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Espanha/Portugal-2018, a melhor Copa que nunca ocorrerá

Vizinhos ibéricos tinham tudo para realizar um Mundial irretocável sem gastar quase nada. E ainda não entenderam porque perderam para a Rússia na Fifa...

Por Giancarlo Lepiani, de Madri - 22 Maio 2014, 05h33

Passados mais de dois anos desde a derrota da candidatura ibérica, as autoridades e os cartolas de Espanha e Portugal ainda lamentam a oportunidade perdida. Calcula-se que o evento traria um crescimento adicional de 3% à economia espanhola no ano do torneio

Ao visitar a Espanha, evite perguntar a um torcedor local sobre a derrota da candidatura do país, em conjunto com Portugal, para sediar a Copa do Mundo de 2018 – em alguns casos, levantar esse assunto fará o sangue de seu anfitrião ferver, confirmando um dos estereótipos do povo espanhol. A derrota para a Rússia, anunciada como país-sede do torneio em dezembro de 2010, ainda não foi bem digerida por muitos moradores de Madri, que receberia a finalíssima da Copa caso a dupla candidatura tivesse sido vitoriosa. Na primeira rodada de votação no Comitê Executivo da Fifa, os russos receberam nove votos e os espanhóis e portugueses, sete. Na segunda rodada, porém, todos os votos recebidos pelas outras candidatas (Holanda e Bélgica, também em conjunto, e Inglaterra) migraram para os russos. Vladimir Putin, que já havia conseguido levar a Olimpíada de Inverno de 2014 para o seu país, comemorou. Espanhóis e portugueses lamentaram a oportunidade perdida de realizar um Mundial que tinha todos os elementos necessários para ser a melhor edição de toda a história do torneio.

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Idealizada em 2007 pelo presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Gilberto Madail (cartola que contratou o técnico Luiz Felipe Scolari para a seleção de seu país), a candidatura dos ibéricos parecia ser o projeto ideal para um momento de instabilidade financeira na Europa e no resto do mundo. O plano previa nove sedes na Espanha e duas em Portugal (com três estádios no total, dois em Lisboa e um no Porto). No caso dos portugueses, não seria necessário gastar um centavo: as arenas da Copa seriam as mesmas da Eurocopa de 2004 (o Estádio da Luz, do Benfica, o José Alvalade, do Sporting, e o Estádio do Dragão, do Porto). Do outro lado da fronteira, outros nove estádios estariam prontos sem a necessidade de investimentos adicionais. O Camp Nou, a casa do Barcelona, receberia a partida de abertura, em 15 de junho de 2018, e o Santiago Bernabéu, do Real Madrid, seria o palco da decisão, em 15 de julho. O Estádio Olímpico de Montjuic, também em Barcelona, e o futuro estádio do Atlético de Madri, na capital, também seriam usados, além de novas arenas privadas em cidades como Valência, Málaga, Zaragoza e Bilbao.

A questão dos estádios, como se vê, já estava resolvida. Transporte entre as sedes e mobilidade urbana nas cidades da Copa? Graças a uma malha férrea bem desenvolvida e a uma tradição de bons serviços de transporte público, também seriam pontos já solucionados da organização do evento. Com rede hoteleira e de serviços mais do que adequada, deslocamento extremamente fácil entre as cidades (todas relativamente próximas umas das outras) e aeroportos de grande porte – Portugal reformou os seus para a Eurocopa e Madri e Barcelona inauguraram novos terminais nos últimos anos -, as nações ibéricas poderiam receber um Mundial em questão de meses. O que levou, então, o Comitê Executivo da Fifa a escolher a Rússia, que terá de construir quase uma dezena de novas arenas, exigirá longas viagens das seleções e dos torcedores entre as sedes e terá de melhorar bastante sua infraestrutura até 2018? A resposta está com os mesmos cartolas que confiaram em tudo o que o Brasil prometeu para 2014 e escolheram o Catar para receber uma Copa cheia de problemas em 2022.

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Mistério – Passados mais de dois anos desde a derrota da candidatura ibérica, as autoridades e os cartolas de Espanha e Portugal ainda lamentam a oportunidade perdida. Calcula-se que o evento traria um crescimento adicional de 3% à economia espanhola no ano do torneio. Eram esperados mais de dois milhões de turistas no mês da competição (como comparação, o governo brasileiro prevê que 600.000 visitantes estarão no país para a Copa deste ano). Como tanto a Espanha como Portugal são países profundamente ligados ao futebol, com grandes atletas e seleções de respeito, seria, sem nenhuma dúvida, uma Copa empolgante. “Ficamos tristes”, disse o presidente da Real Federação Espanhola de Futebol, Ángel María Villar, depois do pleito na Fifa. “É preciso rever muitas coisas no futebol mundial”, lamentou o português Madail, que ficou muito amigo de Felipão no período em que o técnico gaúcho comandou a seleção lusa. Madail disse que saiu do processo “com a consciência tranquila” e sem saber ao certo o que garantiu o triunfo da “candidatura misteriosa” dos russos. Uma próxima chance, só em 2030 – a Fifa proíbe que a Copa retorne a um continente que realizou uma das duas últimas edições do torneio.

https://youtube.com/watch?v=NuFK3nErKrc%3Frel%3D0

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