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Discreta e improvisada: o que esperar da abertura dos Jogos de Tóquio

Diante de tanta confusão — adiamento, rejeição e ausência de público —, bom senso exigirá uma cerimônia mais comedida e com a Covid-19 como pano de fundo

Por Luiz Felipe Castro Atualizado em 22 jul 2021, 21h36 - Publicado em 22 jul 2021, 19h54

Os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 começarão oficialmente na próxima sexta-feira, 23, a partir das 8h (de Brasília), com a realização da cerimônia de abertura no Estádio Olímpico da capital japonesa. Será uma festa bonita, como sempre, mas estranha, bem diferente do show de luzes e megalomania das outras outras 31 edições. Se há cinco anos o Maracanã viveu uma noite apoteótica, com a presença de 12.000 atletas, estrelas internacionais e mais de 60.000 torcedores eufóricos com o início da Rio-2016, a edição asiática terá tom melancólico, com a pandemia do novo coronavírus como pano de fundo, em uma cerimônia reduzida para amenizar uma surreal sequência de imprevistos.

Como de costume, a maior parte dos detalhes foram mantidos em sigilo. Sabe-se, no entanto, que cada uma das mais de 200 delegações terá apenas dois porta-bandeiras no gramado, enquanto o restante dos competidores assistirá ao arder da tocha isolados em seus quartos na Vila Olímpica. Os representantes brasileiros serão Bruno Rezende, campeão olímpico de vôlei no Rio, e a judoca Ketleyn Quadros, bronze em Pequim-2008, além do chefe da delegação brasileira, o vice-presidente do Comitê Olímpico do Brasil (COB), Marco La Porta.

O Comitê Organizador informou que cerca de 950 pessoas estarão presentes no reformado estádio com capacidade para 68.000 pessoas. As últimas cerimônias costumavam passar de três horas de duração; desta vez, a expectativa é que dure menos. Nas arquibancadas, haverá menos chefes de estado do que de costume. O primeiro-ministro japonês Yoshihide Suga, a primeira-dama dos EUA, Jill Biden, e o presidente francês Emmanuel Macron, confirmaram presença.

  • O novo coronavírus dará o tom da cerimônia repleta de ineditismo. Além de ser a primeira Olimpíada adiada em um ano e sem a presença de público, é também pioneira em relação a tamanha rejeição da população anfitriã. Com a pandemia de Covid-19 longe do fim (a metrópole asiática registrou 1.979 novos casos nesta quinta-feira, 22, o maior salto de infecções desde 15 de janeiro), cerca de 75% dos japoneses eram a favor do cancelamento, segundo pesquisas recentes. Só entre atletas e outros participantes dos Jogos, as contaminações já passam de 90 desde que a Vila Olímpica foi aberta.

    Ainda que o lema do evento seja “Jogos da Reconstrução”, a organização admite que não há clima para ostentar. O momento exige sobriedade e a proposta será exaltar o país-sede por meio de apresentações artísticas mais simples, sem tantas coreografias e luxuosos adereços.  “Será uma cerimônia muito mais sóbria. Mesmo assim, com uma bela estética muito japonesa, mas em sincronia com o sentimento de hoje, a realidade”, disse Marco Balich, conselheiro sênior dos produtores executivos das cerimônias olímpicas, à agência Reuters. A pandemia, portanto, provocou uma série de mudanças nos planos, de modo que a mensagem passada se tornou mais importante que questões estéticas. Profissionais de linha de frente no combate ao coronavírus terão protagonismo.

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    As bases do evento, cuja versão moderna teve início em Atenas, em 1986, serão mantidas. Haverá a entrada do ex-chefe de estado japonês Shinzo Abe, a execução dos hinos do Japão e da Olimpíada, o desfile dos porta-bandeiras, o lançamento simbólico das pombas, o juramento olímpico e o momento mais emblemático, quando a pira olímpica é acesa.

    Demissões em série e confusões sem fim

    O sentimento do Comitê Organizador dos Jogos ao final da cerimônia certamente será de alívio. Não bastasse o drama de por em pé um megaevento em meio a uma pandemia, Tóquio teve de lidar com uma inacreditável série de escândalos que culminaram em três trocas na direção do evento. A primeira confusão ocorreu em 2015, quando o projeto inicial elaborado pela aclamada arquiteta britânico-iraquiana Zaha Hadid de reforma do Estádio Olímpico foi aprovado. Os altíssimos custos da construção (2,3 bilhões de dólares), no entanto, causaram uma onda de protestos e a mudança do projeto, que ficou a cargo do arquiteto local Kengo Kuma.

    A direção da festa foi o maior foco de tensões. O ator japonês Mansai Nomura, primeiro designado para o cargo, desistiu depois que a Covid-19 mudou todos os planos. O publicitário japonês Hiroshi Sazaki assumiu seu lugar, mas acabou demitido em março deste ano por fazer uma piada gordofóbica contra uma famosa comediante local. Antes, em fevereiro, o ex-primeiro-ministro Yoshiro Mori também teve de se demitir após fazer comentários sexistas.

    Em seguida, uma nova bola fora: o músico japonês músico Keigo Oyamada, conhecido como Cornelius, responsável pela música tema dos Jogos, pediu para deixar as cerimônias de abertura e encerramento após o vazamento de vídeos em que ele admitia praticar bullying contra deficientes físicos nos tempos de colégio. Já nesta quinta-feira, o diretor artístico da abertura, Kentaro Kobayashi, foi demitido na véspera da cerimônia, em resposta ao aparecimento de um vídeo antigo em que o profissional faz piadas sobre o Holocausto, o genocídio de cerca de seis milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial.

    Foi, portanto, uma sequência que não apenas contraria a imagem de total discrição que os orientais costumam passar como representam uma imperdoável afronta ao mote de inclusão dos Jogos. Todo este contexto, portanto, contribuiu para que até mesmo as patrocinadoras do evento decidissem abandonar o barco. A fabricante de carros Toyota, principal apoiadora global do evento, desistiu de realizar ações durante a cerimônia.

    “Este movimento das marcas é fruto da discussão social sobre a relevância do entretenimento em um momento de dor e sofrimento. Quando a realidade gera dúvidas, o retorno das marcas se torna mais incerto. Isso aconteceu recentemente também na Copa América no Brasil, onde algumas empresas acabam questionando se valeria a pena realizar este investimento”, explicou a VEJA Bruno Maia, especialista em inovação e novos negócios na indústria do esporte, sócio da agência 14. Apesar dos pesares, a pira olímpica será acesa, com transmissão dos canais do Grupo Globo e do BandSports.

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