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Em nome de Jesús, Isaquias Queiroz chegou lá

<p>A VEJA, fenômeno baiano da canoagem prometeu ouro para honrar o ex-treinador espanhol, morto em 2018; a glória veio em Tóquio e Paris já é logo ali</p>

Por Luiz Felipe Castro Atualizado em 11 jan 2022, 16h43 - Publicado em 7 ago 2021, 00h51

Em 2016, em matéria especial que apresentava 12 jovens atletas que poderiam brilhar na Olimpíada do Rio, VEJA escreveu sobre o fenômeno da canoagem que posara para as lentes de Paulo Vitale de dentro de uma piscina:

“A constituição física desses índios (…) é robusta e sua fisionomia muito mais simpática do que a dos sabujás e dos cariris. São bons remadores e nadadores.” A descrição dos brasileiros encontrados entre 1817 e 1820 no sul da Bahia está na Viagem pelo Brasil, de Carl Friedrich Philipp von Martius e Johann Baptiste von Spix, naturalistas alemães que vieram descobrir por que nesta terra em se plantando tudo dá. Corte para o século XXI e vamos encontrar Isaquias Queiroz, medalha de ouro na prova de velocidade de 500 metros no campeonato mundial de canoagem de Duisburgo, cidade banhada pelo Ruhr. Ele é o índio brasileiro que mostra aos alemães de hoje o que é ficar de joelhos, enfiar os remos na água e zarpar.

Natural de Ubaitaba, na Bahia, lugar de gente robusta, o menino sem um rim (perdido numa queda da mangueira onde buscava uma cobra) começou a remar no Rio das Contas, onde se descobriram dezenas de outros Isaquias bons de canoa. Mas nenhum foi tão longe quanto o Sem Rim, como o apelidaram jocosamente. A glória não lhe subiu à cabeça, ou quase não subiu. Isaquias, de pele e cabeleira agrezidas por água e sol, coleciona cortes de cabelo e cremes hidratantes. “Já fiz até escova progressiva. Tenho de me cuidar, senão a namorada me larga”, brinca. Recentemente, Isaquias fez um corte à Neymar. Em tempo, para não restar dúvida: a palavra Ubaitaba, que dá nome à terra natal de Isaquias, é a fusão de três vocábulos indígenas: ubá, canoa pequena; y, rio; e taba, aldeia.

Isaquias Queiroz, o Neymar da canoagem
Isaquias Queiroz, em ensaio de 2016 Paulo Vitale/VEJA

O ouro em casa não veio. Foram duas pratas e um bronze, resultado excepcional, mas que não era suficiente para Isaquias Queiroz nem para seu treinador linha-dura Jesús Morlán. Em novembro de 2018, o espanhol morreu, vítima de um tumor no cérebro. A dor deu impulso ao baiano. “O Jesús não nos ensinou apenas a ser atletas, ele nos ensinou a amar outra pessoa acima de nós mesmos. Foi exatamente isso que ele fez, amou a gente acima dele. Ele tinha dinheiro e títulos. Podia parar e aproveitar a família. Mesmo assim, quis continuar aqui para dar uma vida melhor a mim”, contou Isaquias, à seção Primeira Pessoa, de VEJA.

Cinco anos depois, Isaquias chegou lá, conquistou a medalha de ouro da categoria C1 1000m, e dedicou a conquista à família, a todas as vítimas de Covid-19 no Brasil e, claro, a Morlán. “Jesús está acima da gente, de mim, do Lauro [de Souza, seu atual treinador] e toda a equipe. Tínhamos o objetivo. Eram duas medalhas. Não conseguimos no C2, mas consegui realizar um sonho dele que era eu me tornar campeão. Ele me incentivou muito. Esse feito é meu e dele”, discursou no canal Sea Forest, em Tóquio, na madrugada deste sábado, 7.

“Eu estou meio aéreo ainda, é diferente ganhar uma medalha de ouro, estou feliz, mais ainda por deixar o Brasil feliz, eu prometi e fui atrás. Muito feliz por fazer minha família e meu filho vendo a história acontecer. Eu queria isso e fui atrás.”

Em nova entrevista a VEJA, pouco antes dos Jogos de Tóquio, Isaquias deixou claro que a perda do ouro na Rio-2016 seguia “engasgada”, e fez uma profecia bastante ousada, em tom sereno, determinado, sem a marra que a frase solta pode fazer parecer. “Meu objetivo é ser o maior atleta olímpico do Brasil, chegar ao nível de Torben Grael, Robert Scheidt, Cesar Cielo e outros. E depois, quando parar, quero ser treinador e formar campeões.” O caminho das águas está aberto para o campeão de 27 anos. Paris-2024 está logo ali.

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