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É preciso respeitar o mar encrespado

O oceano, na cultura japonesa, é tão celebrado como no Brasil. O maior ícone dessa história oriental é a xilogravura A Grande Onda, de Katsushika Hokusai

Por Fábio Altman Atualizado em 27 jul 2021, 17h33 - Publicado em 26 jul 2021, 14h07

A decisão de antecipar em um dia as finais do surfe da praia de Tsurigasaki, em Chiba, para a madrugada desta segunda-feira para terça-feira, foi um imperativo logístico – a chegada de um tufão no Pacífico tornaria as ondas crespas demais, inviáveis para as pranchas. Seria um estorvo no apertado calendário da Olimpíada. Há, contudo, na mudança de data, o fenomenal respeito dos japoneses pelas coisas do mar. Lembre-se, para começo de conversa, que o Japão é o único país do mundo a ter um feriado nacional dedicado ao oceano – o Umi no hi, celebrado em 20 de julho. É uma jornada de celebração das riquezas (mas também dos riscos) trazidos da imensidão azul. O Japão é um arquipélago formado por mais de três mil ilhas localizadas entre o mar de Okhotsk a norte, o Oceano Pacífico a leste e sul e os mares da China Oriental e do Japão a oeste. O país é responsável por 15% da economia mundial da pesca. Quando a natureza grita, os japoneses escutam. É assim desde sempre. O mar é o príncipe – e não haveria mesmo como desrespeitá-lo no palco onde singrarão Gabriel Medina e Ítalo Ferreira logo mais.

  • “Minha jangada vai sair pro mar/vou trabalhar, meu bem querer/se Deus quiser quando eu voltar/do mar/um peixe bom eu vou trazer/meus companheiros também vão voltar/e a Deus do céu vamos agradecer”. O Japão também tem um ícone artístico relacionado ao oceano, como o Brasil tem a linda Suíte do Pescador, de Dorival Caymmi (1914-2008), de 1956. Não é uma composição musical, e sim uma xilogravura, talvez a mais conhecida ilustração das bandas de lá. É A Grande Onda, feita por volta de 1830 pelo artista Katsushika Hokusai (1760-1849), parte de uma série de 36 vistas do Monte Fuji. Escreve Neil McGregor no livro A História do Mundo em 100 Objetos: “À primeira vista apresenta uma bela imagem de uma profunda onda azul se encrespando acima do mar e, ao longe, vemos o plácido pico do Monte Fuji, meio encoberto pela neve. Trata-se, poderíamos pensar, de uma imagem decorativa e estilizada de um Japão atemporal. Contudo, há outras maneiras de interpretar. A Grande Onda de Hokusai. Observando com um pouco mais de atenção, vemos que a linda onda está prestes a engolir três barcos com assustados pescadores, e o Monte Fuji aparece tão pequeno que nós, espectadores, compartilhamos o sentimento que os marinheiros devem ter experimentando em seus barcos ao olharem para a margem: está fora do alcance, e não há como escapar. Essa é – acredito – uma imagem de instabilidade e incerteza. A Grande Onda nos fala do estado de espírito do Japão ao se ver no limiar do mundo moderno, ao qual os Estados Unidos logo iriam forçá-lo a se integrar”.

    Não fosse a pandemia, que fechou as portas para os estrangeiros durante os Jogos Olímpicos, a clássica xilogravura poderia, sim, servir de metáfora para a relevância geopolítica da Olimpíada de 2020 que foi empurrada para 2021. Nas palavras de Christine Guth, que estudou a fundo a obra de Hokusai: “Ela foi produzida em um momento em que os japoneses começavam a se preocupar com as incursões estrangeiras nas ilhas. Portanto, por um lado, essa grande onda parecia representar uma barreira simbólica para proteger o Japão, mas ao mesmo tempo também sugeria o potencial dos japoneses para viajar ao exterior, de as ideias se deslocarem, de as coisas  irem de um lado ao outro”.

    Cabe acompanhar as baterias da madrugada, e que culminarão no pódio, como quem observa A Grande Onda ou escuta Caymmi, o que dá praticamente no mesmo. Os japoneses, observa Donald Keene, da Universidade de Columbia, veem a onda como metáfora de mudanças na sociedade. “Os japoneses têm uma palavra para ‘insular’ que designa literalmente o estado de espírito dos que vivem em ilhas: shimaguni konjo. Shimaguni significa ‘nacões-ilha’, konjo quer dizer ‘caráter’. A ideia é que eles estão cercados de água e, ao contrário das ilhas britânicas, de onde é possível enxergar o continente, encontram-se bem longe dele. A singularidade do Japão é apresentada muitas vezes como uma grande virtude”.

    É nesse mar que Gabriel Medina e Ítalo Ferreira tentarão fazer história olímpica. É para ele que Medina, especialmente, olha longamente, como se rezasse, minutos antes de correr com a prancha para a água. No litoral de Chiba, na praia de Tsurigasaki, haverá ecos de Hokusai e Caymmi, antes que o tufão sopre forte – não tão forte, felizmente, como foi o Tsunami de 2011, que empurrou em 2,4 metros para o leste a ilha de Honshu, a maior do Japão.

    As quartas de final do surfe começam às 19h e invadem a madrugada brasileira

    O brasileiro Gabriel Medina reza antes de sua performance no mar -
    As preces de Medina antes de entrar na água: respeito ao local de trabalho Olivier Morin/AFP

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