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Ele deu a vida por mim

Isaquias Queiroz, 24 anos, medalhista olímpico treinado pelo espanhol Jesús Morlán, morto no domingo 11

Novembro vai ser sempre um mês muito triste para todos nós. Foi em novembro que o Jesús nasceu, descobriu a doença e morreu. Coisa do destino, né? Vivemos tempos complicados juntos desde o diagnóstico, mas ele sempre demonstrou força. Nunca desistiu. Tem gente que pode achar que é modo de dizer, mas o Jesús Morlán, literalmente, deu a vida por mim, pela nossa equipe, pela canoagem brasileira. Mesmo sabendo que tinha um tumor no cérebro, ele não nos abandonou. Qualquer outra pessoa teria ido embora, mas ele se dedicou ao trabalho. Era do que ele mais gostava e, para mim, foi isso que o manteve aqui mais tempo do que a previsão inicial dos médicos, de catorze meses de vida. O Jesús não nos ensinou apenas a ser atletas, ele nos ensinou a amar outra pessoa acima de nós mesmos. Foi exatamente isso que ele fez, amou a gente acima dele. Ele tinha dinheiro e títulos. Podia parar e aproveitar a família. Mesmo assim, quis continuar aqui para dar uma vida melhor a mim e ao Erlon (Erlon de Souza, prata nos Jogos do Rio na canoa dupla, com Isaquias).

Eu não teria continuado na canoagem se não fosse pelo Jesús. Antes dele, tive um treinador que dizia que eu nunca seria campeão. Estava tão desanimado que deixava de ir treinar para ficar em casa dormindo. Quando o Jesús chegou, em abril de 2013, foi difícil o entrosamento. Ele tinha uns métodos meio estranhos. Para a prova de 1 000 metros, o Jesús me fazia remar de 100 em 100 metros. Depois, era para remar por 200 metros e parar. Pensava comigo: “Como vou aguentar?”. Os resultados foram a resposta. Em cinco meses de trabalho, ganhamos um ouro e um bronze no Mundial de Duisburg, na Alemanha. Depois disso, foram outras oito medalhas em Mundiais e as três na Olim­píada do Rio, duas pratas e um bronze. Muita gente dizia que ele era um ótimo técnico, mas que eu já estava pronto. Besteira. O Jesús foi fundamental para o meu sucesso.

Todo mundo vê o atleta, mas são poucos os que notam a comissão técnica que está por trás. Ninguém vê o esforço do treinador. Foram várias as ocasiões em que a gente o chamava para sair, ir ao shopping, e ele ficava em casa para estudar. Tinha vezes que ele descia para almoçar e a gente percebia as marcas dos óculos no nariz dele, de tanto ficar na frente do computador. Isso tudo para que alcançássemos o melhor resultado.

Conviver com o Jesús mudou bastante minha visão sobre os técnicos. Antigamente, achava todos uns carrascos. Nunca imaginei ser possível conviver com um treinador morando na mesma casa. Demorou para ele se abrir com a gente. Não mostrava fotos da família, não queria misturar o pessoal com o profissional. Mas, quando conheceu o Brasil um pouco melhor, ele se aproximou da gente, virou um cara muito feliz. Sempre lembrarei do sorriso dele. Ele permitiu que as nossas famílias ficassem perto. Cada atleta vive com sua esposa aqui em Lagoa Santa (cidade mineira que abriga a seleção brasileira de canoagem). Ele percebeu que seria bom para a gente, até para ele. Às vezes no domingo logo cedo ele ligava o som alto no quarto. Ele ouvia funk. Gostava muito da Anitta. Também gostava de um cantor que eu ouvia, o Hungria Hip Hop. Gostava das letras que falam da vida real. Depois de um certo tempo, a gente não o via mais como treinador, ele era como um pai. Dá um pouco de medo pensar como vai ser daqui para a frente, porque era a ele que a gente recorria quando acontecia qualquer coisa. Ele não vai estar mais aqui para dar uma bronca ou uma palavra de apoio. A gente quer ganhar pelo menos mais uma medalha nos Jogos de Tóquio, em 2020. Ela seria a nona do Jesús em Olimpíadas (ele conquistou outras cinco com o espanhol David Cal). Era esse o seu objetivo, então nós não vamos deixar que seu sacrifício tenha sido em vão. Afinal, ele deu a vida por mais essa conquista.

Depoimento dado a Alexandre Senechal

Publicado em VEJA de 21 de novembro de 2018, edição nº 2609