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Destaque na Argentina, Neto cobra espaço para novos ídolos do futsal

Na última década, o torcedor brasileiro se acostumou à figura de Falcão como o grande nome do futsal brasileiro, com seus gols e dribles geniais. Mas o astro não será eterno e, aos 34 anos, está à espera de alguém para entregar o bastão de ídolo. No recente título da Seleção na Copa América, surgiu o primeiro candidato: o fixo Neto.

O melhor jogador do torneio realizado na Argentina não tem as jogadas de efeito de Falcão, mas se destaca pela versatilidade, com qualidade para defender e atacar. Agora, Neto torce para que outros nomes alcancem destaque com a camisa da Seleção Brasileira, fato que, em sua opinião, ajudaria no crescimento da modalidade.

‘Nosso esporte poderia mudar, poderia melhorar muito, não pode ser carente de um só ídolo. Isso acontece desde o tempo do Manoel Tobias. Na época do Manoel era só o Manoel. Agora, na época do Falcão é só o Falcão’, afirmou o jogador do Santos, em entrevista exclusiva.

Aos 30 anos, Neto programa voos mais altos com a Seleção Brasileira. Suas grandes frustrações na carreira estão registradas em Campeonatos Mundiais com a camisa verde-amarela. Em 2004, perdeu o pênalti que determinou a derrota do Brasil contra a Espanha. Quatro anos depois, desperdiçou a chance de uma redenção ao sofrer uma grave lesão no joelho pouco antes do começo da competição.

‘Minha vontade é estar no Mundial porque é o título que me falta, é o título que tanto sonho, é o título que quero e vou batalhar para isso’, prometeu o fixo.

Veja a entrevista com o fixo Neto:

GE.NET – O que pode falar desse recente título da Copa América?

NETO: A gente, mais uma vez, se encontrou para um torneio chegando no dia anterior, sem tempo para treinar. Apesar da grande qualidade, a falta de entrosamento acaba contando. A Argentina pôde treinar mais. O que prevaleceu foi a qualidade do grupo, a gente aproveitou os compromissos iniciais para treinar. Tivemos dificuldades no primeiro jogo contra a Argentina (empate por 2 a 2 na fase de classificação), mas soubemos aproveitar quando aparecem essas dificuldades, observar o ponto fraco do rival apresentado na primeira vez para colocar em prática na próxima oportunidade. Na final, o jogo foi mais fácil, vencemos por 5 a 1.

GE.NET – Depois do empate na primeira fase, vocês estudaram a Argentina? O que o Brasil tinha feito de errado?

NETO: Acho que a diferença é que fizemos os gols na final. No primeiro jogo, nós tivemos oportunidades e não concluímos da maneira correta. Na final, colocamos a bola para dentro, isso acaba refletindo no jogo do nosso adversário. Eles ficaram afobados e, com isso, aproveitamos os erros.

GE.NET – Você ganhou o prêmio de melhor jogador da competição. O que fez a diferença em seu favor?

NETO: É o que falamos, eu jogo na posição de fixo e sempre acabam privilegiando quem faz o gol, quem tem papel ofensivo maior. Não sei, é difícil falar, não conheço aqueles que votaram. Tomara que se torne mais rotineiro. O futsal, por ser dinâmico, não é só quem fica na frente que tem o papel principal. Não digo que tive o papel principal, mas é bom mudar, surgir a valorização daqueles que fazem outras funções.

GE.NET – No Brasil, já tinha virado uma rotina a conquista de prêmios individuais por parte do Falcão. Você ficou surpreso até por causa disso, já havia um costume de que os prêmios iam para o Falcão?

NETO: Não é questão de estar acostumado com ele ou com outro jogador sendo premiado, mas a gente sabe que a história do esporte, no futsal ou no futebol, se falar de Copa do Mundo, houve só uma vez em que o Cannavaro (ex-zagueiro da seleção italiana) foi o melhor da Copa. A maioria que ganha, cerca de 90%, é atacante.

GE.NET – No futsal brasileiro há sempre a discussão por renovação, o próprio Falcão está com 34 anos, talvez dispute o último Mundial. Neste momento é importante o torcedor também conhecer outros ídolos do esporte?

NETO: Eu acho que sim. Nosso esporte poderia mudar, poderia melhorar muito, não pode ser carente de um só ídolo. Isso acontece desde o tempo do Manoel Tobias. Na época do Manoel era só o Manoel. Agora, na época do Falcão é só o Falcão. Então é importante uma renovação. Eu já não faço parte disso porque estou com 30 anos, tenho dez anos de Seleção. Nas é importante essa garotada que está aparecendo, Gadeia (de Marechal Rondon), Jackson (Santos), que o pessoal comece a se identificar com esses nomes, assim o esporte vai crescer. Na hora em que o Falcão parar e até quando outros nomes não jogarem mais, como o Lenísio e o Schumacher, não queremos que o esporte fique carente e caia no esquecimento do povo.

GE.NET – Você citou a sua experiência de dez anos na Seleção. É inevitável falar sobre aquela semifinal do Mundial de 2004 (Neto perdeu a cobrança na decisão de pênaltis na eliminação brasileira contra a Espanha). Esse título individual é uma espécie de pagamento daquela dívida?

NETO: Não carrego aquilo como dívida. Como a gente fala no esporte, só perde o pênalti quem está lá para bater. Foi uma parte difícil na minha carreira, era o mais jovem da Seleção naquela época. Acarretou talvez um peso maior em mim, você sofre mais, mas não encaro como dívida. Eu sempre trabalhei para me manter na Seleção Brasileira. E graças a Deus estou me mantendo, sempre fazendo o melhor. Mas, mesmo com aquele episódio, posso garantir que tive mais alegrias do que tristezas na Seleção Brasileira.

GE.NET – Mas você demorou muito para se recuperar daquele trauma?

NETO: É ruim, você sabe que ali (interrompe a fala por alguns instantes) é o título tão sonhado para qualquer jogador. Você é jovem e carrega a expectativa que possa acontecer o mais rápido possível. Você acaba ficando triste. Na volta, as pessoas te marcam pelo episódio, então isso para um jovem custa mais, mas foi tranquilo. Depois do Mundial, eu me transferi para a Espanha, o país campeão. Isso mostrou que eu tinha o meu valor, que não era aquilo que ia acarretar algo de ruim na minha carreira. O lance foi superado.

GE.NET – Já no Mundial passado você sofreu com uma contusão.

NETO: Três meses antes do Mundial eu rompi o cruzado (ligamento) do joelho e fui desconvocado.

GE.NET – Ter perdido essa última edição te dá mais gana em buscar a vaga no próximo Mundial? Foi um Mundial especial, disputado no Brasil.

NETO: Com certeza, só quem estava lá e participou é que pôde jogar um Mundial no próprio país e ser campeão. Infelizmente, a contusão me tirou. Mas minha vontade é estar no Mundial porque é o título que me falta, é o título que tanto sonho, é o título que quero e vou batalhar para isso. Acho que a minha carreira é vitoriosa e quero coroar com essa conquista.

GE.NET – Quando você teve a contusão no joelho já conseguiu detectar na hora a gravidade? O que se lembra daquele dia?

NETO: Foi em um jogo da semifinal da Liga Espanhola. Na hora eu percebi (a gravidade), eu lembro direitinho. Quando eu caí, já sabia que tinha rompido. O primeiro pensamento foi o Mundial. Falei com os meus companheiros na hora: ‘eu perdi o Mundial’. Foram as palavras que saíram da minha boca.

GE.NET – A contusão de 2008 doeu mais do que a perda do pênalti de 2004?

NETO: Com certeza. Quando o pessoal estava fazendo os treinos do Mundial, eu ainda vim ao Brasil, participei de toda a preparação com o time. Eu podia fazer trabalhos físicos, só não podia mexer com bola. Pude ver o pessoal desfrutar daquele momento. Foi difícil, mas tinha que seguir a vida. Hoje, graças a Deus, estou totalmente recuperado e posso fazer o que mais gosto em alto nível.

GE.NET – A sua posição é bastante concorrida na Seleção, com o Carlinhos, o Ciço. O time do Grand Prix, em outubro, deve ser a base do Mundial de 2012. Como você observa essa disputa? O título de melhor da Copa América o tranquiliza?

NETO: Não é ficar tranquilo, falar de cadeira cativa na Seleção é complicado, a gente sabe que alguns têm a confiança do treinador (Marcos Sorato). Sei da quantidade de jogadores para pouquíssimas vagas. Eu procuro fazer o meu melhor, dou o máximo em torneios e amistosos. Quero pegar a confiança e fazer parte dos planos dele. Não tem como dizer se eu estou perto ou longe. Só quero estar na lista final. Tomara que ele leve os melhores, mas claro que alguém vai ficar fora, pela enorme quantidade de jogadores que o Brasil forma.

GE.NET – Nos últimos 15 anos, o principal adversário do Brasil tem sido a Espanha, que já ganhou títulos. No ano passado mesmo, os espanhóis venceram o Brasil no Grand Prix. Hoje eles estão um pouco à frente?

NETO: É difícil falar. Se você observar o retrospecto em Mundiais, a Espanha venceu nos pênaltis em 2004, o Brasil ganhou nos pênaltis em 2008. Em 2005, também foram disputados dois amistosos e cada país ganhou um. A gente sabe que é parelho, não tem como dizer quem está na frente. São as duas equipes que estão na ponta da modalidade. Uma sabe jogar bem contra a outra. Agora, outras equipes estão surgindo e também proporcionam dificuldades.

GE.NET – Com tantos anos de Seleção e experiência em clubes, como você classifica a forma de trabalho do Pipoca (técnico Marcos Sorato)?

NETO: O Pipoca é um treinador que exige o máximo do atleta, ofensivamente e defensivamente. O trabalho dele é semelhante ao do PC (Paulo César de Oliveira, ex-técnico da Seleção e atual comandante do Corinthians), que foi o grande professor dele. A linha é parecida na questão de tirar o máximo de cada um. Podem falar de alguns resultados, mas ele vai tentar tirar o melhor de cada no Mundial.

GE.Net – Agora, na volta ao Santos, vocês terão uma série de decisões pela frente, certo? Na quarta-feira, começa o confronto contra o Cascavel, pela Liga Futsal. Mais para frente, vocês também terão os jogos da semifinal do Paulista.

NETO: Entramos na reta de mata-mata da Liga Futsal, tivemos a melhor campanha da primeira fase, mas depois ficamos em segundo lugar na etapa de grupos. Agora, vamos decidir as quartas de final fora de casa, o que acho que é o grande erro do campeonato, não privilegia o time que foi melhor. Mas isso é passado, agora vamos trabalhar de acordo com o Cascavel, nosso próximo adversário. Sabemos que ter feito a melhor campanha não adianta nada, o time não será lembrado por isso. A gente espera que o time possa dar o melhor tanto na Liga Futsal como na semifinal do Paulista (contra o São Paulo), pois já vínhamos intercalando as duas competições.