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Doping na Rússia, uma política de Estado

O uso de substâncias proibidas no esporte já não espanta – a novidade são as evidências do envolvimento de autoridades da Rússia de Putin na trapaça

“Esse é nosso sistema: na Rússia só funciona com droga.” A declaração, gravada por meio de uma câmera escondida, é de Mariya Savinova, campeã olímpica dos 800 metros na Olimpíada de Londres, em 2012. A uma colega de corrida, a meio-fundista confirmou fazer uso regular de oxandrolona, um esteroide anabolizante. Ela confessou a trapaça e disse saber exatamente quanto tempo é preciso para que a droga se torne imperceptível nos exames, pois seu marido “tem contatos muito bons no laboratório de controle de dopagem”. O depoimento, inicialmente revelado em um documentário de uma emissora alemã em 2014, ganhou nova luz na semana passada como peça seminal de um devastador relatório de mais de 300 páginas divulgado por uma comissão independente de investigadores reunidos pela Agência Mundial Antidoping (Wada, na sigla em inglês). O que brota da papelada é muito claro: um esquema, alimentado pelas autoridades russas, que envolve atletas, treinadores, médicos e dirigentes, além do órgão nacional de controle de dopagem e do único laboratório russo antidoping credenciado. Diz Dick Pound, um dos membros da comissão, ex-presidente da Wada: “Tudo isso não poderia ter acontecido sem o conhecimento ou consentimento, direto ou implícito, das autoridades de Estado”.

São necessárias doses cavalares de ingenuidade para ainda hoje levar susto com denúncias de doping – mas as principais revelações do documento assustam, especialmente porque demonstram uma evidente política de Estado:

– Agentes da FSB, o órgão sucessor da KGB, o serviço secreto soviético do qual o presidente Vladimir Putin fez parte no período comunista, transitavam livremente pelo laboratório onde as amostras de sangue e urina dos atletas eram armazenadas. Na sucursal do laboratório, instalada em Sochi durante os Jogos de Inverno, havia membros da FSB disfarçados de cientistas.

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– Às vésperas de uma inspeção da Wada na sede do laboratório russo, em dezembro de 2014, o chefe da instituição, Grigory Rodchenkov, ordenou a destruição de 1 417 amostras, mesmo depois de ter sido especificamente orientado pelos ins­petores a manter preservado o material. Os investigadores descobriram a existência de um segundo laboratório em Moscou, que analisava previamente as amostras dos atletas do país, com o intuito de antecipar resultados positivos para substâncias proibidas.

– Para escaparem de exames-surpresa, treinadores subornavam os agentes da agência russa antidoping com “dinheiro colocado em cima da mesa no momento da coleta das amostras”.

– Agentes do controle de dopagem que escolhiam não fazer parte do esquema viviam sob constante ameaça. Um delator disse ter escapado pela janela de um hotel para não entregar as amostras a policiais russos que o esperavam do lado de fora do quarto.

– Em condições normais, atletas de nível olímpico são frequentemente solicitados a dar detalhes de seu paradeiro. No caso da Rússia, para driblar a fiscalização, a grande maioria dos corredores fornecia apenas o contato de seus treinadores, de modo a ganhar tempo para fugir do local da batida. Alguns chegavam a viajar para temporadas de treinos fora da Rússia apresentando nomes falsos nos hotéis onde se hospedavam.

Houve, na história recente, a descoberta de engrenagens de doping monumentais, como a do ciclista americano Lance Armstrong, líder de uma sofisticada rede de contrafação química. Naquele caso, contudo, inexistia a mão estatal. Agora é diferente. “A cultura enraizada da fraude no atletismo da Rússia”, para usar a definição dos investigadores, só tem paralelo na infame máquina de doping montada pela Alemanha Oriental nos anos 70, com o apoio das autoridades, da Stasi, a polícia secreta, de treinadores e atletas. Havia drogas ilegais também no lado ocidental – mas nada que se comparasse ao que faziam os alemães que orbitavam ao redor da União Soviética. Jovens mal saídos da puberdade recebiam doses cavalares de esteroides derivados da testosterona. Meninas eram transformadas em homens. Ganhavam competições e pagavam a conta anos depois, com o organismo devastado.

“O relatório é uma bomba atômica. A mensagem é clara: ou os russos seguem as regras do código ou estarão fora da Olimpíada”, ameaçou Pound. Nesta sexta-feira, a Associação Internacional de Federações de Atletismo (Iaaf) julgou insuficiente as respostas dadas pelos russos diante das e optou por suspender a Federação Russa e seus atletas de todas as competições internacionais. A nove meses dos Jogos do Rio, a grande dúvida é se Moscou conseguirá reverter a suspensão a tempo de ainda poder participar do evento em 2016 no Brasil.

Seria um baque se isso não acontecer. A Rússia é a segunda potência olímpica nas pistas, perdendo apenas para os Estados Unidos. Em Londres, levou dezessete medalhas, sendo oito de ouro. O raciocínio por trás da ideia de exclusão é claro: para uma política de Estado, condenação em bloco. O czar Putin desdenha e não baixa a guarda. “Se alguém está violando as regras em vigor, a responsabilidade tem de ser individual. Os atletas que nunca foram dopados não devem pagar o preço pelos outros”, argumenta Putin. Para quem imaginava que a nova geopolítica global representava o fim da história nos embates que culminaram nos boicotes dos Jogos de 1980 e 1984, um alerta: o escândalo do doping russo faz tremer as certezas dos cartolas olímpicos. E, qualquer que seja a decisão, uma sombra sempre ofuscará as vitórias dos atletas da Rússia – ainda que saibamos que eles não são, nem de longe, os únicos a se dopar para vencer.

Com reportagem de Natalia Cuminale

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