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Estrela do skate, Rayssa Leal é esperança do Brasil nos Jogos de Tóquio

Aos 13 anos, a “Fadinha do skate” será uma das sensações da estreia olímpica de um movimento cultural que é a cara do país

Por Alexandre Senechal Atualizado em 21 jul 2021, 13h40 - Publicado em 9 jul 2021, 06h00

Não se deixe enganar pelo jeito meigo e voz de criança: trata-se, acima de tudo, de uma atleta de elite. Uma das principais esperanças do Brasil nos Jogos Olímpicos de Tóquio, marcados para começar no próximo dia 23, Rayssa Leal mal entrou na adolescência mas já é uma estrela do skate mundial. Com apenas 13 anos, completados em 4 de janeiro, ela brilha na modalidade street, disputada em circuito de rua, entre corrimões e escadarias. É campeã brasileira, vice-campeã mundial e a mais jovem vencedora de uma etapa da Street League Skateboarding, uma das principais competições da categoria. Tratada como “fora da curva” pela lenda americana Tony Hawk, a atleta maranhense foi indicada ao prêmio Laureus, o mais prestigioso do esporte, em 2019, e, assim como suas compatriotas Leticia Bufoni e Pâmela Rosa, desembarcará no Japão com chances reais de ajudar o Brasil no quadro de medalhas. Convém, enfim, prestar atenção na garotinha.

Rayssa faz parte de uma classe de prodígios que pretende voar alto em terras nipônicas. Ela nem será a mais jovem atleta dos Jogos (veja no quadro). Nas provas de skate park (disputadas em grandes rampas), sua amiga Sky Brown, de 12 anos, fará parte da equipe do Reino Unido ao lado de Bombette Martin, de 15 anos.

A Fadinha, apelido que recebeu na escola após se fantasiar de fada para um desfile de 7 de setembro em 2014, não está para brincadeira. “As competições são uma diversão com responsabilidade. Sei o que tenho que fazer. Nasci preparada”, afirma, confiante, a VEJA. Rayssa mora em Imperatriz, no interior do Maranhão, e concilia as obrigações escolares com os treinamentos. Começou a praticar o esporte aos 6 anos, após ganhar um skate de aniversário do pai, Harodo. A primeira participação no Campeonato Brasileiro aconteceu um ano depois, em Blumenau (SC). Embarcou em um avião com a mãe, Lilian, companheira em todas as competições. “Fomos com a cara e a coragem. Não tínhamos dinheiro para ir embora e a Confederação ajudou. Demoramos dois dias para voltar de ônibus”, relembra Rayssa.

arte Crianças nas Olimpiadas

Ela é, portanto, a nova cara de um fenômeno bem estabelecido por aqui. O skateboard (patins em prancha, em tradução literal) se popularizou a partir dos anos 1960, nos EUA, e se tornou um fenômeno mundial com a criação do evento X-Games, em 1995. Turbinado pela presença de ídolos como Bob Burnquist e Sandro Dias, o Mineirinho, além da influência da música, com bandas como a santista Charlie Brown Jr., e de jogos de videogame, o Brasil viu florescer pistas e rampas em clubes e praças país afora. “O skate é contracultura”, diz o carioca Burnquist, de 44 anos, um dos ídolos de Rayssa. O Comitê Olímpico Internacional, de posse de estudos que apontavam uma relevante perda de audiência do público abaixo de 18 anos, se apropriou do movimento e incluiu três modalidades que transitam bem entre os jovens — skate, surfe e escalada esportiva — no calendário olímpico. Apesar da pandemia, a prática só cresce no Brasil: sites de comércio eletrônico registraram aumento de 100% nas vendas do objeto voador de 2019 para 2020.

A Fadinha aproveitou o boom da modalidade. Profissionais como psicólogos e nutricionistas da Confederação Brasileira de Skate a acompanham frequentemente. Só não é beneficiária do Bolsa Atleta do governo federal porque os recursos só podem ser concedidos a maiores de 14 anos. Em compensação, a lista de patrocínios só aumenta, com marcas como Nike e Banco do Brasil. São apoios vitais para forjar uma estrela olímpica — que pode tornar o skate ainda mais popular no país.

Publicado em VEJA de 14 de julho de 2021, edição nº 2746

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