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Esquiva Falcão: a medalha olímpica virou propaganda para minipizzas

A desilusão com o esporte fez o boxeador cogitar leiloar a láurea, que hoje serve para turbinar seu negócio criado durante a pandemia

Por Alexandre Senechal Atualizado em 5 jun 2020, 13h35 - Publicado em 5 jun 2020, 06h00

A medalha de prata conquistada nos Jogos de Londres 2012 estava à venda. Qual era o preço? Estava pedindo 50 000 dólares. O medalhista olímpico, no Brasil, só é lembrado na época da Olimpíada, depois é esquecido. Não temos reconhecimento à altura. Não ganhei prêmio algum pela conquista. Minha ideia era doar 10% do valor e pegar o restante como bonificação para mim.

E desistiu por quê? Desisti por causa da venda das minipizzas. Agora a medalha serve de propaganda para o negócio. Quem compra a promoção “Esqui­va Falcão” pode tocar na medalha e tirar foto.

E o que é essa promoção? Pelo menos dez pratinhos de minipizzas, com seis unidades cada um. Mas depende do lugar onde a pessoa mora, para eu não correr nenhum perigo. Criaram até um bordão: “Nocaute na sua fome”.

Você ainda luta profissionalmente e estava morando fora do Brasil. Por que agora abrir uma pizzaria? Não foi por necessidade, mas criei uma renda extra. Estou em Vila Velha (ES) durante a pandemia, e minha esposa não gostou de uma pizza que encomendamos. Veio muito pequena, sem recheio e com a massa dura. Vimos aí uma oportunidade. Começamos a divulgar aos poucos, pelo WhatsApp. As pessoas elogiaram muito. Então resolvi colocar nas minhas redes sociais. Para que eu fui publicar? Bombou!

E as pessoas reconhecem você? As pessoas não acreditam na hora que me veem como entregador. Vou com uma camisa minha que tem meu nome grande, então fica fácil de reconhecer. Uma vez duas meninas tomaram um susto quando me viram. “É o Esquiva Falcão mesmo. Achei que viria um motoboy”. Teve fã que chorou, porque um amigo encomendou no dia do aniversário dele e foi uma surpresa. Estou sendo mais reconhecido agora do que quando conquistei a medalha em Londres.

Você ajuda na produção? O que fica comigo é a parte da força. A pizza tem de apanhar para ficar boa, então eu e meu sogro colocamos a mão na massa. O boxe exige bastante, mas amassar pizza dá um baita cansaço. Por isso parabenizo os padeiros e pizzaiolos que trabalham com isso.

Quando tudo isso passar, vai voltar ao ringue? Voltarei aos Estados Unidos quando tudo isso acabar, porque no Brasil não dá para ser um atleta profissional de boxe. O lutador não vive, tem de conciliar os treinamentos e as lutas com outro trabalho. Se viver só do boxe profissional no Brasil, passa fome.

Publicado em VEJA de 10 de junho de 2020, edição nº 2690

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