Open.” Ela diz que os torneios mais difíceis são aqueles em que não está acostumada com a superfície, como a grama de Wimbledon, e os que acontecem no frio. “Prefiro o calor, lá em cima da cadeira faz muito frio.” Idioma também não é problema. Além do inglês e espanhol, Paula conta que “se vira” no italiano, polonês e até húngaro. E curte mesmo conhecer novas culturas, passear pelos mercados, comer a comidas locais. Mas num torneio pode passar o dia de folga no quarto do hotel descansando, vendo um filme ou fazendo a unha. “Eu mesma faço e também mudo a cor do cabelo. Tive que aprender, pois muitas vezes não temos tempo e também é muito caro na Europa.” E sempre que pode bate uma bola e tenta ver alguns jogos nos torneios, feminino ou no masculino. “Estou sempre aprendendo”.

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E apesar da experiência e de um futuro seguramente com destino à graduação ouro, Paula se aproxima de um momento em que pode mudar toda a sua vida. Há quase três anos é casada com um árbitro de tênis e começa a pensar em filhos. “Logo vou ter de decidir o que fazer. Se trabalho menos em jogos corro o risco de perder timing da bola, de ficar desatualizada. Conciliar escola e obrigações de mãe com arbitragem de cadeira é muito difícil. Talvez uma opção possa ser uma função em que não seja necessário esse apuro, por exemplo, como supervisão de torneio, ou algo assim.” Essa é uma decisão que, ao contrário do que tem de ser na quadra, ela pode tomar com calma, ponderar, pensar, pois não há regra a ser seguida.